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A Segunda Guerra Mundial sob o olhar de uma sobrevivente

Em abril deste ano, Gitta esteve visitando o Museu do Holocausto, de Curitiba/PR, onde também realiz
Por Salus Loch
Foto Divulgação

 O sol nasceu tímido em 1º de setembro de 1939 na cidade de Satu Mare, divisa entre Romênia e Hungria. No rádio, as notícias sobre a invasão do exército alemão à Polônia chegavam desencontradas. A pequena Gabriela ‘Gitta’ Schwartz Heilbraun, no entanto, estava atarefada demais para prestar atenção naquilo; era preciso ajustar os detalhes a fim de receber colegas e amigos para comemorar seu 11º aniversário, no dia seguinte.

Enquanto Gitta fazia planos na espaçosa casa onde morava com os pais e dois irmãos, as Forças Armadas (Wehrmacht) do Terceiro Reich davam início à ocupação da Polônia, episódio que desencadeou a Segunda Guerra Mundial em 3 de setembro, com a declaração de guerra de Grã-Betanha e França, aliados dos poloneses.

 

Sem adversários

O avanço do Führer Adolf Hitler sobre a Polônia, garantido por um tratado prévio de não-agressão firmado entre Alemanha e União Soviética (pelo qual os dois países dividiriam o país), foi rápido e eficaz. Apesar da declaração de guerra, a resposta das forças inglesas e francesas deixou a desejar – assim como já havia acontecido em 1938, na anexação da Áustria pela Alemanha (Anschluss), ou quando os sudetos tchecos passaram ao jugo nazista, em março de 1939.

Em 17 de setembro de 1939 foi a vez da União Soviética invadir pelo Leste o território polonês, colocando em prática o acordo com os alemães.

 

Blitzkrieg

Com táticas de guerra inovadoras, como o Ataque Relâmpago (Blitzkrieg), a Alemanha partiu para sua campanha no Ocidente. No primeiro semestre de 1940 já havia conquistado Dinamarca, Holanda, Luxemburgo, Bélgica e Noruega, além de atropelar o exército francês em seis semanas para chegar a Paris, em meados de junho. O mundo parecia pequeno e pronto para se curvar ao projeto de dominação de 1000 anos do Terceiro Reich.

No caminho de Hitler, àquela altura, despontava solitário o novo primeiro-ministro inglês, Winston Churchill – que assumiu o cargo em 10 de maio de 1940, sendo responsável, naquele mesmo ano, por derrotar a Aeronáutica (Luftwaffe) nazista na disputa pelo espaço aéreo inglês.

O revés fez com que o Führer voltasse os olhos ao Sul, além de promover o rompimento do pacto teutônico-soviético com o início da Operação Barbarossa, em junho de 1941, pela qual Hitler, ao mobilizar 3 milhões de homens (com o apoio de tropas da Itália, Finlândia e Romênia), buscava a aniquilação total da União Soviética, a fim colocar um fim à ameaça ‘judaico-bolchevista’, além de garantir o ‘espaço vital’ (lebensraum) para os alemães, conforme já havia descrito em seu livro Main Kampf, escrito na década de 1920.

 

Estrela de Davi

Na Romênia, a jovem Gitta sofria as consequências da ideologia racista/antissemita dos nazistas. O que, com o transcorrer da guerra, acabaria se intensificando. Mais do que ser obrigada, assim como os judeus da Europa, a usar a estrela de Davi para diferenciá-la por sua origem, ela passou a sofrer discriminação na escola e nas ruas. Seu pai, um empresário bem sucedido, teve suas três empresas confiscadas pelo governo romeno, aliado dos nazistas. ‘Lembro que crianças e adultos me mandavam a Madagascar (para onde especulava-se que os judeus seriam deportados). Não entendia o que estava acontecendo’, revela Gitta, que há quase meio século mora no Brasil; primeiro em São Paulo (vindo de Lima, no Peru) e há cinco anos em São José, na Grande Florianópolis/SC.

 

Solução Final

No cenário de guerra, as coisas começaram a mudar em dezembro de 1941 depois do ataque do Japão (país que compunha o Eixo, ao lado de Alemanha e Itália) à base americana de Pearl Harbor, no Havaí, episódio que motivou o ingresso oficial dos EUA no conflito.  

Paralelamente, os nazistas colocavam em prática a ‘Solução Final da Causa Judaica’ (plano de aniquilação do povo judeu), com a construção de campos de extermínio na Polônia ocupada: Chelmno, Majdanek, Belzec, Sobibor, Treblinka e o mais conhecido e letal Auschwitz-Birkenau, que serviria de palco para o assassinato de mais de 1,1 milhão de pessoas (90% judeus).

Nos anos de 1943 e 1944, os campos foram verdadeiras fábricas da morte, pondo fim à vida de dezenas de milhares de pessoas por dia (entre judeus e outros grupos considerados indesejados pelos alemães, como ciganos, comunistas, eslavos, prisioneiros de guerra e homossexuais).

Nos diversos teatros do conflito, as mortes de militares e civis crescia exponencialmente, especialmente, na frente Oriental, que teve importante reviravolta em 1943 quando o Exército Vermelho partiu para o contra ataque. A cidade de Stalingrado, depois de resistir por meses, é reconhecida como o símbolo da virada.

Alemanha e Itália também tombaram na África - abrindo caminho para que as forças Aliadas focassem a atuação no continente europeu, desembarcando na Itália, em 1943, e, em 6 de junho de 1944, na Normandia/França - no ‘Dia D’.

O avanço Aliado, com a libertação de diversas nações ocupadas pelos nazistas, culminaria no suicídio de Hitler em 30 de abril de 1945 (quando os soviéticos estavam às portas de seu bunker, em Berlim), e no fim da guerra, com a rendição incondicional da Alemanha, assinada oficialmente em 8 de maio pelo major de campo Wilhelm Keitel.

 

Fim e recomeço

Antes do término do conflito, porém, Gitta viu o seu mundo desabar.

Em 6 de maio de 1944, quando chegou a Auschwitz-Birkenau com a família, foi separada dos pais e irmãos – e nunca mais os reencontrou; todos foram direto do trem que os havia conduzido do gueto de Satu Mare às câmaras de gás.

Aos 15 anos, ela foi a única a ir para a fila da ‘direita’, escapando da morte certa.  

‘Até hoje não sei o porquê (de ter sido escolhida para sobreviver). Talvez por ser alta e de bom porte físico, eles queriam que eu trabalhasse até a morte. Foi o que fiz, trabalhei sem me entregar, mas não morri. Busquei forças na esperança de rever minha família. Ainda acreditava que eles estivessem vivos’, conta ela – que até a libertação passaria por mais dois campos e resistiria à Marcha da Morte.

Em seu aniversário de 17 anos, 2 de setembro de 1945, Gitta soube que o Japão anunciava a rendição (depois de sofrer as consequências das bombas atômicas desferidas pelos EUA em Hiroshima e Nagasaki). A guerra havia, enfim, chegado ao fim. Ela, contudo, estava mais preocupada em refazer a vida, destroçada em seis anos de ódio, ganância e falta de compaixão entre os homens.

 

Aos 91, foco nos jovens

Em 2 de setembro de 2019, Gitta curtiu seu 91o aniversário ao lado de familiares e amigos no apartamento onde mora em São José/SC. Questionada sobre qual presente gostaria de receber, revelou inspiradora:

- Gostaria que a humanidade passasse a respeitar, de fato, as diferenças para conviver em paz. Não desejo um presente especial, mas peço saúde para que, enquanto estiver por aqui, possa seguir sendo uma voz que lute pela igualdade alertando, especialmente, os mais jovens. O futuro depende deles. Não podemos deixar acontecer de novo, ensinou.

 

Saiba mais:

# Os países com maior protagonismo na Segunda Guerra Mundial, conflito que ceifou a vida de mais de 50 milhões de pessoas em diferentes continentes, foram a Grã-Betanha, EUA, União Soviética e França (os chamados ‘Aliados’) contra o ‘Eixo’, constituído pela Alemanha, Itália e Japão. Dezenas de outras nações participaram do conflito, inclusive o Brasil – que perfilou ao lado dos Aliados com a Força Expedicionária Brasileira na Itália, em 1944.

 

# A história de Gitta inspirou meu primeiro romance ‘A Tenda Branca’, editado pela Scriptum Produções Culturais, de Porto Alegre.

 

# Esta reportagem também foi veiculada pelo Caderno de Sábado do jornal Correio do Povo, na edição de 31 de agosto de 2019.

 

 

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