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Opinião

Nós adultos passaremos e elas crianças, passarinhos

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Alcides Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf – Médico; Presidente da Associação dos Amigos da Biblioteca Pública do Estado do RS e Patrono da 27ª Feira do Livro de Erechim
Foto Divulgação

Quando me convidaram para ser patrono da 27ª Feira do Livro de Erechim, pensei imediatamente em Mário Quintana. Não apenas pelo amor aos livros, mas pela capacidade que ele tinha de dizer muito com poucas palavras. Discursos de abertura não precisam ser longos. E os de despedida, menos ainda. Há sentimentos que não suportam excessos. Pedem delicadeza.

Por isso, decidi falar pouco, embora desejasse deixar uma mensagem duradoura, e registro nas páginas do Jornal Bom Dia.

Carrego comigo agradecimentos especiais. Ao prefeito Paulo Polis, ao secretário Wallace Soares, à querida Zeni Bearzi (presidente da AEL) e aos colegas da Academia Erechinense de Letras. À professora Lúcia Pagliosa, cuja dedicação à cultura merece reconhecimento permanente. Ao homenageado Santa Maria, companheiro desta caminhada literária. E também aos nossos “três mosqueteiros” da imprensa (José Adelar Ody, Rodrigo Finardi e Salus Loch), porque certas amizades e certas presenças ajudam a manter viva a alma de uma cidade.

Mas a verdade é que todos merecem ser saudados. Os presentes e também os ausentes.

Uma cidade do interior, distante da capital, com pouco mais de cem mil habitantes, realizar uma feira desta magnitude não é algo comum. Há grandes centros que não conseguem reunir o entusiasmo cultural que vejo florescer aqui. Erechim merece ser reconhecida por inteiro. Não apenas pela grandiosidade da programação, mas pela consciência silenciosa de que cultura também constrói desenvolvimento, pertencimento e identidade.

E isso não nasceu hoje, embora hoje floresça com força admirável.

Nossa ancestralidade percorreu caminhos difíceis. Houve coragem, renúncia e espírito de cooperação. Italianos, alemães, poloneses e judeus chegaram há pouco mais de um século e aqui criaram raízes ao lado dos povos indígenas e negros que já habitavam esta terra. Dessa mistura nasceram troncos fortes. E desses troncos cresceram árvores frondosas, que seguem florescendo em encontros como esta feira do livro.

Aqui, o livro floresce no Jardim do Quintana. Mas florescem também as danças, as músicas, os sotaques, as conversas demoradas e os mates compartilhados ao redor do fogão a lenha. Cultura não é apenas espetáculo. É aquilo que respiramos sem perceber. Está no cotidiano, nas memórias de família, nos hábitos simples que sustentam nossa humanidade.

Talvez seja por isso que esta feira tenha alcançado algo tão bonito.

Como patrono, saio profundamente emocionado ao ver músicos, escritores, artistas, livreiros, trabalhadores da limpeza, da logística, da alimentação, servidores públicos e voluntários unidos por um mesmo propósito. Vejo também o esforço do poder público e do Legislativo, especialmente na distribuição de milhares de vales-livro, permitindo que crianças e jovens levem histórias para casa.

Mas meu maior agradecimento é ao público.

Vocês chegaram em número inesperado. Vieram em ‘dimensões insonháveis’, como diria Quintana. Cada corredor cheio, cada criança segurando um livro, cada família caminhando pela praça confirmou aquilo em que sempre acreditei. Uma cidade só cresce verdadeiramente quando cresce também espiritualmente.

Erechim é uma cidade ainda jovem, mas já madura em sensibilidade.

Despeço-me com a alegria de quem sabe que voltará. Porque existe aqui uma chama rara. Uma brasa de conhecimento e afeto que nunca se apaga. E jamais se apagará.

Por fim, agradeço especialmente às famílias que trouxeram suas crianças. Nelas mora o futuro. Nelas repousa a esperança dos dias melhores que ainda construiremos.

Porque nós adultos passaremos e elas crianças, passarinhos.

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