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Opinião

Calmante

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Clovis Lumertz
Por Clóvis Lumertz – Empresário
Foto Clóvis Lumertz

A reunião de conselho estava um tanto tensa, por conta das mudanças a serem tratadas e enfrentadas.

A pauta era realmente pesada (no sentido de botar tudo na balança), o tema em foco era delicado, as divergências legítimas e as decisões relevantes para o futuro da empresa.

Em um iluminado momento, uma das sócias, sempre muito espirituosa e assertiva, interrompeu e soltou uma piada didática:

“Médico liga para o paciente:

— Me desculpa, mas ontem recomendei o remédio errado. Era para diarreia e te passei a receita de calmante. Como você está?

— Tranquilo, Doutor, mas todo cagado.”

A sala veio abaixo.

Após a gargalhada, refleti sobre a profundidade daquela metáfora.

No ambiente dos conselhos, muitas vezes somos tentados a exercer apenas o papel do “calmante”, errando o remédio.

Reduzimos a ansiedade, amenizamos conflitos, produzimos conforto momentâneo e fazemos com que todos saiam da reunião aparentemente mais tranquilos.

Mas tranquilidade, por si só, não resolve problemas.

Quando os temas são relevantes, quando os riscos são reais e quando as decisões são determinantes para o alinhamento da gestão e da organização, nosso papel não pode ser apenas gerar sensação de bem-estar.

Se o conselho produz apenas alívio emocional imediato, mas não enfrenta as causas dos problemas, corre o risco de se transformar em um placebo institucional.

Governança não existe para anestesiar sintomas. Existe para investigar causas, provocar reflexões difíceis, questionar premissas, iluminar riscos e ajudar a construir soluções consistentes.

No caso, aquela metáfora trouxe ainda outro ensinamento.

Por trás dos momentos mais tensos e das discussões mais complexas, há que se preservar o bom humor.

O humor saudável não diminui a importância dos temas tratados. Pelo contrário. Muitas vezes, ele cria as condições necessárias para que conversas difíceis continuem acontecendo de forma produtiva.

Existe uma diferença importante entre aliviar a tensão e evitar o problema.

O humor ajuda a baixar a temperatura do ambiente sem reduzir a profundidade do debate.

Ao longo da vida, percebi que os melhores ambientes decisórios não são necessariamente os mais sisudos, mas aqueles em que existe maturidade suficiente para discutir temas difíceis com firmeza, respeito e, ocasionalmente, com um sorriso no rosto.

Pessoas tensas tendem a defender posições. Pessoas equilibradas tendem a construir soluções.

E uma das virtudes menos comentadas da boa governança seja exatamente esta: manter a leveza sem perder a responsabilidade, o humor sem perder a seriedade e a humanidade sem perder o compromisso com os resultados.

Os problemas relevantes exigem competência para serem resolvidos, e não desespero.

Muitas vezes, uma boa risada ajuda, desde que, depois dela, no momento certo e na dose correta, tenhamos a coragem de enfrentar aquilo que realmente precisa ser resolvido.

Estamos vivendo tempos difíceis, de mercado e de novas demandas internas, e é melhor seguir “calminhos”.

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