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Opinião

Bateria do convencimento

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Clovis Lumertz
Por Clóvis Lumertz – Empresário
Foto Clóvis Lumertz

Chega um certo momento da vida, que ninguém nos avisa quando começa. Talvez seja logo depois do terceiro trecho de argumentação do dia, ou da quarta reunião que poderia ser resolvida de primeira, momento em que a gente simplesmente não tem mais saco de discutir. Nem com a cara metade, nem com o cliente, nem com o mundo. Não porque faltem argumentos, ou fundamentos, ou dados, ou gráficos, ou provas mais do que suficientes, ou aquela planilha que mostra tudo, e milhares de exemplos. Mas a coisa não anda. É só e simplesmente porque falta bateria. E não a do celular, dessas que a gente corre para carregar, mas a falta da bateria da vontade, esse componente invisível que, quando zera, não apita, não vibra, só silencia.

E aí acontece algo curioso, porque não é desistência, veja bem, não é rendição intelectual, não é falta de razão. É uma indisposição profunda ao debate, não ao diálogo. Diálogo ainda vai, mas ao esforço quase missionário de converter o outro ao que é melhor para ele. Esse trabalho voluntário, não remunerado, de salvar consciências alheias que insistem em atravessar a rua olhando para o lado errado. E a gente pensa, com uma serenidade quase filosófica, vai lá, aprende na prática, o tombo ensina melhor do que eu.

Com certas gentes, então, esse fenômeno atinge níveis científicos. Daria para fazer um estudo, porque você sabe exatamente onde a conversa vai dar, conhece o roteiro, as falas, os silêncios estratégicos. Percebe o momento em que qualquer argumento, mesmo brilhante, será usado contra você no tribunal doméstico da memória seletiva. E, mesmo com doses rinocerônticas de empatia, não dá mais. E aí você não larga a discussão, você simplesmente não entra nela. Não por medo, mas por economia energética. É que ninguém aguenta gastar três horas para provar algo que será esquecido amanhã. E não porque o outro não tenha sua própria razão, ou uma lógica diversa, nem por incapacidade, mas por ser limitado na sua própria visão.

Com muitos, o quadro é parecido. Você explica, desenha, faz analogia com futebol, com receita de cozinha, com infância traumática, e percebe que o problema nunca foi entendimento. É pura escolha. E aí bate aquela fadiga moral de quem já fez sua parte e decide, com um sorriso educado, deixar que a realidade faça a apresentação final, porque ela costuma ser mais convincente e não cobra honorários por dia de consultoria.

No momento certo, a gente percebe que amadurecer talvez seja isso, entender que nem toda verdade precisa ser defendida, nem toda ideia precisa ser empurrada, nem toda discussão merece a nossa última gota do suco de paciência. E que, às vezes, o maior sinal de inteligência não é ganhar o debate, mas fechar a aba, desligar o cérebro combativo e preservar o pouco saco que ainda resta para coisas realmente importantes, como o café, o silêncio e a paz possível.

Certamente, o errado sou eu.

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