Podemos ser muitas coisas nesta vida, bem como podemos não ser outras tantas. Podemos cumprir nossa lista de metas traçadas no último 31 de dezembro ou não. Podemos escolher ter um dia produtivo, sermos mais gentis com o próximo e conosco e até sermos fitness. Agora, será que fulano ou determinado veículo pode ser imparcial? Se é ou não? Nem precisa de muita discussão. Não, não é. A imparcialidade não existe. Há quem discorde e jure que exista. Paciência.
A tal da imparcialidade, palavra que o dicionário descreve com certo requinte como “equanimidade”, “justiça” e “neutralidade”, costuma circular pelos corredores do Direito e das redações como o politicamente correto, como algo que deva ser buscado a todo custo. Na teoria, é lindo, tudo impecavelmente planejado. Decisões baseadas apenas em provas, a justiça absoluta e reportagens que trazem apenas os fatos, sem floreios, deixando ao leitor apenas o trabalho de tirar suas próprias conclusões, sem ser previamente forçado a tomar um ou outro partido.
Lindo e simples, porém utópico. E sabem por quê?
Porque a imparcialidade começa a se desfazer ainda na reunião de pauta, quando optamos por um assunto em detrimento de outro, quando, na escolha do que falar, fazemos opções por determinados verbos e escolhemos adjetivos que julgamos perfeitos para o momento, de acordo com nossas crenças, vivências ou falta delas e, sim, também pelos pré-conceitos que nos moldam. Infelizmente ou felizmente, contar uma história é sempre fazer escolhas entre o que entra e o que fica de fora, entre quem fala primeiro e quem ganha a última palavra. E escolha, vamos combinar, é uma prima legítima da opinião.
Contudo, isso não significa que a verdade tenha pedido demissão ou saído para comprar cigarros, tampouco que os fatos sejam peças decorativas nas histórias contadas. Tanto a verdade quanto os fatos estão - ou deveriam estar - ali, firmes e fortes, só esperando para serem apurados, confrontados e organizados, independentemente dos verbos e adjetivos escolhidos. Ser fiel a eles, ouvir todos os lados envolvidos e informar com responsabilidade é um dever do jornalista e não uma utopia. É utilidade pública. É o mínimo que se espera de quem escreve para quem lê sobre o mundo.
Penso que o grande equívoco, e que talvez seja o que mais cause confusão, é que se costuma comparar imparcialidade com honestidade. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A primeira é uma utopia, um ideal inatingível, já a segunda, ainda que difícil, é quase palpável e completamente possível. Não exige uma neutralidade absoluta, porém rigor, transparência e, sobretudo, a consciência de que toda narrativa carrega um ponto de vista, ainda que expresse seus fatos, lados e verdades. E gosto de lembrar sempre que, uma história raramente vai ter apenas dois lados. Eles se multiplicam, criam ramificações, abrigam versões que ora corroboram, ora se contradizem e ora se ignoram, mas que jamais se encontram em uma única verdade. Cada voz traz consigo sua lente, seu recorte, sua perspectiva e sua própria convicção daquilo que é realidade.
Dito isso, creio que a melhor contribuição do jornalismo não seja fingir uma imparcialidade que não existe, mas assumir uma condição humana, mesmo que imperfeita, perseguindo a melhor aproximação possível dos fatos com ética, honestidade e, por que não, com um pouco de humildade, pois entre ser totalmente imparcial e ser honestamente responsável, fico com a segunda opção. A primeira é falsa, rende discursos bonitos, e olhe lá. A segunda, na pior das hipóteses, rende leitores bem informados e, como diria o prefeito da nossa querida Erechim, “isso não é pouca coisa, gente”.