Há uma diferença importante entre “ter” ego e ser governado por ele. O primeiro é inevitável, afinal o ego faz parte do ser humano, organiza a identidade, sustenta o senso de realidade e dá forma ao famoso “eu”. O problema começa quando esse “eu” perde o equilíbrio e passa a se entender e agir como se fosse o centro absoluto do universo, então, ser governado por ele pode ser um verdadeiro desastre.
O egocêntrico não enxerga o mundo como ele realmente é, mas sim, como uma extensão de si mesmo, onde tudo e todos precisam confirmar suas certezas, alimentar sua vaidade e validar sua imagem. Discordar dele não é uma simples divergência, é afronta pessoal. Curiosamente, embora se considere extremamente inteligente e dono de uma visão superior das coisas, seu universo costuma ser pequeno, justamente por não existir nada fora da sua própria realidade e quanto maior o ego, menor tende a ser a tolerância à verdade.
Freud observava que, na verdade, a função do ego não é alimentar a própria imagem, mas para mediar os impulsos do Id e as exigências da realidade. O Id representa os desejos mais primitivos e uma urgência da satisfação imediata, já o superego, por sua vez, funciona como consciência moral, onde impõe-se limites. E o ego, de certa forma, demonizado, principalmente por quem pouco o compreende, deveria ser justamente o ponto de equilíbrio entre ambos.
O problema surge quando esse equilíbrio se rompe e o indivíduo passa a se enxergar como medida absoluta das coisas e o ego deixa de mediar, passando a servir exclusivamente à vaidade.
Pessoas realmente inteligentes costumam desenvolver alguma humildade e não por uma simples virtude, mas porque o conhecimento traz consigo a noção da complexidade do mundo. Já os excessivamente convictos de si vivem aprisionados numa realidade simplificada, onde só a própria voz é ouvida. Freud também sugeria que o narcisismo mais barulhento costuma esconder um “eu” frágil, o que explica essa necessidade que algumas pessoas tem de ocupar o centro das atenções. Muitos não querem compreender a realidade, só não querem ser esquecidos ou engolidos por ela.
Há ainda uma ironia nos que acusam os outros de possuir “mente estreita”, enquanto vivem aprisionados dentro do próprio reflexo, confundindo arrogância com personalidade e autossuficiência com superioridade moral. Normalmente são os mesmos que falam muito sobre grandeza, mas raramente a demonstram fora do discurso.
O ego inflado produz uma incapacidade de admitir limites e quem não os reconhece deixa de aprender, pois a arrogância interrompe o pensamento. O egocêntrico acredita demonstrar força quando, na verdade, depende o tempo inteiro de validação externa para sustentar sua instável imagem interna. No fim, esse excesso desgasta amizades, intoxica ambientes e empobrece afetos, pois ninguém suporta conviver por muito tempo com quem transforma tudo em uma espécie de disputa pessoal.
E aos egocêntricos que adoram proferir discursos cheios de moralidades, palavras rebuscadas, referências divinas e, não por fé genuína, mas pela necessidade compulsiva de parecerem acima dos demais, só lamento, quem realmente compreende a grandeza das pequenas ações raramente precisa anunciá-las aos quatro ventos. Citar Deus e ir à igreja não torna ninguém acima do bem e do mal, principalmente se a prática se encerra na teoria, da mesma forma, vocabulário sofisticado não esconde a pobreza de espírito que exala nas entrelinhas, pois quanto mais consistente é a inteligência, menos ela necessita performar superioridade diante dos outros.
Talvez o que falte a algumas pessoas seja menos exibicionismo intelectual e mais inteligência emocional. Cognitiva também, claro, mas sobretudo, emocional para entender que podemos fazer nossa parte, ser o “sal da terra”, ser importantes para os nossos e, ainda assim, continuar irrelevantes para bilhões de pessoas e simples passageiros diante da vida.
Talvez a vida fique mais leve quando se aprende a equilibrar Id, Ego e Superego antes de tentar ensinar superioridade moral ao resto do mundo. Afinal, isso deveria bastar para lembrar que não somos os reis do universo, apenas parte dele.