Depois das pedras,
falava-se apenas das perdas.
Telhados.
Paredes.
Móveis inchados de água.
Falava-se
do que a água levou,
do que o gelo quebrou,
do que ainda podia ser salvo.
Depois da chuva:
lágrimas,
mãos,
indignações,
doações.
Ruído suficiente
para cobrir o céu.
Homens nos telhados.
Marteladas desde cedo.
Passos
inseguros.
Quedas
evitadas por pouco.
Orçamentos repetidos
em refrão.
Falava-se do humano.
E o humano
falava alto.
Então — não no dia seguinte,
mas depois —
faltava.
Não algo quebrado.
Algo ausente.
O silêncio
não veio de imediato.
Apareceu
quando a reconstrução cessou
e a normalidade se impôs.
Permaneceu
como um céu
sem resposta.
Nas manhãs:
silêncio.
Mesa posta.
O café.
O dia começando sem som.
Disse-se pouco.
Quase nada. Como quem aponta
com o dedo.
Não como quem explica.
Os pássaros
tinham desaparecido.
A frase ecoou
entre telhados,
entre as contas a pagar.
Mas o céu
estava indiferente.
Sem resposta.
Grãos (?) de gelo.
Mas o que permaneceu
não foi o impacto.
Foi o intervalo.
Interlúdio
sem canto.
Antes —
porque agora
só se pode dizer antes —
havia pássaros.
E não se dava
atenção a eles.
Havia alacritas.
Não dita.
Ouvida.
O dia vinha pronto.
O céu respondia:
gorgeio,
chilreio,
redobre.
Agora,
que o telhado se recompõe,
o céu permanece
do canto
à espera.