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Opinião

Moa... simplesmente Moa

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Lucia Pagliosa
Por Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa – Professora da URI Erechim – Doutora em Linguística Aplicada - Membro da Academia Erechinense de Letras - AEL
Foto Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa

Há pessoas que passam pela vida discretamente, sem buscar aplausos, mas deixam marcas tão profundas que se tornam impossíveis de esquecer. Moa era assim.

Para todos, era simplesmente Moa. Mas ele gostava mesmo era de ser chamado pelo nome inteiro, com a solenidade de quem sabia o próprio valor: Moacir Miguel Veit. E havia beleza nisso, porque seu nome completo carregava sua história inteira — e ela foi bonita.

Amigo de nossa família desde a mais tenra idade, Moa nasceu como último filho de uma família de sete irmãos, onde imperavam princípios sólidos de união, religiosidade e trabalho. Cresceu cercado de afeto, disciplina e fé e, talvez por isso, aprendeu cedo aquilo que muitos levam a vida inteira para compreender: o valor das pessoas.

Conhecido por toda a cidade, especialmente na Rua Polônia e no Bairro Ypiranga, Moa era presença familiar, quase patrimônio afetivo da vizinhança. As crianças o adoravam, e uma das maiores atrações era sua bicicleta tão única quanto ele: adaptada especialmente pela família, com três rodas, sendo as duas traseiras do tamanho das de uma bicicleta de adulto, garantindo firmeza e estabilidade. Aquela bicicleta era quase uma extensão de sua personalidade — diferente, inesquecível e impossível de ignorar. O sonho da criançada era ganhar uma carona nela. Minhas filhas, meus netos, Pietro e Marcello, eram encantados com aquela engenhoca tão original.

Moa gostava de estar bem vestido. Apreciava roupas e calçados combinados, tinha gosto próprio e um certo orgulho elegante de quem se apresenta ao mundo com dignidade. Sempre carregava nos bolsos uma carteira de couro com alguns bilhetes contendo nomes de amigos e telefones. Era também profundamente religioso. Durante muitos anos, auxiliou nos rituais de fé, chegando a ser coroinha na capela das Irmãs da Sagrada Família de Maria, próxima de sua casa e, mais tarde, o dedicado acendedor de velas nas cerimônias da Catedral São José, como bem lembrou o Pe. Antoninho na celebração de despedida. Havia nele uma devoção silenciosa e sincera, dessas que não precisam ser anunciadas.

Era apaixonado pelos filmes do Zorro e por cavalos. O herói mascarado o encantava profundamente — talvez porque, como ele, também defendesse os mais frágeis e protegesse quem precisava. No aniversário de seus 70 anos, o irmão Sérgio e família ofereceram-lhe uma festa inesquecível. Um personagem vestido de Zorro surpreendeu recebendo os convidados. Foi felicidade pura. Auxiliamos na organização desse dia como se estivéssemos preparando uma festa para nossas próprias filhas.

Defender as mulheres era quase um princípio inegociável. Gentil e atento, não permitia que carregassem peso ou sequer abrissem a porta do carro diante dele. Havia nisso uma delicadeza antiga, rara e genuína. Palavras ásperas dirigidas a elas despertavam nele um olhar de desaprovação, ira e tristeza.

Tinha, porém, um temor imenso da palavra morte. Ela o assustava profundamente, como se nomeá-la a tornasse mais próxima. Ainda assim, lembro com emoção de levá-lo para a despedida de sua mãe, num último momento de silêncio e amor. Por Dona Olga, tinha uma devoção imensa, quase sagrada. Depois de sua partida, sentiu-se responsável pela casa. Daí vinham os cuidados e a companhia permanente à mana Clari, embora fosse ela quem lhe dispensava cuidados cobertos de afeto.

Foi aluno da APAE durante muitos anos, onde construiu laços, memórias e afetos. Contava-me seguidamente os acontecimentos da escola. Gostava muito do senhor Derly, um deficiente visual que prestava serviços terapêuticos na Associação. Queria aplicar em mim — e em todos que dissessem sentir alguma dor muscular — os mesmos cuidados que aprendia a admirar.

Participou de todas as festas de debute e casamento de nossas três filhas. Era presença indispensável, alegria certa, especialmente nos churrascos de família seguidos de banho de piscina — momentos em que também encantava nossos netos, sempre com sua espontaneidade e seu jeito único de amar.

Moa não foi apenas um homem com Síndrome de Down. Foi um mestre silencioso da ternura, da lealdade e da presença. Um eterno menino, sim — mas daqueles que ensinam aos adultos o que realmente importa. Aquele que soube chorar quando alguém lhe fazia uma zombaria cruel — fruto da ignorância ou da maldade —, mas que também tinha mãos suaves para acariciar quem chorava perto dele.

Sua partida deixa saudade, muita saudade...  mas também gratidão, porque há pessoas que não passam: permanecem.

No riso alto. 
Na cadeira vazia do churrasco.   
Na lembrança da bicicleta.           
No cavalo da granja.          
Na vela acesa.        
Na devoção pela mãe.      
No Zorro que ainda sorri em alguma memória.

Moa partiu.

Mas ficou.

Simplesmente Moa.

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