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Mundo

Treblinka, o maior cemitério de judeus poloneses do mundo

Entre 800 mil e 900 mil pessoas foram mortas no local. Chama a atenção os sobrenomes das vítimas, muitos comuns aos encontrados em Erechim e região

Numa das áreas do antigo campo estão dispostas centenas de cruzes identificando os nomes de alguns d
Por Salus Loch
Foto Salus Loch

O campo penal de trabalho forçado e extermínio de Treblinka, a cerca de 90 km de Varsóvia, capital da Polônia, faz o visitante sofrer de forma silenciosa. Lá, senti, em meios às árvores que circundam o local, o rigoroso vento do inverno cortar meu rosto com a dureza das 17 mil pedras distribuídas em forma de homenagem às cidades, regiões e países dos cerca de 800 a 900 mil mortos do complexo (80 a 90%, judeus poloneses), durante a Segunda Guerra Mundial.

Diferente de Auschwitz, porém, em Treblinka não há filas de visitantes. Por cerca de três horas, aliás, vaguei solitário na imensidão dos 400 por 600 metros da destroçada área, onde funcionavam três diferentes zonas: administrativa; de admissão (envolvendo a rampa de desembarque, praça, barracões onde as pessoas deixavam suas roupas e o local onde eram confiscados os bens trazidos); e o campo de extermínio em si, com as extintas câmaras de gás.

Início como campo de trabalho forçado

As primeiras atividades desenvolvidas pelos nazistas em Treblinka estiveram relacionadas ao campo penal de trabalho forçado, fundado no verão de 1941 - e que funcionou até julho de 1944. No período, 20 mil prisioneiros passaram por lá; 50% morreram por exaustão, fome ou foram baleados.

Treblinka II

Mais letal, contudo, foi Treblinka II, o campo de extermínio montado no complexo. Construído pelos alemães em meados de 1942, a estrutura foi estabelecida como parte da "Ação Reinhard", destinada à liquidação física da população judaica da Europa (e que envolvia, ainda, os campos de Sobibór e Belzec, também na Polônia ocupada).

O primeiro transporte de pessoas a Treblinka, em vagões de trens que anteriormente carregavam gado, chegou em 23 de julho de 1942, trazendo judeus do gueto de Varsóvia - que começara a ser liquidado pelos nazistas no dia anterior e, ao final, constituiria um dos principais grupos de vítimas de Treblinka, com 250 a 300 mil mortos.

De julho em diante, os judeus vinham principalmente da Polônia ocupada (Radom, Lublin e Bialystok), mas também da Tchecoslováquia, França, Grécia, Bulgária, Iugoslávia (Macedônia), URSS, além de Alemanha e Áustria. De 3 a 5 mil ciganos poloneses e alemães, além de poloneses cristãos, também foram destinados ao local.

O transporte típico continha até 60 vagões, incluindo pelo menos dois vagões para guardas. Em média, 80 a 120 pessoas foram colocadas em um vagão de carga, quando a capacidade era de, no máximo, 50 pessoas. Muitos morriam durante o deslocamento.

Ardilosa crueldade

Os deportados, ao chegaram a Treblinka, recebiam a informação de que haviam chegado a um ‘campo de trânsito’, e que deveriam entregar todos os pertences às autoridades. Então, as vítimas eram forçadas a correr nuas por um caminho fechado, conhecido como "tubo", até as câmaras de gás (enganosamente identificadas como banheiros com chuveiros para desinfecção). Quando as portas eram seladas, um funcionário nazista ligava o motor na parte externa do prédio e bombeava monóxido de carbono para dentro da câmara, matando por asfixia homens, mulheres e crianças.

Os nazistas selecionavam alguns prisioneiros judeus para que permanecessem vivos e pudessem efetuar o trabalho de remoção dos corpos e em seguida despejá-los em valas. Muitos corpos foram posteriormente incinerados a fim de tentar não deixar rastros. Os oficiais do campo assassinavam periodicamente os judeus escravos e os substituíam por outros recém-chegados. Dentre estes últimos, os que estavam muito fracos para andar até as câmaras de gás eram mortos a tiros em uma área disfarçada como hospital (Lazaret).

Inicialmente, Treblinka contava com três câmaras de gás, que, com o aumento da demanda, logo passou a dez. O mecanismo para lidar com as pessoas deportadas para o campo e o método para matá-las foi desenvolvido por Christian Wirth, inspetor dos campos de Treblinka, Belżec e Sobibór. O segredo era manter a vítima inconsciente até o último momento e forçar a obediência por surpresa, velocidade de ação e brutalidade.

Todas as etapas, desde o descarregamento do transporte na rampa ferroviária até a remoção de cadáveres de 5 a 6 mil pessoas das câmaras levava de 2 a 3 horas. Ao mesmo tempo, os bens trazidos pelos judeus eram classificados. Até um grupo de alfaiates foi empregado para procurar objetos de valor e dinheiro costurado em roupas.

Revolta armada e fim do campo de extermínio

Em 2 de agosto de 1943, uma revolta armada organizada por prisioneiros eclodiu em Treblinka. Dos 840 participantes da ação, 200 conseguiram escapar (apenas 70 deles veriam o fim da Segunda Guerra, em 1945). Após o levante, o campo foi lentamente liquidado. Em novembro de 1943, todos os prédios e instalações foram demolidos pelos nazistas.

Janusz Korczak

Em meio às 17 mil pedras dispostas em Treblinka, apenas uma traz o nome de uma pessoa: o do médico, escritor e pedagogo polonês, Janusz Korczak (nascido Henryk Goldszmit), que morreu no local entre 5 e 6 de agosto de 1942, junto às crianças do orfanato que ele mantinha em funcionamento no gueto de Varsóvia. Ao lado de sua colega de jornada, Stefania Wilczynska, Korczak se tornou um dos principais símbolos do Holocausto na Polônia e em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. Reportagem especial sobre ele será veiculada no Bom Dia de sexta-feira (21).

Saiba mais

# Numa das áreas do antigo campo estão dispostas centenas de cruzes identificando os nomes de alguns dos mortos no local. Chama a atenção os sobrenomes comuns à região de Erechim, como Grzybowski, Kucharski, Witecki e outros.

# Cerca de 130 homens cuidavam do campo, sendo 70% deles de origem ucraniana. O restante era constituído de soldados alemães e austríacos.

# Próximo à área ocupada pelos soldados que trabalhavam e moravam em Treblinka foi construído um mini-zoológico, que servia para ‘distrair’ os nazistas.

# O local da partida dos judeus do Gueto de Varsóvia para Treblinka era a Umschlagplatz. Diariamente, de lá saiam entre 3 e 8 mil pessoas direto para a morte. Estima-se que em apenas 46 dias de campanha 250 mil pessoas foram conduzidas de lá para o campo de extermínio.

# A cremação dos cadáveres em Treblinka começou em fevereiro de 1943, imediatamente após a visita do líder nazista Heinrich Himmler. Com o tempo, grelhas adicionais foram construídas, permitindo que fossem cremadas 12 mil corpos por vez. A fumaça resultante era visível a uma distância de muitos quilômetros.

# O último transporte a chegar a Treblinka, na segunda metade de agosto de 1943, veio do Gueto de Bialystok (Polônia) e consistia de 39 vagões.

# No período pós-guerra, ‘hienas de cemitérios’ operaram em Treblinka buscando desenterrar ouro e objetos de valor dos judeus mortos no complexo.

# Apesar da tentativa de eliminar as evidências dos crimes, com a destruição das estruturas do complexo, um museu foi erguido no local em 1964 com a finalidade de resgatar a memória das vítimas de Treblinka. Ao longo dos anos, avanços científicos permitiram reconstituir o ‘mapa do complexo’, desencavando - e trazendo à vida - a macabra obra da Alemanha nazista.

# Até 2011, 91 moradores do povoado de Sokołowsko-Węgrowski, nos quais estavam localizados os campos de Treblinka I e Treblinka II, receberam a medalha "Justo entre as Nações".

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