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Opinião

O jeito franciscano de educar: uma forma de vida

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Por O jeito franciscano de educar: uma forma de vida
Foto Divulgação

O testemunho pessoal de vida é elemento altamente pedagógico. A evangelização se faz com palavras de espírito e vida, com práticas concretas e, sobretudo, com o testemunho pessoal, comunitário e institucional. O primeiro modo de ensinar a virtude, é praticá-la. (Pedagogia Missionária, 2002, p. 35).

 

           

A educação contemporânea está passando por transformações paradigmáticas com a intensificação tecnológica, fragilidade da educação como prioridade das pessoas, a fragmentação das relações humanas, dentre tantos outros aspectos que poderíamos citar. Neste cenário, as instituições de ensino precisam estar atentas aos elementos que embasam a sua perspectiva educacional, para formar sujeitos capazes de compreender criticamente as realidades e de assumir uma postura responsável frente aos meandros cultural, econômico, político e social. Para tanto, perguntamo-nos: o jeito franciscano de educar responde aos desafios da educação atual, promovendo identidade histórica e missão humanizadora?

Num primeiro momento, vale compreender a etimologia dos conceitos jeito, franciscano e educar. A palavra jeito possui origem no latim jactus, derivada do verbo jacere, indica disposição e modo particular de agir. O jeito vislumbra uma maneira subjetiva da existência e da compreensão da relação e da realidade. Com esse entendimento, o jeito franciscano abre o horizonte para a práxis pedagógica, teoria e prática, reflexão e ação, constituídas por uma identidade educacional pautadas pela história e valores que transmitem autenticidade educacional.

O adjetivo franciscano remete à experiência espiritual de São Francisco de Assis e de Santa Maria Bernarda, cujas propostas de vida revolucionaram a compreensão das relações entre Deus, o ser humano e a criação. O termo expressa uma cosmovisão e uma cosmo percepção fundada na fraternidade, na humildade e no cuidado com todas as formas de vida, promovendo assim a paz e o bem. Educar aos moldes franciscano significa cultivar a formação integral, reconhecendo o ser humano como imagem e semelhança de Deus, mobilizando o sujeito a colocar os seus dons a serviço da comunidade.

A etimologia do verbo educar vem do latim educare, que significa alimentar, cuidar, formar. Educere quer dizer conduzir para fora, potencializar a imersão daquilo que já existe no sujeito, revelando a concepção humanista da educação. Na sua essência, o educar promove o florescer do conhecimento por meio da relação educador e educando de maneira horizontal. A pedagogia freireana (2021), ajuda-nos a refletir sobre o ensinar enquanto oportunidade de criar e recriar possibilidades para a construção do conhecimento, reconhecendo a criança e o estudante como sujeitos ativos na dinâmica de ensino, aprendizagem e evangelização.

Analisando a etimologia do jeito franciscano de educar, permite-nos problematizar sobre a importância da educação integral. A história de 103 anos do Colégio Franciscano São José, demonstra a tradição da educação franciscana, compreendendo-a na multidimensionalidade do ser humano, atrelada a formação das dimensões emocional, corporal, intelectual e física. Trata-se de uma formação que desenvolve hard skills (habilidades técnicas) e soft skills (competências comportamentais e sociais), habilidades e  competências que cuidam do cognitivo e da capacidade humana para a cultura do bem viver. O antropólogo, sociólogo e filósofo Edgar Morin na obra Os sete saberes necessários à educação do futuro (2000),  explicita que o pensamento é capaz de superar a fragmentação do conhecimento e promover uma compreensão complexa da condição humana. Para o autor, educar implica ensinar a contextualizar, integrar saberes e compreender a unidade na diversidade.

Concomitante à formação integral, o jeito franciscano de educar promove a construção do conhecimento e da excelência humana. A excelência manifesta-se no desenvolvimento das capacidades humanas que são exercidas no exercício da coletividade. O conhecimento passa a ser  instrumento de humanização e transformação das sociedades. A prática educativa é um ato de amor, capaz de formar o ser humano para a leitura crítica do mundo. A educação franciscana promove o ensino, aprendizagem e evangelização a partir dos pilares do aprender a aprender, aprender a fazer , aprender a conviver e aprender a ser, em conceitos presentes no relatório da UNESCO, no livro Educação: um tesouro a descobrir: relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI.

O jeito franciscano de educar expressa-se também na educação inovadora e promotora da vida. A inovação aqui compreendida enquanto capacidade de renovar as práticas educativas à luz das eminências humanas e das necessidades de cada tempo. Numa conjuntura social marcada pelos algoritmos, pela inteligência artificial e pelo excesso de informação, torna-se urgente recuperar espaços de diálogo, de contemplação, de criatividade e de discernimento. A inovação franciscana mantém-se na humanização, colocando a tecnologia a serviço da humanidade. Na Carta Encíclica Magnifica Humanitas (2026) o Papa Leão XIV interpela: “não basta que a IA nos torne mais eficientes ou conectados, ela deve servir para edificar a família humana universal, com direitos e deveres compartilhados, onde a proximidade digital se torna ocasião concreta de encontro e cuidado recíproco”.

A cultura do encontro e cuidado recíproco vislumbram na educação franciscana a aprendizagem enquanto compromisso social. O Papa Francisco na Encíclica Fratelli Tutti (2020), apresenta uma proposição de formação de  consciência ecológica, responsabilidade compartilhada e participação democrática. No século XXI a sustentabilidade se torna um princípio ético que orienta as relações humanas. Martha Nussbaum no livro Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades (2015), debate  sobre a essência das humanidades no desenvolvimento e formação das democracias. Os componentes curriculares de filosofia, literatura, artes e história desenvolvem capacidades fundamentais para o exercício da cidadania, do pensamento crítico, da empatia e da imaginação moral. Nesse sentido, educar significa provocar as novas gerações no caminho da sociabilidade, preparando-as para assumir os desafios do mundo.

A formação de sujeitos conscientes de sua responsabilidade histórica faz diferença na constituição das sociedades. O ser humano assume papel epistemológico no jeito franciscano de educar. Em um tempo social caracterizado pela acelerada conectividade tecnológica e valorização da produtividade, faz-se necessário oportunizar às crianças e os estudantes a reflexão filosófica, a experiência espiritual e a construção ética do conhecimento. A tradição franciscana compreende que a sabedoria e a ciência caminham de forma interconectada.

No texto Princípios e linhas gerais da pastoral educativa, pondera-se que “A Educação Cristã só poderá cumprir sua missão se humanizar e personalizar o ser humano em vista de uma autêntica libertação” (Pedagogia Franciscana, 2000). Para isso, o educador franciscano inspira a partir do seu testemunho e autoridade pedagógica, sendo presença capaz de formar pelo exemplo, pela escuta, pelo diálogo e pelo cuidado. Em síntese, o jeito franciscano de educar se constitui como uma forma de vida. A sua identidade e tradição educativa são reconhecidas pela excelência acadêmica, pela formação ética e integral. A reputação nasce na qualidade do ensino, na coerência da práxis pedagógica e na seriedade institucional. O jeito franciscano de educar responde aos desafios contemporâneos, formando as crianças e estudantes para a superação da superficialidade em vista da construção do conhecimento com profundidade.

 

Referências

 

FRANCISCO. Carta Encíclica Fratelli Tutti: sobre a fraternidade e a amizade social. São Paulo: Paulinas, 2020.

 

FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato Si': sobre o cuidado da Casa Comum. São Paulo: Paulinas, 2015.

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 67. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.

 

IRMÃS FRANCISCANAS MISSIONÁRIAS DE MARIA AUXILIADORA. Província Imaculada Conceição. Equipe de Educação. Princípios e linhas gerais da pastoral educativa. Passo Fundo: Gráfica e Editora São Cristóvão, 2000.

 

LEÃO XIV. Magnifica Humanitas: sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Carta Encíclica. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2026.

 

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2. ed. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2000.

 

NUSSBAUM, Martha C. Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015.

 

UNESCO. Educação: um tesouro a descobrir: relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. 10. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO no Brasil, 2010.

 

Pós-Doutor em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade La Salle Canoas (UNILASALLE). Mestre e Doutor em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Passo Fundo (UPF).

Formado em Filosofia pelo Instituto Superior de Filosofia Berthier (IFIBE).. E-mail: fortunavolnei@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3047-2300

 

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