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Opinião

A vista de um ponto

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Durante as férias, vagando pelo Instagram, li uma citação que me fez parar e pensar em algumas questões. Independentemente do ponto de vista político de cada um, isso pouco importa aqui, o foco é exclusivamente esta frase do teólogo Leonardo Boff e não as crenças políticas dele: "Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto".

Nós, jornalistas, começamos nossa caminhada acreditando que vamos mudar o mundo. Não necessariamente vestimos uma capa vermelha e uma cueca por cima da roupa, mas aquela visão de Clark Kent parece ser inerente a nós. E nós, como parte da sociedade, vivemos apaixonados pela fantasia da imparcialidade. Ela é elegante, vende credibilidade, encaixa-se perfeitamente em discursos institucionais e nos manuais de boas maneiras. Mas, como toda fantasia, depende de um pacto coletivo e compactuamos com ela e fingimos acreditar porque é mais confortável do que admitir que ninguém é onipresente, onisciente e onipotente, que ninguém fala do todo e do alto de lugar nenhum.

Todo mundo fala de algum lugar e cada lugar é um ponto diferente. Há quem fale da varanda de um condomínio de luxo, enquanto outros falam da janela de um barraco no alto da favela. Uns explanam de quartos de hospitais particulares, bem equipados e com médicos de todas as especialidades à disposição, outros tentam ganhar voz depois de horas na fila de um posto de saúde ou aguardando por medicamentos em falta. Há quem enxergue o mundo através do para-brisa de um carro blindado e quem o conheça apenas pela janela do ônibus das seis da manhã. Há ainda aqueles que estão no meio disso tudo e cada um, na sua ponta, ou entre uma e outra, segue acreditando que a própria paisagem é o mapa inteiro e isso é perigoso.

Uma das coisas que me veio à cabeça depois de ler essa citação foi a meritocracia. A palavra é bonita, já o conceito, nem tanto. Se fosse falar da etimologia ou da história do termo, perderia caracteres preciosos e precisaria abrir muitos parênteses, então vou me ater ao básico, a meritocracia, como costuma ser apresentada, é balela, é um modelo cheio de falhas. Aquela meritocracia que daria a cada um o que fosse digno do seu merecimento, jamais existiu, simplesmente pela falta de medidas eficazes para compensar as desvantagens entre as pessoas, sejam elas biológicas, genéticas, fisiológicas, sociais ou econômicas.

É muito bonito dizer a uma pessoa que basta querer, basta trabalhar e basta persistir para que tudo dê certo. Mas, para quem precisa transformar sobrevivência em rotina, esse discurso simplesmente não funciona. Quando se diz isso, ignora-se que esforço não é uma unidade de medida, é uma circunstância. Correr cem metros sem peso nas costas não é o mesmo que correr dez carregando a própria vida, a dos filhos, o peso dos boletos e o medo de não conseguir colocar comida na mesa e ter um lugar seguro para chamar de lar.

O meu esforço, por exemplo, será diferente do esforço de qualquer outra pessoa. A meritocracia depende de onde e de como os pés pisavam quando a corrida começou e tem gente que já larga na frente com tênis de corrida e treinador particular, enquanto outros correm descalços, retirando os próprios obstáculos do caminho e, ainda assim, escutam que o esforço não foi o suficiente. Isso precisa ser levado em conta.

As eleições estão chegando e muito se ouve a frase: "Estamos todos no mesmo barco". Mentira. Nunca estivemos. Estamos, quando muito, no mesmo mar e, ainda assim, em condições muito diferentes. Alguns navegam em águas protegidas, longe da bandeira vermelha, outros enfrentam correntezas e há os que tentam sobreviver em mar aberto, em plena tempestade. Nesse mesmo mar, há iates luxuosos, lanchas, barcos, botes e até jangadas furadas, remendadas com o que sobrou. Não estamos no mesmo barco. Dizer isso é confortável para quem está no convés, para quem mal consegue manter a cabeça acima da água, a realidade é outra. A tempestade não é democrática, ela escolhe seus estragos conforme a embarcação. E a meritocracia? Bom, tirem suas próprias conclusões.

Por último, mas não menos importante, essa citação de Boff também me fez pensar no próprio jornalismo. Retomando o início deste texto e a questão da fantasia da imparcialidade, depois que saímos da academia percebemos com mais clareza que existe certa romantização da ideia de que a notícia nasce pura, passa por uma redação asséptica e chega intacta ao leitor, sem nenhum viés, sem nenhum ponto de vista visto de algum ponto.

A verdade é que os fatos, por mais bem apurados que sejam, passam por escolhas. E o silêncio, caro leitor, também é uma forma de discurso. Por meio dele, diz-se muita coisa, mesmo quando aparentemente não se diz nada. Nenhum jornal publica tudo. As capas que nos conduzem a determinadas notícias não passam de uma coleção de ausências devidamente organizadas e isso não significa que todo jornalista seja desonesto, significa apenas que a imparcialidade não existe e que a independência absoluta é apenas mais um mito da nossa profissão.

Mesmo diante de tudo isso, acredito que ainda possamos enxergar o jornalismo como um farol na travessia desse mar aberto que é a nossa sociedade, independentemente de barcos ou jangadas. É claro que o jornalismo também projeta sua luz a partir de um lugar. Infelizmente, nenhum farol ilumina o mar inteiro. Toda luz alcança alguns pontos e deixa outros, inevitavelmente, na sombra. E isso não acontece por uma conspiração, mas porque toda lente tem uma moldura, todo mapa tem margens e toda bússola repousa sobre uma mesa construída por alguém.

Certos ventos encontram velas abertas com facilidade, enquanto outros precisam soprar muito para mover um único centímetro da embarcação. Fazer jornalismo de verdade, hoje, é reconhecer essa corrente invisível e, ainda assim, insistir em navegar contra ela quando for preciso, mesmo sabendo que talvez nunca se chegue à outra margem. É entender que, se toda verdade precisa pedir autorização para existir, ela deixa de ser verdade e passa a ser produto.

Talvez, num primeiro momento, haja quem me chame de pessimista, mas esse texto não tem o intuito de desencorajar ninguém, justamente o contrário. Voltando à frase de Boff, se todo ponto de vista é a vista de um ponto, a saída não é fingir uma imparcialidade impossível, mas ter a decência de dizer de onde se fala, quais interesses cercam a própria voz e quais limites delimitam a própria visão. Porque todo ponto de vista é, de fato, a vista de um ponto e o problema nunca foi esse.

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