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Opinião

Romper o ciclo da violência de gênero exige responsabilidade e ação

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

A violência contra a mulher não escolhe classe, raça ou credo, e nem mesmo a idade é salvo-conduto, atingindo bebês, crianças, adolescentes, adultas ou idosas. A violência ocorre de forma silenciosa e gradual, até se materializar em agressões físicas, por isso, devemos lembrar que um tapa, um empurrão ou um soco dificilmente são o começo do ciclo. Na verdade, representam apenas a ponta visível de um processo enraizado em nossa cultura, que começa com desqualificações, manipulação emocional, ameaças veladas, controle financeiro e imposições sexuais dentro de casa.

Os números ajudam a dimensionar o problema, mas não retratam a realidade completa, pois existe o que se chama de “cifra negra”, que são crimes que não chegam a ser denunciados. Em recente entrevista ao Jornal Bom Dia, a Dra. Joana Mattia apresentou dados da violência contra a mulher nos últimos dois anos, mostrando que, em 2025, o Rio Grande do Sul registrou mais de 47,5 mil casos de violência contra mulheres, entre ameaças, estupros, lesões corporais e feminicídios consumados ou tentados. Já em Erechim, nesse período, não houve feminicídios consumados, mas ocorreram dois feminicídios tentados, além de 480 ameaças em 2024 e 418 em 2025, 26 estupros e 262 lesões corporais em 2024, caindo para 25 estupros e 241 lesões corporais em 2025. Embora algumas estatísticas indiquem ligeira redução, o que é importante destacar, a diferença ainda é muito pequena. Precisamos continuar lutando para reduzir e, eventualmente, cessar esse tipo de violência.

A ausência de denúncia tem múltiplas razões, a julgar pelo fato de que reconhecer a violência sofrida é difícil, exigindo romper com expectativas sociais, dependência financeira ou emocional e enfrentar o risco real de retaliação. Dados nacionais mostram que 70% das vítimas de violência doméstica não denunciam, 40% das mulheres sequer reconhecem que sofreram violência, e apenas 38% da população conhece leis de proteção, como a Lei Maria da Penha.

Medidas protetivas e redes de apoio são fundamentais para acolher mulheres em situação de violência e, inclusive, atender homens para que não reincidam, diminuindo o ciclo de agressão. Porém, é preciso ter em mente que a violência contra a mulher não é algo privado, é uma doença social e, como tal, deve ser tratada em suas causas, e não apenas nos sintomas. E, por mais duro que seja admitir, nós homens somos os principais agentes causadores desse mal. Sem reflexão, educação e mudança de comportamento, o ciclo tende a se repetir por muitos anos e, até a aumentar, portanto, é urgente que homens aprendam a lidar com frustração e rejeição sem descontar sua raiva nas mulheres e que saibam aceitar um não. E que, paremos com urgência, de entender e de usar a violência, o tapa, a palmada como forma de educação e correção. Violência não tem nada a ver com educação, muito menos com respeito e só piora e acentua comportamentos violentos. Nesse processo, pais e mães têm papel crucial de ensinar suas filhas a se valorizar, impor limites, não aceitar desrespeito nem qualquer tipo de violência e de ensinar seus filhos a respeitar as mulheres, assumir responsabilidades e compreender as consequências de seus atos.

A mudança passa obrigatoriamente pela educação, pela empatia e pela coragem de enfrentar esse problema e as conversas desconfortáveis que ele gera. Sair da zona de conforto é um grande passo para cada um assumir o seu quinhão de responsabilidade e dar um basta à violência de gênero. Prestar atenção aos sinais, por menores que sejam, e ouvir e acolher uma mulher que está passando por isso, sem julgamentos, pode ser o primeiro passo para romper o ciclo.

Enquanto continuarmos a tratar a violência apenas como crime ou episódio isolado, ela continuará acontecendo bem debaixo do nosso nariz e até quando vamos varrer esse assunto para debaixo do tapete? E se fosse com a sua filha, esposa, mãe, irmã ou amiga próxima? Acolher as vítimas é necessário, porém não é o bastante, nós precisamos trabalhar para mudar essa cultura perpetuada por homens e mulheres e responsabilizar severamente os agressores. Sabemos que a mudança não acontece da noite para o dia, mas ela precisa começar em algum momento, então que seja logo. Nenhuma mulher merece viver com medo, seja onde for e, muito menos dentro da sua própria casa.

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