Outro dia, em uma palestra, ouvi uma afirmação que me chamou a atenção: nossa capacidade de concentração teria despencado por causa das mídias sociais. E a prova seria quase irrefutável: hoje teríamos uma capacidade média de atenção de apenas 8 segundos, menos do que a de um peixe de aquário.
Aí vem a parte interessante: isso não é verdade. Essa história dos “8 segundos” ficou famosa depois de um relatório da Microsoft Canada, de 2015, chamado Attention Spans. O número de 8 segundos circulou amplamente, mas não corresponde a um estudo científico que tenha demonstrado que a atenção humana caiu de 12 para 8 segundos. E o peixe? Bem, a história de que um peixe dourado teria exatamente 9 segundos de memória ou atenção também não tem base científica sólida. Ou seja: provavelmente não estamos cognitivamente inferiores a um peixe. Ainda bem. Seria complicado fazer uma reunião de Conselho num aquário.
Mas isso não significa que não exista um dilema. Existe uma linha importante de pesquisa sobre media multitasking, ou multitarefa com mídias. Um estudo clássico de Ophir, Nass e Wagner, publicado na PNAS em 2009, mostrou que pessoas que fazem uso intenso e simultâneo de diferentes mídias apresentavam maior dificuldade para filtrar informações irrelevantes e controlar distrações. E uma meta-análise publicada em 2023, reunindo 43 estudos e 118 medidas de efeito, encontrou associação entre multitarefa com mídias e pior desempenho em aspectos do controle cognitivo, especialmente controle inibitório e memória de trabalho.
Então, talvez a questão não seja que perdemos nossa capacidade de prestar atenção. Talvez estejamos ficando cada vez mais condicionados a trocar de atenção. Relatório, WhatsApp, relatório, e-mail, relatório, Instagram, relatório, notificação, TikTok, relatório, ligação. O problema não é necessariamente não conseguir ficar concentrado. É ter aprendido a interromper a concentração o tempo inteiro. E isso muda bastante a conversa. Porque o ambiente digital está nos treinando para buscar continuamente novidade, estímulo e recompensa.
Talvez o grande desafio da próxima geração de líderes não seja apenas conseguir a atenção das pessoas. Seja conseguir mantê-la. E talvez uma das competências mais valiosas do futuro seja justamente uma habilidade aparentemente antiga: conseguir ficar alguns minutos pensando em uma única coisa sem sentir necessidade de olhar o celular. Quanto à Dory, personagem de Procurando Nemo, a lição continua a mesma: “Continue a nadar”.