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Opinião

Regulação emocional

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Há uma dificuldade imensa que nos acompanha ao longo de toda a vida, que é regular as próprias emoções e, quando parece que finalmente aprendemos a lidar com elas, surge uma nova situação, trazendo um novo turbilhão. É como um jogo de tabuleiro em que avançamos casas até que, com o girar dos dados, caímos na famosa casa de “sorte ou azar” e, desta vez, a carta traz um revés: “volte dez casas”. E lá vamos nós outra vez aprender a lidar com o novo. Sejamos todos bem-vindos ao grande jogo da vida.

Se, para nós, adultos, esse processo já é complexo e jamais o dominaremos em sua totalidade, como esperar que uma criança, em pleno desenvolvimento, domine algo que ainda estamos aprendendo?

Assim como a vida nos apresenta imprevistos, tirando-nos da nossa rotina emocional, o mesmo acontece com as crianças. A diferença é que, para elas, esses acontecimentos chegam enquanto ainda está sendo construído o próprio senso de mundo, de si mesma e das emoções. Aquilo que para um adulto já é difícil de organizar, para uma criança pode ser simplesmente caótico. Imagine o que já é bagunçado ficar ainda mais bagunçado?

A ciência mostra que o cérebro humano só atinge sua maturidade por volta dos 25 anos. Imagine, então, um pequeno cérebro em constante formação, recebendo estímulos de todos os lados, tentando organizar, compreender e responder ao que sente, tudo ao mesmo tempo. O que existe ali dentro não é desobediência ou birra pura e simples, mas um emaranhado de fios que precisa de organização. É justamente aí que entra o nosso papel como adultos.

Ser adulto, nesse caso, não é só impor limites, é oferecer uma estrutura de acolhimento e ajudar a organizar os fios desse emaranhado invisível, colocando cada coisa em suas “gavetas”. E não será uma ou duas vezes, serão várias, porque os nós sempre voltam, exatamente como fios de fones de ouvido ou cabos que se enrolam sozinhos, mesmo depois de organizados. A diferença é que esses objetos podem ser escondidos em qualquer canto, já o caos emocional, quanto mais é ignorado, mais cresce até transbordar.

Regulação emocional não vem com manual de instrução, e talvez nem escoteiros ou marinheiros deem conta de certos nós. Aqui vale a máxima da tentativa e erro, com recomeços até ajustar da melhor forma e quando nos tornamos pais, tudo isso se torna ainda mais desafiador. Particularmente, isso me frustra sobremaneira, pois, na ânsia de ajudar meu filho, às vezes sinto que atrapalho e, então me dou conta de algo um tanto quanto dolorido, me dou conta que eu não estou sabendo me regular e que, para ajudá-lo, preciso antes olhar para mim e me ajudar. Assim começa um trabalho de formiguinha.

É hora de respirar fundo, reconhecer o próprio estado emocional e criar um espaço entre o impulso e a ação para, então, agir com paciência, firmeza e respeito. Não se trata da ausência de limites, mas da forma como são apresentados, afinal, uma criança não aprende regulação emocional sendo exposta à desregulação do adulto. Pelo contrário, ela absorve e reproduz, talvez não saiba nomear, mas sente e isso se reflete em suas ações.

Todos nós temos um emaranhado de fios e precisamos, de tempos em tempos, organizá-los, buscando algum sentido nesse processo. O tabuleiro do jogo da vida tem muitas voltas antes do fim e o fim não significa necessariamente uma vitória, como em um jogo qualquer. Nesse jogo diário, cada passo pode ser, ao mesmo tempo, vitória e derrota, cabe a nós decidir o que aproveitar de cada experiência e como lidar com as situações.

Dentro de cada um de nós existe uma força bruta, uma espécie de “dinossauro emocional”, alimentado por frustrações, cansaço, medo, raiva e outros sentimentos considerados negativos. Ele existe, e negá-lo não o faz desaparecer, reconhecê-lo, porém, nos dá poder de escolha. Podemos permitir que ele se manifeste de forma descontrolada, alimentando-o com violência, brigas e ameaças, afastando quem está por perto, ou podemos aprender, pouco a pouco, a compreendê-lo, acalmá-lo e direcionar sua força para sentimentos positivos. É justamente nesse processo que ensinamos nossas crianças.

Por isso, toda forma de violência, seja ela física, verbal ou emocional, é desnecessária e contraproducente. Ela desorganiza ainda mais o emaranhado, alimentando negativamente esse “dinossauro”, pois a violência não ensina a regular; ensina a temer. O medo pode até interromper um comportamento momentaneamente, mas não promove compreensão nem autonomia emocional, por isso esse mesmo comportamento volta a se repetir logo, logo.

A regulação nasce no vínculo seguro, na previsibilidade, na presença consistente de um adulto que sustenta o ambiente, justamente pelo fato da criança ainda não conseguir fazer isso sozinha e, não é por meio de gritos, ameaças ou punições que isso se constrói, mas pelo exemplo cotidiano de quem também está aprendendo.

No fim das contas, ajudar uma criança a se regular emocionalmente é um exercício constante de autorregulação e, talvez, essa seja a parte mais desafiadora e também a mais transformadora, tanto da paternidade quanto do sistema educacional.

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