Ela era uma menina franzina, cabelos claros.
Imaginativa, curiosa e sedenta por aprender, ouvir histórias e inventar histórias para si.
Ansiosa para ir à escola onde poderia, por fim, entender o que as letras diziam.
Ao chegar ao Externato Nossa Senhora da Salete (das Freiras), que decepção!
Seu livro era preto e branco, seu único caderno, sempre aos cuidados vigilantes do pai para evitar “orelhas”, deveria durar muito tempo.
Tão logo aprendeu a ler, procurou com avidez um local onde ampliar sua leitura.
Soube que no “centro” de Erechim havia uma biblioteca. Era seu sonho mais acalentado: poder mergulhar no mundo dos livros e aprender, aprender!”
Com sol, chuva ou calor, caminhava, seguindo pela estrada de chão, para saciar sua sede pelo conhecimento. A Biblioteca era sua fonte de luz onde ampliava enormemente as respostas do “questionário” que a Professora de História, durante o seu Segundo Grau (atualmente Nível Médio), aplicava como única forma de lecionar, enquanto corrigia os trabalhos dos alunos de outra escola onde também lecionava.
A então adolescente se perguntava como era possível ela amar tanto a História, tendo por três semestres uma professora tão sem vocação!
Porém, a biblioteca com seus livros, supria e nutria o profundo amor pela leitura, pelo garimpar nos meandros do construir e no ruir das civilizações. As centenas de consultas, as pesquisas, o folhear, os mágicos conteúdos do acervo bibliográfico, enfeitavam e recheavam o imaginário da estudante, mostrando-lhe um universo que esperava seu olhar e seu desejo de auscultar o que não podia comprar.
A Biblioteca Gladstone Osório Mársico, foi seu amor por décadas, e dela recebeu um recheio intelectual, seguro, adequado, iluminador de sua alma insaciável pela excelência.
Muitas bibliotecas foram visitadas com o mesmo ardor e respeito. A Biblioteca de Celso, em Éfeso, na Turquia, emocionou com suas ruínas onde cabiam 250 mil rolos de papiros ou pergaminhos. Em Krakóvia, Polônia, a Biblioteca da Jaguelônica, provocou um pranto longo e emocionado durante a contemplação do espantoso
acervo ali guardado, do fazer humano.
No Archivo de Índias, em Sevilla, Espanha, onde se pode contemplar, o que diziam os historiadores, ser o último diário de Cristóvão Colombo, fez o coração da agora pesquisadora, pulsar violentamente.
Em Coimbra, Portugal, enquanto o grupo mal passava os olhos pela Biblioteca, a Professora, Mestre em História Ibero Americana, observava fascinada os milhares de livros, inúmeros em primeira edição, ou esgotada, quando recebeu um volume entregue pelo bibliotecário angustiado pelo seu pranto incontido que ele mal
compreendia.
Acarinhando e abraçando o livro, agradeci a Deus por poder tocar e depois devolver tão precisa obra de um irmão meu que a elaborou há tantos séculos. Centenas e centenas de Bibliotecas visitadas, com obras inacreditáveis merecem respeito egratidão.
Entretanto, a Biblioteca Gladstone Osório Mársico, abriu portas, iluminou o ser e a maginação da menina, da adolescente e continua a desvelar obras e autores
preciosos.
Oitenta anos de digno trabalho à Comunidade, merecem nosso respeito, carinhosa admiração e gratidão imensa a seus funcionários.