Há na cultura a capacidade de manter viva a história, o reflexo da resiliência humana, a possibilidade de reconhecimento, pertencimento. Preservar a identidade cultural é lutar por sobrevivência e identificação, por quem se é e, principalmente, por tudo aquilo que se pode chegar a ser. Exemplo disso, de cultura viva, é a Terra Indígena Cacique Doble, localizada no município de Cacique Doble, na região nordeste do Rio Grande do Sul.
É a valorização da história local que possibilitou o desenvolvimento da Marca Ga-Há, trabalho que buscou expressar as características originárias do povo Kaingang (Kamē e Kaĩru; Rá tei e Rá tor) e, dentro e fora da delimitação geográfica do território indígena, preservar e fortalecer a cultura Kaingang.
Ga-Há, em tradução livre do Kaingang, significa “terra fértil”, o que reflete a intenção e o sentido do projeto — representar a riqueza cultural de grupos que, ao longo de sua trajetória, lutam para manter viva a memória e a tradição que os caracterizam enquanto povo.
Com design idealizado pela Mestre em Design, professora Suzana Funk, e registro de marca desenvolvido pela Pós-doutora professora Elizete de Azevedo Kreutz — ambas são membro do Observatório de Marcas — o trabalho envolveu diversas etapas, como pesquisa teórica sobre a história e os significados da arte e da cultura Kaingang, entrevistas na terra indígena, levantamento fotográfico do artesanato, elaboração de estratégias e do conceito de design e por fim o desenho propriamente dito, com técnicas manuais e no software.
A teoria na prática
Durante a execução, que compreendeu estudo teórico significativo, o trabalho foi transformado em artigo que, posteriormente, foi aprovado, publicado e apresentado por Suzana no V Congresso Internacional de Marcas (V Branding Congress), evento promovido pelo Observatório de Marcas em parceria com a UNIVATES, o Instituto Politécnico de Leiria (IPL) e a Branding Business.
Acontece que, para além da teoria, a história vive também na prática, nesses espaços de cultura pulsante. “Desde o início do projeto a aldeia participou, da pesquisa às entrevistas. O pessoal que eu conheci foi muito receptivo. Eu ia estudando os significados, nos autores, nos livros, mas eles vivem isso, essa é a cultura deles, então tudo aquilo que eu estava estudando, eles também me apresentaram, em todas as etapas, e isso me encantou muito”, contou a designer.
“Pela primeira vez sentimos que alguém de fora se interessou de verdade...”
O trabalho de design da marca Ga-Há, que identifica a Terra Indígena Cacique Doble, foi apresentado em evento promovido no dia 17 de junho, na Prefeitura de Cacique Doble. A apresentação contou com a presença de Valdir de Matos e Valmir Pétõr Kaingang, também da diretora Cleuza Dutra Tonello e do professor Nestor Kavag Antonio, que atuam nas duas escolas da região, além dos representantes da Emater, Amauri Pivotto e Cleunir Augusto Paris.
“Na entrega do trabalho oficial, apresentamos dicas sobre como eles podem usar a marca. Primeiro vai ser feito um trabalho de marca dentro da aldeia, com as duas escolas. Todos os desenhos ali, a estratégia do design da marca, foram inspirados na pintura corporal”, explicou Suzana.
Para Valmir Pétõr, indígena Kaingang que reside na Terra Indígena de Cacique Doble, falar sobre o trabalho desenvolvido em conjunto com a comunidade é falar de respeito, reconhecimento e valorização. “O impacto que ela trouxe para a nossa terra indígena de Cacique Doble foi imenso. Pela primeira vez sentimos que alguém de fora se interessou de verdade em divulgar nossa cultura, nossas tradições e o nosso modo de viver”, contou.
Reconhecimento
Como estuda a psicanálise, é a partir do olhar do outro que se dá o reconhecimento. “Através desse trabalho fomos vistos, ouvidos e reconhecidos, e isso não tem preço. E a marca que deixou aqui com sensibilidade e amor será sempre lembrada. Espero que esse trabalho continue florescendo e inspirando outros a olhar para os povos indígenas com o respeito e a dignidade que merecem”, concluiu Valmir.
A origem
Conforme a idealizadora da marca, as formas e cores empregadas buscam traduzir os significados relacionados à etnia Kaingang, reconhecidos na pesquisa teórica e nas entrevistas com os membros da Terra Indígena Cacique Doble.
O conceito da marca Ga-Há expressa a cultura indígena Kaingang por meio de traços étnicos, que remetem aos desenhos registrados por esse povo, referindo-se à origem da etnia por meio de dois irmãos gêmeos, Kamē e Kaĩru, que são identificações próprias que todas as pessoas, também criaturas, pertencentes à essa cultura recebem. São significados opostos, mas que precisam um do outro para existir e, dessa forma, se complementam e se fortalecem.
A marca foi inspirada nas formas Kamē e Kaĩru, agregando os significados e objetivos da comunidade. O conjunto é formado por um coração — o coração Ga-Há — que é uma forma fechada, mas está amparado por duas formas abertas que significam busca, luta, fertilidade, crescimento (Kamē). O interior do coração é formado por uma pessoa de braços abertos formando o símbolo da paz, com formas fechadas (Kaĩru).
As letras foram desenvolvidas com a técnica de criação tipográfica, a partir de todo o alfabeto, inicialmente feito à mão, com inspiração na pintura corporal Kaingang e nas formas Kamē e Kaĩru. Na parte inferior da marca há uma linha vermelha Kamē, que representa a terra fértil, Ga-Há, que significa não somente o cultivo da terra, mas também o desenvolvimento humano, da arte e da cultura.
“Ga-Há é uma marca que expressa o bem, mas também clama pelo bem. É uma marca que pede paz e que emana paz e amor”, completou Suzana.