Vivemos correndo. Em casa, a televisão fica ligada. O celular nunca sai da mão. As redes sociais ocupam qualquer intervalo. Sem perceber, vamos deixando para depois aquilo que deveria vir primeiro. Uma boa conversa.
Na noite da última terça-feira (7) aconteceu algo simples. Eu e minha esposa estávamos no sofá, embaixo da coberta por causa do frio, quando um forte estouro chamou nossa atenção. Um clarão tomou conta das janelas. Do oitavo andar vimos um curto circuito. Em poucos segundos, toda a quadra ficou sem energia. A luz só voltou mais de duas horas depois.
A primeira reação foi a mesma de muita gente. Reclamar. A série da Netflix parou bem no meio. Não havia jogo da Copa do Mundo para acompanhar. Parecia que a noite tinha sido estragada. Mas não foi.
Acendemos algumas velas. Voltamos para o sofá. Colocamos uma música baixa no celular e começamos a conversar.
Falamos da vida. Rimos de histórias antigas. Fizemos planos. Organizamos as finanças. Lembramos de pessoas. Comentamos sonhos que estavam esquecidos. O tempo passou sem que percebêssemos.
Nós sempre conversamos. Mas, naquela noite, conversamos de verdade. Sem notificações interrompendo a frase. Sem olhar para a tela a cada minuto. Sem a ansiedade de responder uma mensagem ou acompanhar o que acontecia do outro lado do mundo.
Foi uma noite de silêncio. E o silêncio, às vezes, diz muito.
Vivemos numa época em que estamos conectados o tempo inteiro. Mesmo assim, nunca foi tão fácil estarmos distantes de quem está sentado ao nosso lado.
Quando a energia voltou, a televisão continuava ali. O celular também. A Netflix esperava por nós. Nada tinha mudado. Ao mesmo tempo, tudo estava diferente.
Percebemos que a falta de luz nos devolveu algo que a tecnologia, muitas vezes, nos tira sem pedir licença. Presença.
Antes de dormir, chegamos à mesma conclusão.
De vez em quando, se a luz não faltar, talvez valha a pena desligar o disjuntor, para lembrar que algumas das melhores conversas acontecem quando o mundo lá fora fica em silêncio.