Março chega e, com ele, o calendário nos lembra: é, oficialmente, o mês da mulher. Multiplicam-se homenagens, discursos, cartões com flores e frases inspiradoras. Lembramos, com justiça, das que romperam silêncios, das que ocuparam espaços antes interditados, das que transformaram cozinhas, escolas, universidades e tribunas em espaços de presença.
E porque não recordar tantas conquistas: o direito ao estudo, ao voto, ao trabalho, à presença em espaços que, durante séculos, lhes foram negados.
Falamos da mulher que trabalha fora e dentro de casa, da que cria filhos, da que ensina gerações, da que cuida, da que lidera. Celebramos a resiliência, a sensibilidade, a força, a capacidade quase sobre-humana de equilibrar tantas tarefas sem deixar cair a dignidade. Lembramos da capacidade extraordinária de se reinventar, mesmo em contextos hostis.
Tudo isso é verdadeiro. Tolo seria negá-lo. No entanto, entre uma homenagem e outra, uma palavra dura atravessa a mesa: feminicídio. Ela destoa das flores e dos discursos delicados. Interrompe qualquer celebração. Feminicídio não é apenas um crime – é um sintoma. É um grito social que revela algo profundamente errado em nossa sociedade, muito antes da tragédia acontecer.
Errado? Sim. Os números, infelizmente, não permitem desviar o olhar. Nos meses de janeiro e meados de fevereiro deste ano, no Rio Grande do Sul, registrou-se, em média, um feminicídio a cada três dias. A esse dado somam-se estupros, agressões, ameaças — uma sequência de violências que compõe um retrato inquietante e adoecido do nosso tempo.
Diante disso, talvez seja necessário fazer uma pergunta incômoda, raramente presente nas homenagens de março: precisamos proteger as mulheres, é verdade - mas como estamos educando os meninos?
Vale lembrar que toda tragédia dessa natureza tem uma história anterior. Antes do crime, houve um percurso. Houve uma formação. Houve valores aprendidos — ou deixados de aprender. Existe sempre uma história silenciosa por trás desse gesto brutal. Uma história que começa lá atrás — muitas vezes, no quarto de um menino.
Durante muito tempo, meninos foram educados para a dureza. Ensina-se que não devem chorar. Precisam ser fortes. Emoção é fraqueza. Precisam mandar, vencer, dominar. Sensibilidade é território feminino. Que não se corre para o colo da mãe ou o afago do pai, a cada percalço. Isso é coisa de menina. Que não se leva desaforo para casa. Que perder é vergonha.
Talvez esteja justamente aí uma parte do problema. Meninos que não aprendem a lidar com frustrações podem crescer acreditando que o mundo lhes deve obediência. E quando descobrem que o mundo — e as mulheres — têm vontade própria, alguns transformam frustração em violência.
Meninos também precisam aprender a reconhecer sentimentos, a lidar com frustrações, a aceitar limites. Precisam descobrir, desde cedo, que o respeito não é concessão — é o alicerce da convivência. Precisam ser educados para a gentileza. Para a escuta, para a delicadeza que existe em compreender o outro.
Sensibilidade não diminui ninguém. Ao contrário, amplia. Um menino que aprende a nomear emoções, a pedir desculpas, a aceitar um “não”, torna-se um homem mais inteiro — e certamente menos propenso a transformar frustração em violência.
Talvez a prevenção de muitas tragédias não comece apenas nas leis, nas delegacias, nos tribunais, nas acusações que ecoam nas redes sociais. Talvez comece muito antes: no cotidiano das famílias, das escolas, nas conversas à mesa, nas brincadeiras aparentemente simples que moldam o modo de ser no mundo. Começa quando ensinamos um menino a respeitar o “não”. Quando permitimos que ele chore sem vergonha. Quando mostramos que cuidado, escuta e empatia não são atributos femininos — são atributos humanos.
Celebrar as mulheres é necessário. E justo. Mas talvez a homenagem mais transformadora deste mês seja outra: olhar com atenção para os meninos que estamos formando. Afinal, todo agressor, antes de ser estatística, de ser crime, já foi um menino que alguém ensinou — ou deixou de ensinar.