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Opinião

Inflação e Eleições – Parte I

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Marcos Vinicius Simon Leite
Por Marcos Vinicius Simon Leite
Foto Rodrigo Finardi

Quem viveu os anos 80 conhece bem o termo “fantasma da inflação”. Essa definição é bem apropriada, afinal, fantasma é algo que a gente não vê, mas sente, algo que nos traz uma sensação de medo, de perda e de impotência. Era 1995 e o Plano Real completava um ano de vida. Participei de um seminário sobre inflação, no auditório da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS. Liderado pelo Prof. Ferrari, outros professores da Economia dedicaram três dias para explicar à plateia de alunos os fenômenos da inflação, que parecia finalmente estar sob controle.

De volta aos anos 80

Hoje, passados 26 anos daquela palestra, o assunto volta à cena com força. Porém, desta vez, existem aproximadamente 82 milhões de brasileiros que, na teoria, até podem saber o que é inflação, mas na prática não tem a menor ideia de seus efeitos. Gente que já ouviu falar, mas não sabe o que é. Porque digo isso? Porque essas pessoas nasceram entre 1988 e 2008. Vão desde adolescentes que hoje têm lá seus 12 ou 13 anos até jovens adultos, com seus pouco mais de trinta anos. Gente que não vivenciou os efeitos da inflação. Nessa faixa etária não se encontra nenhum fiscal do Sarney. E como gosto de números vou dar um dado de lambuja. Essa turma corresponde a aproximadamente 40% da população brasileira e representam quase a metade dos eleitores. Sacou?

Como era viver com inflação?

Explicar em poucas palavras algo bastante complexo como a inflação é tarefa árdua, mas muito importante diante desses dados e do cenário político que se aproxima. Mas vamos lá. Resumindo, a inflação é nada mais nada menos do que a perda do poder de compra da sua moeda. É como uma garrafa de álcool de limpeza, que se você deixar aberta, vai evaporar (volatizar). O que num dia você compra com uma determinada quantidade de moeda, em outro você precisará de mais quantidade, porque os preços sobem da noite para o dia. Loucuras de quem viveu na década de 80, em que as casas tinham um lugar chamado despensa, para poder guardar o rancho. Com a alta constante de preços, as famílias tinham de estocar alimentos, sob pena de não conseguir compra-los no final do mês.

De onde vem a inflação?

Por isso que, mais importante do que saber o que significa, é entender porque acontece e logo, me vi às voltas com meus livros de macroeconomia. Para o economista Milton Friedman, a inflação é ocasionada por um choque de oferta. Sempre que há um desequilíbrio no consumo, causado por escassez ou algo do gênero, há reflexo nos preços. E os livros de economia sempre citam as pandemias como agentes causadores de inflação, porque provocam choques de oferta. Foi assim com a peste negra, com a gripe espanhola e foi assim com a Covid-19, que afetou o Brasil e o mundo. A Alemanha, que é conhecida por sua economia forte, revisitou índices de inflação parecidos com os do final da segunda grande guerra. Se a pandemia é uma doença mundial, a inflação é uma sequela natural e dolorosa desse processo. Não é problema brasileiro, é problema mundial. É por onde pagaremos a conta.

Perspectivas

Mas falando de Brasil, vivemos agora um momento delicado em termos econômicos. A inflação, infelizmente corrói o orçamento das famílias, assombra a classe média e massacra os pobres contra a miséria. Quem quiser saber como é o fundo desse poço, mire o exemplo da Venezuela. Hugo Chaves e Nicolas Maduro são protagonistas dessa tragédia. E todo esse emaranhado de efeitos se torna prato cheio aos discursos adesivos. Lembrem que daqui a um ano teremos eleições. Eleições geram propaganda, no sentido mais maléfico que esse termo pode ter, o de propagar, como bactérias a consumir os incautos, ao velho e mau exemplo de Josef Goebells, ministro da propaganda nazista.

Onde mora o perigo

Imagine que 45% da população votante não viveu a inflação, mas vai experimentá-la agora, de 2021 a 2022. O político nazista que quiser fazer uso da inflação em sua propaganda, dizendo que vai devolver ao povo o poder de compra da moeda, a estabilidade e a alegria, terá grandes chances de convencer esta massa importante de votos. Ao próprio economista Milton Friedman é atribuída a frase: “A sociedade que coloca a igualdade à frente da liberdade irá terminar sem igualdade e liberdade”.

Então, para combater esses inimigos de discurso adesivo, aqui vai uma sugestão. Assista ao filme “Ele está de volta”, de 2015. Na obra, com um formato interessante de comédia-documentário, Hitler volta do passado e passa a dialogar com os jovens e até ganha programa de TV. Impressionante como o discurso dele encontra guarida no pensamento de muitas pessoas. Imperdível. É possível fazer uma conexão entre a massa de eleitores (45%) que não viveu a inflação com o público que não vivenciou o genocídio nazista. E é justamente isso que devemos evitar. Políticos que se beneficiam da tragédia ao prometer o óbvio, como se a inflação fosse obra de um ou outro agente político.

Na coluna de amanhã, falarei mais um pouco sobre esse fantasma, não do Hitler, nem de seus sucessores que de quatro em quatro anos insistem em ressurgir com novas roupagens e novas ideias. Vou falar mais de inflação. Vai ser bem chato, mas é necessário ser chato. Até mais.

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