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Opinião

A presença da ausência

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Ao meu filho Gael, minha saudade diária!

Filho, dizem que saudade é uma palavra intraduzível e que ela pertence só à língua portuguesa. Sabe, Gael, talvez a saudade não seja apenas uma palavra, seja uma experiência. Alguns linguistas até explicam o porquê. Ela nasce da ideia de estar só, vem de longe, do latim ligado à solidão, atravessa o galego-português medieval e, com o tempo, ganhou corpo, som e sentimento, até se tornar isso que hoje me acompanha todos os dias desde que você partiu.

Enquanto outras línguas falam apenas da ausência, o português fez algo diferente, transformou a falta em presença. Saudade não é apenas o que não está, é o que continua aqui, vivo dentro de mim, ocupando espaço no meu peito. A minha maior saudade é você.

Com o passar dos séculos, essa palavra deixou de falar só da distância concreta e passou a abraçar sentimentos mais delicados, como o afeto, a lembrança, o desejo de reencontro e até esse prazer estranho e doloroso de lembrar do que machuca, mas também aquece. Dizem que não existe tradução exata para saudade e, aos poucos, vou compreendendo por quê. Porque saudade não é só falta, nostalgia, nem somente amor, é tudo isso misturado.

Saudade é mais do que um termo escrito. Olhando para ela, aqui, à minha frente, parece imponente, mas não dura, é grandiosa, porém suave. Exatamente como seu significado, ela chega sem esforço e se faz presente como um abraço que conforta, dizendo que, mesmo que você não esteja mais fisicamente aqui, você permanece no abraço que ficou na memória, no olhar, no sorriso e no jeito do seu irmão. A saudade é a presença da ausência e você é isso em mim.

Mesmo sem perceber, a saudade nos acompanha desde o início da vida e não é ruim, afinal, ela só existe porque algo foi real, houve afeto, troca e presença. Ela não é um problema, é só uma prova de que fomos capazes de amar, de nos ligar, de construir algo que teve sentido. O jeito como sentimos saudade carrega nossa história emocional, nossas seguranças e também nossas feridas e aprender a ficar com ela, sem fugir e sem endurecer, faz parte de crescer e de transformar os vínculos ao longo do caminho.

Muitas vezes, sentimos saudade como quem respira, sem notar. Só percebemos a respiração quando paramos para observá-la e com a saudade é igual. Durante muito tempo, ela me acompanhou assim, silenciosa, junto com as diversas saudades que carrego, até que uma saudade especial passou a fazer parte dos meus dias, a sua.

No começo, era só dor e, sendo honesto, às vezes ainda é. Hoje, porém, ela tem outra forma, o que não muda é que continua praticamente impossível explicar em palavras. Ela é conforto, ela me traz a certeza que você está sempre presente, nas minhas lembranças e no jeito do seu irmão que, sem saber, também te carrega.

A saudade surge quando algo que nos habitava vai embora e não deve ser apagada, mas ressignificada. A saudade é o luto em movimento, tentando dar nova forma à dor da ausência e o que antes era presença vira lembrança, e a lembrança vira um laço que não se desfaz.

Não se trata de esquecer, pois o que foi vivido não se apaga e, mesmo quando o esquecimento parece chegar, acredito que, em algum lugar, aquela lembrança permanece, talvez silenciosa, talvez inacessível, mas viva. Trata-se de dar novos sentidos às memórias e permitir que elas encontrem um lugar nessa “nova” vida. Esse caminho é difícil, cansativo, profundamente dolorido, que exige uma energia emocional quase sobrenatural, mas sigo caminhando por você.

A saudade carrega uma contradição delicada, afinal ela dói porque falta, mas aquece porque houve amor. No cérebro e no coração, ela ativa memórias e emoções ligadas ao vínculo, como se a nossa conexão ainda fosse essencial para a sobrevivência emocional. Mas sabe filho, ela é. Existe também a saudade do que nunca chegou a ser, dos sonhos, das promessas, do futuro que imaginei ao seu lado. A saudade de tudo aquilo que planejamos viver juntos e que nos foi tirado antes mesmo do primeiro colo, do primeiro olho no olho. É um luto invisível, solitário, mas tão real quanto qualquer outro, pois nem o sentimento, nem o cérebro distinguem o que foi vivido do que foi sonhado viver e eu sigo imaginando você em cada situação.

Filho, quando a saudade é acolhida, ela vira memória viva, quando não encontra morada, pode nos afastar de nós mesmos, então, só te agradeço por me ajudar a me encontrar todos os dias. Obrigado por ser presença constante nas minhas melhores memórias, mesmo diante da sua ausência física. Quando fecho os olhos e me concentro, sinto o mundo parar, te sinto nos meus braços, vejo seu rostinho sereno e os sentimentos se misturam, mas o que permanece é amor, gratidão e saudade.

Peço, com todas as minhas forças, que mesmo quando a velhice chegar, eu jamais esqueça o seu rosto lindo, aquele que pude fitar uma única vez, por poucos minutos, antes de me despedir para sempre. Que essa lembrança permaneça viva dentro de mim até o dia de te reencontrar.

Com saudade e todo o amor do mundo,
Papai!

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