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‘O cenário era de filme de guerra’

Testemunho é de Dona Ivete, moradora de Erechim, que ficou internada com a covid-19 numa unidade de tratamento semi-intensivo em Milão, na Itália

Dona Ivete, 64, contraiu a covid-19 quando foi à Itália para o nascimento do neto
Por Salus Loch
Foto Divulgação

Dona Ivete, 64, contraiu a covid-19 quando foi à Itália para o nascimento do neto. Nesta reportagem, ela - que se recupera em isolamento domiciliar - conta sua experiência, revela o cenário da doença no país europeu e dá um importante recado: se possível, fique em casa. Confira:

Nascimento do neto

“Meu nome é Ivete, sou natural de Aratiba, resido em Erechim e contraí a Covid19 na Itália. Minha passagem a Milão foi comprada em agosto de 2019; com saída do Brasil em 6 de fevereiro de 2020 e o retorno em 26 de março. A viagem teve como finalidade acompanhar o nascimento de meu neto, Marco. Cheguei em Milão no dia 7 e meu neto nasceu dia 8. Naqueles dias o coronavírus ainda era uma incógnita e, no Brasil, ouvia-se falar alguma coisa sobre o assunto, embora parecesse algo muito distante. Na Itália, o vírus ainda não havia chegado, ou pelo menos não tínhamos conhecimento. O país em geral foi relutante em admitir que havia necessidade de isolamento social. Milão até lançou uma campanha com o slogan “Milano non si ferma” ou seja “Milão não para”, motivo de arrependimento das autoridades depois que a pandemia se tornou praticamente incontrolável. Hoje, quem acompanha as notícias da Itália sabe dos números assustadores (mais de 12 mil mortos), que falam por si só”.

Todos gripados

“Meu filho e minha nora moram na Itália há mais de 15 anos. São enfermeiros; ele presta serviços em domicilio e ela trabalha em um grande hospital de Milão, portanto, ambos em área de risco, apesar de no momento minha nora estar em licença maternidade. Meu filho até então estava em exercício de suas atividades. Supomos, não temos certeza, que quem contraiu o vírus primeiro foi meu filho, talvez de algum paciente, apesar dele tomar sempre todos os cuidados necessários. Acontece que no início de março meu filho teve uma forte gripe, em seguida minha nora, meu neto e eu. Todos ficamos gripados. Como prevenção, meu filho se afastou de suas atividades e procuramos fazer o isolamento domiciliar por conta própria, pois tínhamos em casa um recém-nascido. Passamos a sair só quando extremamente necessário, mas sempre protegidos por máscaras e luvas e antes de sair e no retorno fazíamos higiene com álcool. Com o passar dos dias fomos tendo quase certeza de que estávamos os quatro infectados, pois apresentávamos sintomas do coronavírus, porém o “tampone” (exame para detectar a presença do coronavírus) é de acesso restrito; se a pessoa não estiver se sentindo muito mal ele não é feito”.

Piora gradativa

“Enquanto os demais melhoravam, eu piorava. Na madrugada do dia 6 tive fortes dores em todo corpo, cada centímetro doía. Dias depois comecei a ter febre, calafrios, coriza, fortes dores de cabeça e uma fraqueza inexplicável. Não conseguia parar em pé por mais de 5 minutos. Até para falar eu cansava, ao mesmo tempo em que perdi o paladar e o olfato. Comecei a receber, ainda em casa, medicação para dor e febre, mas meu caso só foi piorando; até que dia 16 de março decidimos procurar ajuda médica, pois estava sentindo que minhas forças estavam acabando e as dores e a febre não cediam. Combinamos de ir no dia seguinte ao médico”.

Cenário de guerra

“Na manhã do dia 17, nos dirigimos até o Ospedale Humanitas, em Milão, onde existe uma grande estrutura montada para receber pacientes com coronavírus. Na chegada fomos recebidos em um container por uma enfermeira muito bem protegida com três camadas de aventais, duas camadas de luvas, sendo que a cada atendimento o avental e as luvas externas tinham que ser trocados. Ela ainda usava máscara, óculos de proteção, touca no cabelo e por fim um escudo facial em acrílico, muito parecido em seu formato com aquelas máscaras usadas por soldadores. Nenhuma parte do corpo ficava exposta. Enfim, a enfermeira iniciou medindo minha temperatura, estava em 38.8. Com esse dado já me encaminhou para o interior do pronto socorro. Lá haviam algumas pessoas que tinham chegado durante a madrugada. Fui atendida por uma médica e fiz outros exames, como do H1N1, de sangue, de urina, eletrocardiograma, gasometria, tomografia do pulmão e outros que não recordo. O tempo de espera não foi longo, mas parecia uma eternidade”.

Pneumonia bilateral

“A tomografia apresentou uma pneumonia bilateral e juntamente com o resultado dos demais exames fui considerada apta a fazer o “tampone”. O material para o exame foi colhido por volta das 13h e fui encaminhada para uma “tenda” armada no estacionamento do pronto-socorro com cerca de 50 leitos. Estava lotado. Pessoas de todas as idades, em sua maioria, idosos em silêncio com expressões eram de medo e pavor. O cenário era de filme de guerra. A essa altura eu já não aguentava mais as fortes dores de cabeça e falta de ar, então comecei a ser medicada com analgésicos. Às 16h já tínhamos o resultado do “tampone” “positivo para o coronavírus”. Fiquei na tenda mais algumas horas aguardando leito e no final da tarde fui encaminhada para dentro do hospital.

Tratamento

“Já no quarto, em uma ala de terapia semi-intensiva (destinada àqueles que ainda não têm necessidade de respiradores, mas que necessitavam de uma intervenção imediata com medicamentos e acompanhamento dos sinais e sintomas), comecei a terapia com antibiótico, antirretroviral, analgésicos e outros medicamentos. Meus sinais eram verificados seguidamente e material para exames eram colhidos. Só no primeiro dia foram feitos três eletrocardiogramas, onde apareceu um sinal de infarto, que felizmente era o mesmo dos dois infartos que sofri há 15 anos; e não um novo”.

Travesseiro de pedra e inferno

“Com o passar das horas, as dores de cabeça ficaram mais intensas. Passei muito mal toda a noite e cheguei a pensar que estava com meningite. Não conseguia ficar de pé nem deitada, o travesseiro parecia de pedra, a febre provocava delírios e confusão mental, o barulho dos monitores e da movimentação dos enfermeiros com macas e falando nos corredores parecia ressoar na minha cabeça, a sensação era de estar no inferno. No dia seguinte, se iniciou também uma forte diarreia. E assim foram passando os dias com intensa terapia medicamentosa, muitas noites sem dormir, muita dor, febre que ia e voltava e muita falta de ar. Enfim, aos poucos fui melhorando e no sexto dia fui transferida para outra ala do hospital por estar respondendo bem ao tratamento. No oitavo dia, em 24 de março, tive alta do hospital, uma vez que garantimos a possibilidade de isolamento domiciliar por mais 15 dias”.

Higiene

“Acho importante salientar que a mesma proteção pessoal dos profissionais que verifiquei na entrada do pronto-socorro, vi nos profissionais dentro do hospital, sendo sempre descartado o avental externo e luvas bem como todo e qualquer material utilizado durante o atendimento, mesmo sem o toque. Só o fato do profissional entrar no quarto com o material já era considerado infectado. Somente alguns materiais - tipo medidor de pressão e saturação - eram reutilizados, mas sempre com a desinfecção com álcool entre o uso em um paciente e outro. O lixo considerado infectado era depositado em um grande recipiente com tampa que ficava dentro do banheiro, lá se acondicionava desde os materiais da enfermagem e até mesmo os restos das refeições, bem como os recipientes e talheres que eram descartáveis. Tudo que entrou no quarto e que que o paciente pudesse ter tocado, ou não, era descartado. Duas vezes por dia era recolhido e encaminhado para incineração”.

Dias ainda difíceis

“Ainda tenho tido dias difíceis, ainda me sinto um tanto fraca, com falta de ar e as vezes a dor de cabeça volta, agora em intervalos de tempo bem maiores e com menor intensidade. Depois de 15 dias da alta hospitalar farei novo “tampone”, se der negativo estarei livre do isolamento, se der positivo terei que continuar até que dê resultado negativo, depois de 25 dias da alta farei nova tomografia para verificar a situação do pulmão que até o momento ainda provoca muita falta de ar. Ainda não se sabe se ficarão sequelas, mas é algo que deverei fazer um acompanhamento mais tarde”.

Multa de até 3000 euros

“Vale frisar que desde o momento que meu “tampone” deu positivo, meu filho foi obrigado a se auto denunciar junto à Secretaria de Saúde de Milão; não podendo mais, por 15 dias a partir do meu exame, sair de casa para nada - nem ele, nem minha nora e meu neto, nem mesmo para ir ao mercado ou farmácia. Por sorte um irmão da minha nora mora no prédio ao lado e ele se encarrega de manter-nos abastecidos. Mesmo assim, para poder transitar ele teve que expedir uma licença para circulação, pois andar na rua sem autorização pode acarretar em multa de 200 a 3000 euros”.

Na Itália

“Minha passagem de volta estava marcada para o dia 26 de março, mas não pude voltar por dois motivos, primeiro que os voos para o Brasil pela empresa aérea do meu bilhete foram todos cancelados, segundo, que não posso voltar sem antes terminar o tratamento e ficar totalmente restabelecida. Outra preocupação que temos é o fato de ainda não sabermos se uma pessoa que já contraiu o vírus uma vez pode ser infectado novamente, então prefiro esperar a situação se normalizar no Brasil para depois retornar”.

Vai passar

“Meus amigos do Brasil, cuidem-se! Quem puder, fique isolado. Se alguém precisa mesmo trabalhar, caso não haja alternativa, trabalhe, até porque alguém tem que manter o abastecimento principalmente de mercados e farmácias, mas sempre bem protegidos e seguindo as recomendações de precaução, e ao retornarem para casa evitem se aproximar dos idosos e de pessoas que já possuam alguma outra doença, mesmo não tendo sintoma, pois a pessoa pode ter o vírus e ser assintomática. Se puderem destinar aos idosos uma ala independente da casa com banheiro e demais dependências, façam! Alcancem tudo o que eles precisam, sempre com o cuidado da desinfecção. Conversem, riam, mas tudo a uma distância segura. Com certeza isso vai passar e teremos tempo para nos abraçarmos e comemorarmos, por enquanto, quem puder, fique dentro de casa. Desejo muita saúde a todos”.

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