Capo-erê! Palavra que trazia lindas e tristes lembranças. Porém, local de marcas indeléveis em seu coração. Apesar do tudo, ao ouvi-la, já no avançar dos anos, sorria na perspectiva de la voltar, levada por seu primo Wilson e sua tia Irene, que no velho carro chegariam para rever amigos e conhecidos da mãe Josephina e dela própria.
Nascera ela, no pequeno vilarejo, importante no início da colonização, mas agora quase esquecido pela história. Sempre se orgulhava do “seu” Capo-Erê.
Como segunda filha, pouco estudou. Os reveses e dificuldades começaram cedo e entristeceram sua infância. Ainda criancinha perdeu o pai Fortunato.
Pouco depois a casa familiar foi consumida pelo fogo. Ela e seus três irmãos passaram a residir na estrebaria da chácara. Não sem antes rasparem, por dias a fio, as paredes sujas pelos excrementos dos animais.
Ali cresceu sentindo o sofrimento da mãe que durante festas ou carreiradas, seguia com sua “gaiotinha” onde ocorriam os referidos eventos, onde vender bolachas e cucas para complementar o sustento da casa, cujos ovos das galinhas e o leite da vaquinha, não eram suficientes.
Ela, já adolescente não aprendeu a costurar e nem a bordar, o que coube para a irmã mais velha. Para ela, havia o serviço na casa dos tios em Erechim, onde era tratada com imenso carinho, em especial pelo tio Otávio Rigotti que sempre a valorizou por sua meiguice e delicadeza.
A chácara teve de ser vendida e a família comprou lote nas Três Vendas, onde a batalhadora Josephina sobreviveu e, sobretudo ajudou e apoiou os colonos que vinham para a cidade de Erechim, para compras ou consultas médicas.
A linda e tímida menina de 14 anos foi trabalhar no frigorífico, único local com vagas para todo o bairro.
Festas foram raras no salão do casarão da mãe, onde havia também uma “bodega” que vendia mais a fiado, e que centenas de vezes nunca recebia a paga. Mesmo assim, sua mãe Josephina dizia: “onde come um, comem dez”.
Em seu trabalho, nada salutar, a mocinha conheceu um garboso rapaz, alto, sério, com lindos olhos azuis e de 22 anos. Era descendente de espanhóis e italianos.
Aos dezesseis anos incompletos, casaram-se. A simplicidade e as dificuldades acompanharam o jovem casal pela vida afora.
A corajosa mocinha, de longos cabelos e de doces olhos castanhos, leais, carregou a casa e a família por décadas, sempre quietinha, sem reclamar, contendo seu maravilhoso sorriso nos momentos difíceis, que eram maioria, mas sempre derrubando obstáculos. Fazia mágicas para que nada faltasse para a família, tanto na alimentação, como nas roupinhas dos filhos, com rendinhas, ou mesmo remendadas.
Com o esposo Anacleto recheou de dignidade, respeito e boa conduta, a vida de três filhos. Foi a mais valiosa herança.
Eu, sempre analisava aquela mãe que me trouxe ao mundo.
Concluindo: que nome mais apropriado para aquela extraordinária mulher.
Chamava-se Graciosa. A mais graciosa das mães. Nunca foi a um cinema. Bailes foi a um único no Clube Brasil com pai Anacleto. Ela era a última em tudo. Primeiro, seus filhos. Os defendia com ferocidade. Nos deu exemplos inesquecíveis de bondade, de amparo. Foi a mais doce e segura presença para a família.
Mesmo na sua simplicidade, ela se agigantava e transformava-se ao nos defender das armadilhas e mazelas da existência. Para ela, os filhos eram “meus tesouros”. Para nós, os filhos, era a mais preciosa das joias.
Com ela e por causa dela eu tive a mais completa sensação do que é a felicidade. Após a morte de meu pai, eu ia ao quarto da mãe Graciosa espiar seu respirar, temendo de não o ouvir. Todas as noites eu a observava.
Certa noite, preocupada, entrei no aposento. Ao ouvir o suave respirar, senti gratidão e a mais linda emoção, por ainda poder contar com ela. Aquilo me fez verdadeiramente feliz.
Obrigada minha graciosa mãe Graciosa!
Deus abençoe a todas as mães!