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Opinião

Mulheres: grafeno e mel

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Neusa
Por Neusa Cidade Garcez - Historiógrafa aprovada Diário Oficial de 25 de maio de 2002 - Pesquisadora URI – Erechim - Membra da AEL
Foto Neusa Cidade Garcez

A ainda adolescente preparava-se com carinho para seu primeiro café na casa dos sogros, onde residiria após seu matrimônio, realizado no dia anterior.

Chegou à cozinha, envergonhada, e recebeu uma tremenda reprimenda do severo sogro: “Mulher casada não deve usar batom.”

Sua nascente feminilidade morreu em seu pranto, às escondidas. Nunca mais a mocinha de 16 anos usou batom.

Essa mágoa me foi contada aos 10 anos por minha mãe, quando eu a ajudava a limpar feijão. Senti, de imediato, uma revolta que me acompanharia vida afora. O batom não me fez companhia em meu longo viver. Raras vezes usei maquiagem.

A cor que embeleza uma mulher foi substituída por leituras de centenas de obras, na ânsia de aprender, de compreender onde se situava o nascedouro da repressão ao feminino.

Sempre observei os afazeres da nona Garcez, com seus longos e louros cabelos cobertos por um lenço, lavando roupas para famílias, em uma mansidão que me magoava. Minha avó materna, que eu chamava de “NONA GORDA”, vivia num batalhar insano para criar a família e parentes, sabendo que seu único filho receberia toda a herança em terras. Por ser homem! Para as três filhas, nada. Era assim o costume da época.

Prossegui minha busca, sem desânimo, em autores e historiadores de inúmeras civilizações.

Estudei Aristóteles e o execrei por seu desdém à mulher, e igualmente por sua influência no catolicismo.

Aos poucos, fui rasgando a névoa do tempo e acompanhando a solidão de rostos cobertos por “burcas”. Também a triste sina de mulheres sob o tacão de dogmas cruéis.

Chorei com Maria aos pés da cruz na qual seu filho agonizava.

Em épocas distintas, senti a espera fiel de Penélope. A dor de Andrômaca ao presenciar a morte de seu amado Heitor, defendendo o reino de seu pai Príamo, destruído pela coragem de Helena em trair Menelau e seguir Paris, seu grande amor, rumo a Troia.

Ao abrir as portas fechadas com os cadeados enferrujados do tempo, encontrei Inês de Castro, morta por amar, mas, mesmo assim, posteriormente entronizada pelo homem que a amara.

Outrossim, pude visitar o túmulo de Jimena, esposa de Rodrigo Díaz de Vivar, herói espanhol em luta contra os sarracenos.

Ferido de morte, o bravo Rodrigo foi ajaezado por Jimena sobre seu corcel, que, ao comandar seus guerreiros, conseguiu vitória sobre os invasores, mesmo estando morto.

De época em época, milhares de exemplos e conquistas foram colocando a mulher no protagonismo da história.

A ausência do colorido batom e a raridade de maquiagem me proporcionaram encontros felizes e enriquecedores com centenas de vidas femininas.

No meu hoje, pude traçar uma espécie de comparação do agir das mulheres, tentando vê-las em suas ações ternas, mas também, muitas vezes, fortes e hercúleas.

A história nos mostra seu caminhar através dos séculos e nos dá testemunho de sua doçura e, ao mesmo tempo, de sua dureza diamantina.

Várias vezes escrevi textos comparando a mulher ao diamante. Inquebrável em sua força, não a física, mas a espiritual.

Cientistas comprovaram que há um material mais duro que o diamante. É chamado grafeno.

As mulheres diamante, como eu as havia classificado anteriormente, são as mulheres grafeno e mel, hoje.

Continuam fortalezas inexpugnáveis, fortes, batalhadoras, incansáveis por seus sonhos, por sua dignidade, por seu lugar ao lado do homem na construção de uma sociedade mais ética, mais justa, mais caridosa.

Ao mesmo tempo, são mulheres flor, mel, almas leves e macias como plumas. Colos e corações que são portos seguros para os medos, os prantos, os erros dos filhos. E, sendo portos, são faróis a indicar caminhos, a desviar perigos e fracassos.

Todos os dias, de todos os tempos, são dias para homenagear a mulher.

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