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Opinião

Vivaldi

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Clovis Lumertz
Por Clóvis Lumertz – Empresário
Foto Clóvis Lumertz

Minhas filhas fizeram balé desde muito pequenas.

E, claro, pai de bailarina precisa participar, pelo menos nas apresentações de final de ano.

No pacote, veio também a música clássica.

Confesso que não entendo nada do assunto, mas até hoje me pergunto: como Antônio Vivaldi conseguiu criar As Quatro Estações? De onde surge tanta genialidade?

O sujeito conseguiu transformar primavera, verão, outono e inverno em música, e, se você escuta atentamente, entende os violinos trazendo cada detalhe.

Eu, que não tenho a genialidade de Vivaldi, descobri que consigo experimentar as quatro estações sem sair do escritório.

Basta marcar quatro reuniões com clientes no mesmo dia.

Primeira reunião: verão

O cliente entra na sala, bufando.

Metas atrasadas, vendas derretendo, equipe que não reage e concorrentes roubando share.

— “Precisamos vender mais, para ontem! Depois a gente vê como fica a margem.”

É o verão de Vivaldi em versão do comercial: violinos acelerados, suor escorrendo e todo mundo querendo ligar o ventilador (no duplo sentido).

Segunda reunião: inverno

Outro cliente. Mesmo mercado, outra vibe.

O caixa apertado, os juros continuam pesando e qualquer investimento parece sugerir uma expedição ao freezer.

— “A ideia é excelente, Clóvis. Vamos deixar para o próximo trimestre.”

Tradução: a ideia está aprovada no departamento das intenções e congelada no departamento financeiro.

Terceira reunião: primavera

Nesta, tudo floresce. O cliente está animado, a equipe tem energia, oportunidades surgem e o planejamento parece ter sido escrito por um poeta apaixonado.

— “Agora vai! Estamos alinhados e prontos para crescer!”

É lindo de ver. Quase dá vontade de colocar a foto da reunião no Instagram e o diálogo como música de fundo.

Só falta descobrir quem vai regar as flores quando a competição voltar a cobrar resultados.

Quarta reunião: outono

As folhas caem, as ações perdem o viço e os projetos iniciados com entusiasmo começam a sumir no horizonte.

A culpa, naturalmente, é do mercado, da economia, dos juros, da concorrência, do câmbio, das eleições, da seca, da chuva, da equipe e, se necessário, da geopolítica no Oriente Médio.

— “O planejamento estava certo, Clóvis. O problema é que aconteceu muita coisa que não estava prevista.”

Claro! O planejamento estava perfeito. Só esqueceram de combinar com a realidade e ajustar as velas, claro.

Tive um “Dia Vivaldi”.

Certamente, a genialidade de consultor não está em impedir as estações de mudarem, mas em perceber que cada uma exige um ritmo diferente.

Na governança também é assim: há clientes que precisam acelerar, outros precisam preservar caixa, alguns precisam florescer e muitos precisam parar de explicar por que as folhas caíram.

O desafio de quem aconselha empresas não é tocar a mesma música para todos.

É entender a estação de cada negócio e ajudar cada cliente a encontrar o próximo movimento, como no balé.

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