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Opinião

Neurociência, desenvolvimento e literatura

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Por Dr. Rodrigo Sartorio, Analista de Educação – 15° Coordenadoria Regional de Educação; Neurocientista e Neuropsicopedagogo - Mentalize Educação
Foto Arquivo pessoal

Aprender e ter o hábito de ler e escrever é uma via que não tem volta. No começo dói, dá aquela preguiça, mas na medida em que vivemos o texto, a dor desaparece para dar início a uma nova vida, aliás, muitas vidas podem ser vividas na Literatura. Leia quando estiveres triste, confuso, com raiva, com medo, com alguma dor da alma, leia quando estiveres feliz.

Decodificar símbolos e transformar os mesmos em imagens mentais (leitura) ou, imagens mentais em símbolos (escrita), são atos de grande complexidade para o cérebro e, envolvem diferentes áreas dos sistemas emocional, psicomotor e cognitivo. Quando as imagens estão prontas, como nos vídeos, não temos a mesma qualidade na estimulação. A leitura é a melhor e mais sofisticada atividade para o cérebro, é o que mais nos torna “inteligentes”. Assim como no tecido muscular, o tecido nervoso precisa ser amplamente estimulado, formando uma reserva neural que serve de proteção contra o estresse, o envelhecimento, promovendo maior plasticidade neural e de comportamento.

Ao acompanharmos o texto, melhoramos o controle dos impulsos, pela necessidade de seguir a narrativa, habilidade transferida para outras interfaces, com maior amplitude de respostas e flexibilidade cognitiva para responder aos desafios. As diferentes estruturas textuais, descrições de cenários, objetos, relações, personagens e suas personalidades, comportamentos, ações e emoções estimulam não apenas as redes neurais da leitura, mas todas as áreas correlatas, o treino facilita a formação de novas memórias de dados e autobiográficas, ao fortalecer as redes. A exposição em excesso ao mundo digital pode reduzir o tempo dedicado à leitura e produzir o contrário de todos os benefícios listados aqui.

Um texto pode fazer com que o leitor deixe de viver seus dilemas pessoais e passe a viver a vida de outros ou de alguma coisa, por alguns instantes, resolvendo problemas longe dos reais conflitos, fornecendo, muitas vezes, resoluções inesperadas aos desafios, naquilo que costumamos dizer “pensar fora da caixa”, que é pensar os problemas fora de seus contextos originais.

Para as crianças, a motivação inicial vem do desejo de se apropriar das histórias. A literatura infanto-juvenil é vasta e rica. Para ficar na questão das emoções, sentimentos, do mundo da empatia e sociabilidade, temos “O chapeuzinho amarelo”, de Chico Buarque de Holanda, que trabalha o medo, “Tudo bem ser diferente” de Todd Parr, sobre diversidade, todos os livros da Ruth Rocha e do Ângelo Machado, enriquecedores do vocabulário das crianças, textos que auxiliam na organização da sociabilidade, das emoções e sentimentos. Todos apresentam uma característica peculiar, a repetição de palavras, contextos, ideias, ao longo da narrativa. Como as memórias conscientes ainda estão em formação, as crianças não constroem a narrativa por completo com uma única exposição, mas, paulatinamente, organizam a história ao longo das inúmeras vezes que escutam, leem ou assistem algo.

Há evidências de que ocorrem mudanças comportamentais em indivíduos leitores, que demonstram maior engajamento cívico (voluntariado, voto, doações), apresentam aumentada empatia e melhor entendimento dos sentimentos dos outros. Crianças entre 4 a 6 anos, expostas à ficção infantil, têm melhores performances em se colocarem no lugar dos outros. O uso de histórias com maior conteúdo emocional, social e psicológico prediz empatia e ajuste socioemocional. Um estudo onde adultos leram ficção de alta qualidade para as crianças por uma semana, demonstrou que a experiência promoveu mudanças positivas na empatia, mas, somente quando havia um elevado conteúdo emocional nas histórias. A ativação das redes neurais durante a leitura ocorre de forma a simular cenas físicas, pessoas e pensamentos.

Historicamente, sociedades altamente literárias, especialmente, sociedades que produzem literatura psicologicamente rica, são menos violentas que sociedades menos literárias.

Leia para uma criança ainda não alfabetizada, estimule a leitura ficcional em crianças alfabetizadas e, leia romances sempre que puder, além de dar exemplo, sua saúde mental e a saúde do mundo que você habita serão fortalecidas. Ler é um grandioso ato de amor e paz.

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