De acordo com o dicionário, intimidade é um substantivo feminino que se refere ao caráter do que é íntimo, secreto. A palavra vem do latim intimus que significa “o mais interior” ou “o mais profundo”. Os dicionários destacam ainda quatro pilares principais para a intimidade, além da vulnerabilidade, do vínculo e do autoconhecimento, temos a privacidade, que é o espaço reservado e a proteção da vida contra a exposição pública.
Dito isso, fica claro que o que é íntimo diz respeito àquela pessoa e não deve ser espalhado aos quatro ventos, principalmente sem autorização da mesma. Ainda assim, há quem trate a intimidade alheia como uma espécie de moeda social, onde homens transformam encontros, relações e confidências em troféus de mesa de bar, piada de corredor ou assunto de grupo de WhatsApp, como se expor mulheres fosse prova de masculinidade, porém não passa de um atestado público de pobreza moral.
Existe diferença entre conversar e violar e entre compartilhar uma situação e expor uma mulher. Certas coisas não deveriam ser ditas em lugar algum, nem mesmo na mesa do bar mais pé sujo, afinal, ninguém é obrigado a ouvir relatos invasivos, comentários vexatórios ou descrições sobre a vida privada de terceiros.
O “engraçado” é que a régua moral muda conforme o corpo feminino em questão. Sim, pois quando se trata da “mulher dos outros”, vale o deboche, a hipersexualização e o espetáculo, mas esses mesmos “homens de bem”, que espalham intimidades femininas jamais suportariam ver esposas, filhas, irmãs ou mães reduzidas ao mesmo tipo de comentário. Esquecem que nós somos os “outros dos outros” e, basta a exposição bater na própria porta para descobrirem, subitamente, o significado da palavra respeito. Saem do esgoto rugindo como leões em defesa das “suas” mulheres, mesmo agindo como ratos na vida delas e na das mulheres dos outros.
Isso não é simples grosseria, nem falta de educação, muito menos humor inocente. Isso é violência psicológica, moral e social. Expor a intimidade de uma mulher, seja onde for, é retirar dela o direito sobre a própria história, sobre o próprio corpo e sobre os próprios limites, transformando confiança em humilhação pública.
A situação se agrava quando pais naturalizam esse comportamento diante dos filhos, ensinando aos meninos que mulheres são reles objetos com função de satisfazê-los, enquanto que, às meninas, ensina-se a conviver com o medo permanente diante de uma falsa e arbitrária supremacia masculina. Depois surgem as perguntas hipócritas sobre o silêncio das mulheres e o porquê de tanto medo, enquanto que a resposta está justamente na banalização diária dessas “pequenas” violências que alguns insistem em chamar de “coisa de homem”. Não é coisa de homem, é tudo aquilo que deveria envergonhar um.
Que as leis sejam mais rígidas para proteger as mulheres de certos abusos e diminuir a violência contra a mulher. Privacidade não pode ser tratada como detalhe opcional. Intimidade não é entretenimento público, não é prova de virilidade, tampouco piada, é território sagrado e deve ser respeitada. E, quem faz da exposição alheia um hábito, talvez devesse se perguntar por que precisa destruir a dignidade de alguém para sustentar a própria imagem, se é que ainda há algum resquício de dignidade.