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Especial

Refugiados: 81 anos depois, o que a viagem do St. Louis pode nos ensinar?

Transatlântico que levava judeus alemães fugindo do regime nazista não conseguiu desembarcar em Cuba nem nos EUA, e teve que voltar à Europa. Resultado: boa parte dos passageiros foi morta em campos de concentração e extermínio pelo 3º Reich durante o Holocausto, na Segunda Guerra Mundial

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Por Salus Loch
Foto Arquivo

Em 13 de maio de 1939, o transatlântico SS St. Louis saiu de Hamburgo, na Alemanha, com destino a Cuba, carregando a esperança de 937 refugiados judeus alemães, que, perseguidos e segregados em sua própria pátria e indesejados no exterior, viam naquela viagem uma chance de sobreviver e recomeçar.

Decreto 55

No início de 1939, o governo cubano aprovou o Decreto 55, que permitia a entrada de refugiados portadores de vistos de imigração e do comprovante de pagamento da taxa de US$ 500, como garantia de que a pessoa não seria um peso para o país. Turistas ou pessoas em trânsito, não necessitavam de visto. Neste cenário, o diretor-geral da Divisão de Imigração de Cuba, Manuel Benitez Gonzalez, ao identificar que o decreto não especificava quem era considerado turista ou refugiado, passou a vender, por US$ 150, "autorizações" que permitiam o desembarque na ilha caribenha de pretensos turistas. A empresa marítima Hamburg-America Line (Hapag), responsável pela viagem dos judeus alemães, comprou de Benitez centenas dessas autorizações, conforme descreve a Revista Morashá.

O St. Louis

Transatlântico de grande porte, o St. Louis possuía oito deques que abrigavam 400 passageiros na 1ª classe e 500 na classe turística. A cabine na 1ª classe custava, por pessoa, 800 Reichmarks (moeda vigente durante o 3º Reich); na 2ª classe o custo era de 600 Reichmarks, e ainda outros 230 marcos - uma taxa para "contingências" que, supostamente, cobriria as despesas no caso de uma inesperada viagem de retorno. Parte se desfez de todos os bens para garantir a passagem, ou apelou a parentes e ‘vaquinhas’ a fim de garantir o dinheiro. Muitos se viram obrigados a deixar suas famílias, esperando buscá-las algum dia. A maioria (734) tinha também requerido vistos para os EUA, planejando ficar em Cuba até ter permissão (que, legalmente, variava de três meses a três anos), para entrar no país vizinho.

Todos os passageiros judeus, inclusive os mais proeminentes, como o advogado Max Loewe, que lutara pela Alemanha na Primeira Guerra Mundial, tendo sido condecorado por heroísmo, tiveram seus passaportes carimbados com a letra ‘J’, em vermelho.

Ansiedade e expectativa

Navio de tripulação alemã, com uma suástica na bandeira e foto de Hitler no salão principal, o St Louis, coforme a Morashá inspirava receios nos passageiros, que não sabiam que o Capitão da embarcação, Gustav Schroeder, alertou a tripulação que os judeus haviam pago as passagens integralmente e, portanto, deviam ser tratados com consideração e respeito. A tripulação acatou as ordens do Capitão, com exceção de Otto Schiendick, membro da polícia secreta alemã (Abwehr). Sua missão era levar de volta à Alemanha informações sobre a movimentação militar norte-americana.

Os passageiros

À bordo do navio havia homens que, tendo sido enviados para Dachau e Buchenwald após a ‘Noite dos Cristais’, em novembro de 1938, tinham sido libertados com a condição de que deixassem a Alemanha, para sempre, no prazo de duas semanas.

As crianças, por sua vez, dividiam o tempo entre brincadeiras, passeios pela cabine do Capitão e pelo navio. Estavam felizes.Há anos não tinham permissão de brincar nas praças públicas, playgrounds nem de freqüentar as escolas ‘arianas’. Os adultos relaxavam, nadavam na piscina, tiravam fotos, comiam refeições servidas por alemães, ou, no caso das mulheres, passavam horas no salão de beleza. Às noites havia música e baile. A liberdade parecia cada vez mais próxima. O pesadelo nazista, cada vez mais distante...

Certificados negados

Em 23 de maio, contudo, o Capitão Schroeder recebeu um telegrama alertando-o de que as autoridades cubanas não autorizariam o desembarque em Havana de passageiros com os "certificados Benitez" - o que constituía a maioria dos embarcados no St. Louis.

Somente aqueles que possuíam vistos de imigração e o comprovante do pagamento dos US$ 500 regulamentares poderiam entrar em Cuba. Após receber tal notícia, o Capitão formou um pequeno comitê entre os passageiros para explorar as possibilidades de desembarque na ilha.

Benitez, o golpista

A venda ilegal de certificados de desembarque por Benitez provocara a ira de membros do governo cubano. Segundo estimativas norte-americanas, Benitez amealhara um "pé-de-meia" entre US$ 500.000 e US$ 1.000.000, soma que não pretendia dividir com ninguém. Em 5 de maio, uma semana antes da partida do navio, o presidente cubano, Federico Laredo Bru, emitiu o Decreto 937, eliminando qualquer dúvida de interpretação do precedente Decreto 55. Ou seja, invalidava todos os "certificados Benitez".

Antes da partida da embarcação, a Hamburg-America Line, proprietária do St. Louis, tinha conhecimento de que a maioria dos passageiros haviam adquirido o pacote incluindo passagem, certificado de desembarque e visto de trânsito de Benitez - e que provavelmente enfrentariam problemas ao desembarcar em Cuba.

Vítimas do antagonismo cubano

Em resumo, os judeus se tornaram vítimas do antagonismo existente em Cuba entre as diferentes facções políticas e a difícil situação econômica. No meio de forte recessão, o país já absorvera grande fluxo de refugiados, entre os quais cerca de 4 mil judeus; sendo que os recém-chegados eram vistos pela população local como concorrentes a suas próprias vagas no mercado de trabalho.

Esse antagonismo e a xenofobia contra os refugiados estavam sendo utilizados por Goebbels. Ele tinha dois objetivos: mostrar ao mundo que ninguém se importava com os judeus e ‘limpar’ a imagem dos nazistas e sua política judaica.

Goebbels enviou agentes a Havana para fomentar o antissemitismo na ilha e organizar protestos. Antes mesmo que o navio deixasse Hamburgo, os jornais cubanos de direita publicaram matérias contra a iminente chegada do SS St. Louis, conclamando o governo a impedir a entrada de refugiados no país, principalmente judeus. A maior demonstração antissemita da história da ilha ocorreu em Havana em 8 de maio, cinco dias antes que o St. Louis levantasse âncora. Na manifestação, os cubanos foram incitados a "combater os judeus até que o último deles fosse expulso". O protesto reuniu 40.000 pessoas. Além de milhares acompanhando pelo rádio.

Refúgio negado

Em 27 de maio, o St Louis entrou em águas territoriais cubanas. Um dia antes da chegada, o Capitão recebeu um telegrama de Luis Clasing, representante da Hapag em Havana, informando que o navio teria que atracar no ancoradouro, e não no cais da companhia. Lá, funcionários da Imigração vistoriaram o navio e deixaram guardas para impedir o desembarque. Familiares e amigos que tentavam aproximar-se não puderam fazê-lo.

A atmosfera ficou tensa quando deu-se permissão de desembarque a apenas 22 passageiros judeus - todos de posse de vistos e do recibo do pagamento dos US$ 500, e a quatro espanhóis e dois cubanos. O restante, portadores dos “certificados Benitez”, receberam ordem de esperar. Inutilmente o Capitão tentou acalmar os ânimos, assegurando que não os levaria de volta à Alemanha.

As instituições judaicas internacionais só perceberam a gravidade do caso quando o governo cubano se manteve firme, não autorizando o desembarque dos judeus sem vistos legítimos. No dia seguinte, chegou a Cuba, vindo dos USA, Lawrence Berenson, do American Jewish Joint Distribution Committee, para negociar com o presidente Laredo Bru. Depois de cinco dias, as negociações fracassaram. A proposta presidencial era que o AJDC pagasse entre US$ 450-500 por pessoa. Berenson fez uma contra-proposta que Bru, além de recusar, ainda usou como pretexto para interromper as tratativas.

Encalhados em Cuba

72 horas após chegar a Cuba, o Capitão Schroeder reúne novamente o comitê de refugiados a bordo. Pede-lhes que escrevam cartas a pessoas influentes, amigos e familiares clamando por ajuda. As autoridades cubanas haviam tomado todas as providências para impedir que as pessoas pulassem na água e tentassem chegar em terra a nado. O navio fora cercado, o número de policiais a bordo aumentara. A pergunta que não calava era: o que eles fariam se fossem levados de volta à Alemanha?

Insensibilidade mundial

A história do navio da Hapag já estava nas manchetes dos jornais europeus e dos EUA. O ministro do exterior de Cuba afirmava que o Gabinete resolveria. E o Gabinete resolveu: o retorno era a única opção. Se o navio não zarpasse por bem, tomar-se-iam medidas mais drásticas. O clima de terror a bordo era tal que o Capitão Schroeder temia suicídios em massa, pois muitos passageiros haviam declarado preferir a morte a voltar. Apesar da divulgação da posição do governo cubano, as tentativas de fazer o presidente Bru mudar de opinião continuaram, e mais dois enviados do Joint uniram-se às negociações. As lideranças judaicas não acreditavam que teriam que pagar aquele valor exorbitante, imaginando que US$ 125.000 bastariam. Infelizmente estavam errados. Bru encerrou definitivamente as negociações. Quando, no dia seguinte, o Joint concordou em pagar a quantia pedida na íntegra, o presidente cubano simplesmente afirmou: "É tarde demais". A opção de atracar em Cuba estava descartada. O impossível acontecera, como descreve em artigo de 2009 a Revista Morashá.

EUA também nega desembarque

Sem outra alternativa a não ser levantar âncoras, o St. Louis se afastou de Cuba e o Capitão dirigiu-se à costa da Flórida. Esperava que os EUA, sob a gestão de Franklin D. Roosevelt, aceitassem a entrada dos refugiados judeus no país. Mais uma vez, um sopro de esperança: uma mensagem autorizando o desembarque na Ilha da Juventude, ao largo de Cuba. Na manhã seguinte, o desmentido. Desesperados, os refugiados já não pensavam. Os EUA também deixaram de ser uma opção (por essa razão, até hoje, Roosevelt é acusado de ter permanecido indiferente à circunstância dos judeus, que viriam a ser assassinados no Holocausto). Em 5 de junho, anunciaram que ninguém poderia descer do navio na costa da Flórida. Ainda havia alguma esperança de que algum país europeu os recebesse. Em vez de seguir diretamente a um porto alemão, Schroeder arrastou a viagem de volta o quanto pode, recusando-se a regressar à Alemanha até encontrar um porto seguro para seus passageiros.

Pequenos grupos

Quando tudo parecia perdido, o Joint conseguiu convencer alguns países a receber grupos pequenos de passageiros. A Holanda concordou em receber 181; a França, 228; a Inglaterra, 228; e a Bélgica, 214. Em 7 de junho, o St. Louis rumou a países que em breve seriam ocupados pelas tropas hitleristas. Entre 16 e 20 de junho, os passageiros do St Louis foram transferidos para outros navios e levados a seu novo destino. Os restantes se viram obrigados a descer em Hamburgo, em 20 de junho. Depois de ter atravessado o oceano duas vezes em menos de 40 dias, os judeus sentiam-se sós e rejeitados pelo mundo.

Destino fatal

Com a eclosão da 2ª Guerra Mundial, poucos meses depois, e com a ocupação dos países nos quais haviam sido autorizados a desembarcar, muitos acabaram sendo enviados para o Leste europeu. Uma pesquisa do Museu do Holocausto realizada por Sarah Ogilvie e Scott Miller e publicada no livro ‘Refuge Denied’, sobre o destino daqueles passageiros, revelou que a maioria dos enviados à Inglaterra sobreviveram. No entanto o destino dos que desembarcaram na Europa continental foi mais sombrio: 254 morreram, a maioria em campos de concentração; 365 sobreviveram; desses, 87 conseguiram emigrar para os EUA antes de a Alemanha invadir os países que os acolheram.

‘Vitória’ de Hitler e o brilho do Capitão

Para Hitler, o caso do SS St. Louis representou importante ‘vitória’, avalia o artigo da Revista Morashá, pois o Fuhrer teria provado que, a despeito dos protestos em contrário dos líderes aliados, eles não queriam judeus em seus países.

O periódico, de igual modo, destaca o papel do Capitão do St. Louis, Gustav Schroeder, que emergiu da tragédia como o herói. Em 11 de março de 1993, o Instituto Yad Vashem, de Israel, o reconheceu postumamente como "Justo entre as Nações" por não abandonar seus passageiros à sorte, permitindo que tivessem a chance de escapar da armadilha de morte nazista.

Mas, o que o episódio do ST Louis nos ensina?

O mundo testemunha os maiores níveis de deslocamento já registrados na história do ACNUR, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, criado em 1950. Mais de 70,8 milhões de pessoas em todo o planeta foram forçadas deixar suas casas nos últimos anos. Entre elas 25,9 milhões de refugiados, metade dos quais menores de 18 anos. Por minuto, 25 pessoas são deslocadas a força em decorrência de conflitos ou perseguições - equivalente a um St. Louis a cada 38 minutos.

Reconhecendo a magnitude das crises de refugiados no presente - da Síria, passando pela Venezuela até Myanmar, sem contar os efeitos ainda incertos da pandemia causada pelo novo coronavírus – é imperioso que as lideranças globais reforcem o compromisso de não ‘dar as costas’ àqueles que precisam de abrigo.

Precisamos encontrar respostas que dialoguem com a proteção dos direitos dos refugiados, observando:

- A identificação de lugares seguros para sua colocação e o fornecimento de ajuda em momentos de grande desordem, aliviando as pressões nos países de acolhida;

- Melhorar a autossuficiência de pessoas em situação de refúgio;

- Expandir o acesso a soluções em países terceiros;

- Apoiar a resolução de conflitos nos países de origem, propiciando melhores condições de vida às suas populações, evitando os deslocamentos, bem como o retorno com segurança e dignidade.

Sem tais soluções, essenciais nos esforços de combate ao genocídio, infelizmente, seguiremos afundando muitos St. Louis por dia. A pergunta é: até quando?

Saiba mais:

# No final dos anos 1930, se ficar na Alemanha era periogoso para os judeus, sair se tornara quase impossível. A maioria dos países - e principalmente os EUA - mantinham rígidas quotas de imigração e era cada vez mais difícil para um judeu obter um visto de emigração. Os ministérios do exterior e da propaganda da Alemanha exploravam as recusas das outras nações de abrir suas portas aos refugiados judeus para justificar, perante o mundo, a política antissemita do 3º Reich.

# Segundo dados divulgados pelo Cômite Nacional para os Refugiados (CONARE) na 4º edição do relatório “Refúgio em Números”, o Brasil reconheceu, em 2018, um total de 1.086 refugiados de diversas nacionalidades. Com isso, o país atingiu a marca de 11.231 pessoas reconhecidas como refugiadas pelo Estado brasileiro. Desse total, os sírios representam 36%, seguidos dos congoleses, com 15%, e angolanos, com 9%.

# Em regra, as pessoas fogem de suas pátrias quando sentem suas vidas e comunidades ameaçadas. O reconhecimento de que houve um retumbante fracasso moral quanto à ajuda aos judeus e a outros grupos étnicos e religiosos que fugiam da perseguição nazista antes da Segunda Guerra, e a necessidade de lidar com as muitas pessoas deslocadas, sem ter para onde retornar, após a Guerra, levaram a ações no plano internacional, aponta o Museu e Memorial do Holocausto dos EUA. Em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos estabeleceu que toda pessoa vítima de perseguição tem o direito de procurar e de gozar de asilo oferecido por outros países. Em 1951, a Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados criou os fundamentos da obrigação internacional básica de não devolver as pessoas aos países onde suas vidas ou liberdade estejam ameaçadas.

 

# A história do St Louis, considerada por muitos como o prenúncio do Holocausto, é contada no livro ‘A viagem dos condenados’, lançado em 1976. A obra deu origem a filme de mesmo nome.

Quem pode ser considerado um refugiado?

De acordo com a Convenção de 1951 relativa ao Estatuto dos Refugiados, são refugiados as pessoas que se encontram fora do seu país por causa de fundado temor de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, opinião política ou participação em grupos sociais, e que não possa (ou não queira) voltar para casa. Posteriormente, definições mais amplas passaram a considerar como refugiados as pessoas obrigadas a deixar seu país devido a conflitos armados, violência generalizada e violação massiva dos direitos humanos.

 

Com informações do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR); artigo ‘A tragédia do SS St. Louis’, da Revista Morashá, edição 65/setembro de 2009; e Museu e Memorial do Holocausto dos EUA.

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