Estive num velório, daqueles tristes, mas sem manifestações escandalosas de perda.
No caixão dava para ver o logotipo polido da falecida. Como dizemos de pessoas: “Parecia estar dormindo”. Sim, a velha senhora era uma empresa quase centenária. Morte anunciada.
Há um pressuposto curioso na antropologia: desde civilizações pré-históricas, a forma como os mortos são tratados diz muito sobre o grau de civilidade e evolução de um povo.
E convenhamos: todos nós temos uma certa curiosidade mórbida pela causa mortis. Queremos saber do que morreu, quando morreu, por que morreu.
Talvez por isso alguns cemitérios tenham virado pontos turísticos. Recoleta, em Buenos Aires, é quase um MBA a céu aberto. Em Paris, no cemitério da Ilha de São Luís, ou arredores, vi sepulturas dos anos 1300. Dois séculos antes da descoberta da América. Pessoas, impérios, famílias, tudo ali, em silêncio, contando histórias de longevidade ou da falta dela.
E é aqui que a coisa mórbida fica interessante.
Na vida corporativa, “RIP”, “aqui jaz” e “encerramos atividades” dizem exatamente a mesma coisa. Só muda a lápide.
Toda empresa tem uma data de validade implícita. A diferença está em saber disso e, principalmente, em se preparar para o destino finito.
Porque os “cemitérios empresariais” estão cheios de sepulturas conhecidas, lado a lado:
• Empresas sem estratégia.
• Empresas sem execução.
• Empresas sem o cliente no centro.
• Empresas sem visão de futuro.
• Empresas sem governança.
Todas enterradas no mesmo terreno. A diferença? Longevidade.
No fim das contas, para pessoas ou organizações, o desfecho é democrático: todos os seres vivos caminham, cedo ou tarde, para os mesmos sete palmos de profundidade.
E aqui vai a provocação final: a maior causa de morte não são as doenças. É a sucumbência à velhice. A velhice é a maior causa das mortes, assim como o casamento é a maior causa dos divórcios.
Por isso, cientistas no mundo todo tentam retardar o envelhecimento.
Agora, a pergunta que não quer calar:
E a sua empresa? Ela está fazendo algo para adiar os sete palmos? Ou já escolheu a lápide e só ainda não percebeu?
Pense nisso. E viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta... (esta é do Millôr).