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Quando uma cidade decide fazer o certo porque é o certo a ser feito

Vilarejo na Holanda salvou judeus do nazismo durante a 2ª Guerra Mundial

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Divulgação
Por Salus Loch
Foto Divulgação

Acompanhando os episódios desta semana, envolvendo o nazismo e alguns desmiolados com voz na mídia nacional, lembrei de uma história que ocorreu numa fria manhã de fevereiro de 1945.

Há 77 anos, uma unidade holandesa da SS nazista notou um homem de aparência estrangeira andando por uma fazenda naquela vila remota. Os seguidores de Hitler confrontaram o proprietário da fazenda, Jan van der Helm, e o mataram a tiros quando ele tentou escapar.

No local do assassinato, eles descobriram cinco judeus escondidos na propriedade e espancaram um deles, Szaya Reiner, até a morte na frente de sua esposa, dois filhos e seu sobrinho. Os quatro restantes foram enviados para um campo de concentração e, eventualmente, sobreviveram ao Holocausto.

O assassinato de van der Helm, pai de dois filhos, foi uma tragédia chocante para a comunidade rural de Nieuwlande (se diz “new landuh”). No entanto, o ataque poderia ter sido muito pior para a aldeia.

Sem o conhecimento dos nazistas, a fazenda de van der Helm era apenas a ponta do iceberg de uma operação de resgate coletivo quase única. Quase todos os cerca de 700 moradores de Nieuwlande estavam envolvidos em esconder e salvar centenas de judeus, bem como combatentes da resistência e desertores alemães.

Em 1985, Nieuwlande tornou-se um dos dois únicos locais homenageados coletivamente pelo museu do Holocausto Yad Vashem, de Israel, por resgatar judeus, ao lado de Le Chambon-sur-Lignon, na França.

Pesquisando sobre a história da pequena vila – além de consolidar meu desejo de conhecer o local, descobri alguns outros elementos interessantes, que compartilho aqui, a partir de material produzido pela Morashá, em sua edição 113, de dezembro de 2021.

 

A história secreta

O pequeno vilarejo holandês de Nieuwlande foi palco de um dos principais resgates coletivos de judeus, durante o Holocausto. Ao longo da 2ª Guerra Mundial, a população local decidiu que cada lar esconderia uma família judia ou pelo menos um judeu. Esta história extraordinária, no entanto, ainda é pouco conhecida, inclusive na Holanda. Durante a guerra, o silêncio era essencial, mas, atualmente, é importante que a história seja contada e recontada, seja em Erechim, Brasília ou em Amsterdam.

 

Durante a Guerra

A invasão da Holanda começou em 10 de maio de 1940. As autoridades alemãs encontraram muitos colaboradores no país, que teve um dos maiores índices de mortalidade entre judeus da Europa Ocidental ocupada. Dos 140 mil judeus holandeses, mais de 100 mil foram assassinados. Por outro lado, a Holanda tem, também, o segundo maior número documentado de indivíduos que se arriscaram para salvar judeus. A geografia do território dificultou a fuga da população judaica, portanto, muitos tiveram que se esconder. Entre 25 mil e 30 mil judeus conseguiram se esconder auxiliados pela Resistência clandestina holandesa. Dois terços dos que conseguiram se esconder sobreviveram à Shoá.

A deportação dos judeus teve início no verão de 1942. Entre 1942 e 1943 a população de Nieuwlande decidiu que cada lar esconderia uma família ou pelo menos um único judeu, o que muitos fizeram ao longo da Guerra. A maioria dos moradores envolveu-se na operação, salvando centenas de judeus, dentre os quais muitas crianças. Dada a natureza coletiva do esforço, reduziu-se parte do perigo para os moradores: não havia medo de denúncia, já que todos eram parceiros no “crime”. Localizado em uma área rural, Nieuwlande era um vilarejo composto por pouco mais de 150 fazendas distantes umas das outras e separadas por valas. A configuração da cidade era favorável à manutenção do segredo, e até a igreja local era usada como esconderijo.

 

Rede de apoio

À frente da operação de resgate estavam Johannes Post e Arnold Douwes. O primeiro era fazendeiro e conselheiro do povoado, e foi responsável pelo recrutamento do segundo, filho de um pastor. Post foi um herói muito famoso da Resistência holandesa. Mesmo não sendo muito próximo dos judeus ou do judaísmo, dedicou-se incansavelmente a ajudá-los à medida que o antissemitismo se tornava cada vez mais evidente.

Douwes, Post e a Resistência trabalhavam para esconder judeus e outras pessoas que fugiam dos nazistas. Era uma empreitada complexa e perigosa. Envolvia recrutamento, gerenciamento e arrecadação de recursos para garantir documentos, cartões de racionamento, assistência médica e, o mais importante, encontrar pessoas dispostas a abrigar os fugitivos. Cada um dos que os procuravam recebia alimentos, novos documentos e dinheiro. Douwes e Post criaram um código para identificação de cada refugiado de acordo com o sexo e idade.

Quando, em 1943, tornou-se arriscado para Johannes Post permanecer na região, Douwes assumiu o seu lugar e passou a administrar, sozinho, toda a rede de resgate.

Imbuído do objetivo de salvar o maior número de pessoas, Arnold Douwes atravessava grandes distâncias, de bicicleta, parando de casa em casa, de fazenda em fazenda, perguntando se os moradores aceitariam abrigar uma criança judia. Em alguns casos, quando tinha seu pedido negado, forçava as pessoas a aceitar e dar abrigo a um fugitivo dizendo que eram ordens da Resistência.

Nesse processo de percorrer o campo em busca de novos refúgios, Douwes contou também com a ajuda de Max (Nico) Leons, judeu refugiado em Nieuwlande. Além de Nico, alguns judeus escondidos na cidade tiveram forte participação na Resistência. Entre eles, Isador Davids e Lou Gans, dois jovens judeus refugiados que produziam cartões e panfletos antinazistas ridicularizando os alemães. Os cartões eram vendidos para arrecadar recursos para o esforço de resgate.

Depois de serem convocadas para o processo de deportação, as famílias judias – muitas das quais viviam em Amsterdã – eram encaminhadas a Arnold Douwes, para que a rede pudesse auxiliá-los a viver na clandestinidade. Muitas vezes ele mesmo entrava em contato com essas famílias, em Amsterdã, incentivando-os a permitir que seus filhos fossem levados para outros lugares mais seguros. Ele mesmo os buscava em Amsterdã ou na estação de trem de seu distrito e os levava – adultos e crianças – para locais seguros.

Além de refúgios adicionais para as novas pessoas que chegavam, muitas vezes era necessário encontrar novas casas para os que já estavam escondidos. A situação mudava repentinamente e de um minuto a outro um determinado lugar deixava de ser seguro. Em inúmeras ocasiões, Douwes, de bicicleta, transferia os foragidos de esconderijo. Membros da Resistência também construíam esconderijos na floresta, logo além da linha das casas, onde os judeus poderiam se refugiar temporariamente se alguma incursão nazista estivesse se aproximando.

De certa forma, as pessoas escondidas em Nieuwlande desfrutavam de alguma liberdade e alguns até trabalhavam nos campos. A liderança estava consciente de que o povoado inteiro poderia ser punido se a operação fosse descoberta, por isso foram adotados medidas e procedimentos de segurança para garantir o sigilo, como a proibição de qualquer comunicação entre os escondidos e o mundo exterior.

Arnold Douwes foi logo incluído na lista dos mais procurados pela Gestapo e, para não ser preso, mudou até a sua aparência. Mas acabou sendo capturado em 1944. Enquanto aguardava a execução foi resgatado em operação executada pela Resistência. Permaneceu escondido até a libertação da Holanda. Johannes Post foi capturado pelos nazistas e executado em 1944. A Holanda foi libertada pelos aliados em 5 de maio de 1945.

 

Depois da Guerra

Ao término da Guerra Arnold Douwes se casou com Jet Reichenberger, uma mulher judia a quem havia resgatado. Na década de 1950, eles emigraram para Israel, onde viveram em um moshav e criaram três filhas. Acabaram se divorciando e, após a separação, Douwes retornou à Holanda. Ele foi homenageado pelo Estado de Israel com o título de “Justo entre as Nações”, honraria concedida a não judeus que arriscaram a vida para salvar nossos irmãos durante a Shoá. E Yad Vashem guardou seu nome para a posteridade com o plantio de uma árvore no início da Avenida dos Justos entre as Nações, em frente à entrada do Museu.

Temperamental que era, como ele próprio se descrevia, Douwes ameaçou queimar sua árvore no Yad Vashem se todo o seu povoado não fosse também homenageado. Em 1988 o Museu dedicou um monumento ao vilarejo e a todos seus habitantes.

Johannes Post, responsável por recrutar Douwes e iniciar as atividades para esconder judeus em Nieuwlande, também foi homenageado postumamente com o título de “Justo entre as Nações”. Em 1985, em uma rara entrevista concedida ao jornal regional Nieuwsblad van het Noorden, Arnold Douwes declarou: “Eu fiz tudo isso porque não tinha outra escolha”. Douwes faleceu em 1999, aos 93 anos. Max “Nico” Leons, o judeu que trabalhava para a Resistência em Nieuwlande, também sobreviveu à Shoá, falecendo em 2019.

Nos últimos anos, Nieuwlande começou a contar sua história. Um dos esconderijos usados para abrigar judeus foi restaurado e transformado em monumento em lembrança à Guerra. Na fachada vê-se uma cópia do certificado do Yad Vashem, em hebraico, concedido à cidade (foto à pág. 59).

Em 2018, foi inaugurado em uma velha escola da cidade o primeiro museu em homenagem ao resgate, com o nome de “De Duikelaar”, nome do jornal clandestino de Lou Gans e Isador Davids. “Contar a história é dizer que o que aconteceu aqui foi extraordinário, mas para muitos dos que participaram da operação e suas famílias, era tão evidente que era a coisa certa a se fazer que não era algo a se orgulhar”, disse Hanneke Rozema, moradora da cidade e uma das fundadoras do museu.

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