Seria, no mínimo, interessante acompanhar o despertar de uma pessoa que estivesse adormecida há pelo menos vinte ou trinta anos. Quantas novidades teria diante de si quem adormeceu e não viu o tempo passar? Mais ainda, quantas sensações estranhas teria essa pessoa? Com os olhos do passado, olharia para o mundo de hoje como quem vê o futuro e certamente ficaria maravilhada com tantas mudanças e avanços tecnológicos. Mas… e se fosse o contrário?
O despertar
Começo imaginando a cena. A pessoa acorda e reconhece os familiares. Demora um pouco para se dar conta, até que, por fotos, recebe a notícia de que dormiu por longos trinta anos. Perplexa, precisa se ambientar, como quem nasce outra vez dentro da própria existência. E as crianças? Cresceram, mas permanecem em casa. Nenhuma se casou. Os pais não arredaram o pé, zelando pela cria que acordou. A cara-metade? Não aguentou. Foi à vida, em busca de algo mais dinâmico do que ficar esperando alguém acordar. E os amigos? Os poucos que sobraram - e que nunca falharam - receberam a notícia com entusiasmo e festa.
O novo normal
Passado algum tempo, com a vida voltando ao seu ritmo, é preciso aprender tudo outra vez. Na primeira saída, ao descer do prédio, viu que não há mais porteiro ou zelador. São os números que agora ditam quem entra e quem sai. Tags, reconhecimento facial, impressão digital e confirmação em duas etapas no celular. Sem isso não há liberdade. Os telefones perderam os fios, ao mesmo tempo em que as pessoas deixaram de utilizá-los para conversar entre si. Nas ruas, carros que não fazem barulho e não poluem com seus gases de efeito estufa. “Nossa, como está quente!” Mas basta entrar em qualquer ambiente e está tudo climatizado. “É, o mercadinho da Dona Rosa não existe mais”, e assim vai assimilando a passagem dos anos. No lugar, há mais um prédio de apartamentos. “Nossa, a casinha do sapateiro ainda está ali.” Embora fechada, resiste ao avanço das plantas que parecem engoli-la até que os herdeiros decidam por vendê-la.
Novidades
Por mais estranha que essa cena possa parecer, há algo que ninguém invade facilmente: a intimidade da pessoa. Aquele interesse em saber, por conta própria, o que se está realmente acontecendo. É nas ruas que busca por mais respostas. Enfrenta dificuldade para encontrar uma banca de revistas. Está sedenta por um jornal. Quer saber a verdade. Os locais que vendiam desapareceram. Percorre esquinas e mais esquinas e não é possível encontrá-los. Fica em dúvida se ainda há quem os leia. Não há mais pessoas sentadas nos bancos a ler jornais. Por um segundo indaga se no futuro existem ou não notícias. Nos passeios, boa parte das pessoas caminha olhando para o celular. Não vestem mais roupas ajustadas pela costureira. A moda é uma só e as pessoas ficaram todas muito parecidas umas com as outras.
Na intimidade
Nesse andar íntimo, de quem observa tudo em silêncio, num paradoxo entre os avanços tecnológicos e o retrocesso social causado pelo isolamento e o individualismo, o pensamento avança, ganha força, como se fossem trinta anos em um dia. “Todas essas tecnologias, todas essas funcionalidades, tudo isso. Para que servem? Para quem servem, se ainda vejo pessoas vivendo em condições precárias? Que evolução foi essa? Tecnológica, com certeza, mas sociológica, certamente que não”. E os políticos ainda são os mesmos.
A saída
A pessoa sopesa. Pensa, respira, tem calma. É grata por ter acordado. Procura se reintegrar à sociedade. Os amigos, pouco tempo têm. Não sabe usar o celular que ganhou de presente. Não tem teclas. Resiste. Enquanto caminha, procurando se encontrar, deambula pelas calçadas da infância, com dificuldades em reconhecer o local em que viveu. Tudo mudou. É quando se lembra dos livros e resolve procurar uma livraria. Depois de passar por dezenas de farmácias, uma infinidade de lojas de celular e acessórios, uma dezena de salões de beleza e restaurantes de fast food, encontra uma solitária livraria. Finalmente, um reduto de paz, reflete aliviada. Um portal para a consciência. Um remédio para não enlouquecer nesta vida frenética chamada futuro. Antes de ler a primeira página, conclui sorrindo: ler é como estar sonhando acordada. Ainda bem que o futuro não roubou isso de mim.