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Opinião

Memórias de viagem

Viagem Transiberiana de Trem: Rússia – Sibéria – Mongólia – China – (16)

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Marlei Klein
Por Marlei Carmen Reginatto Klein
Foto Marlei Carmen Reginatto Klein

O Lago Baikal chamado de “Pérola da Sibéria” domina a paisagem e a região, ao sul da Sibéria, onde deságuam cerca de 300 rios em seus 600 quilômetros de comprimento.  É o Lago mais antigo existente, calculado em 25 a 30 milhões de anos. O local é um dos mais admirados por mergulhadores de todo o mundo, pela transparência de suas águas. Além da beleza natural e das paisagens, os balneários existentes cativam os turistas com suas pequenas casas de madeira e janelas coloridas, em um típico cenário do interior da Rússia. Imperdível é sair desses locais sem experimentar o tradicional peixe “Omul” defumado.

Voltando à Circum Baikal Railway

O trem, no dia seguinte, voltou a entrar na antiga ferrovia de 126 quilômetros. Esta é sem saída e fora de uso. Mas, seu objetivo foi contornar o Lago. No quilômetro 110, o trem parou num belo local, um balneário para um piquenique. Não imaginávamos esta nova aventura. No trem parado, almoçamos. Desembarcamos e recebemos um roupão, homens e mulheres, rosa-pink e usar para quem quisesse dar um mergulho nas águas geladas do Lago, a 4 graus. A cor era para diferenciar os passageiros do trem, embora somente estes estivessem no local. O ar estava bem fresquinho e o roupão foi ótimo. Começaram a desembarcar: mesas, bancos, churrasqueiras, caixas e mais caixas. Forraram uma parte do chão, com lona, para servir de pista de dança.

Um piquenique à beira do Baikal

Árvores no entorno e flores amarelas no chão gramado. O local era lindo! Mesas postas, com toalhas brancas impecáveis. Os funcionários do trem desceram com saladas e complementos prontos. Nas grelhas, assaram deliciosos bifes, peixes e muitas espécies de salsichas. Foi em “self service”. Vários tipos de pães fresquinhos acompanhavam. Vinho, água e vodca, à vontade. Num grande “Samovar” era servido um delicioso chá, que podia ser acompanhado de biscoitos e bolos de mel. A festa foi completa com um conjunto de música russo: não faltaram a “balalaika” e o acordeão. Um autêntico baile russo.  

Muita animação

Os europeus estavam muito animados. Cantaram e dançaram muito, mas os brasileiros tomaram conta da festa. Uma festa internacional: brasileiros, russos, europeus e asiáticos em grande descontração! Foi anoitecendo, uma grande lua surgiu e tornou as águas prateadas. Belíssimo cenário! Luzes dos holofotes do trem acesas, a claridade da lua e a festa continuava. Aos poucos, a lua já no alto, começaram a juntar os equipamentos. Pediram para todos se recolherem, mas os brasileiros, na maior euforia, continuavam dançando. Finalmente, felizes, entraram cantando. Não durou muito o barulho. Todos cansados, caíram no sono. Por volta da meia-noite, o trem já estava a caminho. Que experiência! Foi uma grande surpresa o piquenique à beira do Lago Baikal! Hoje, enquanto escrevo, revendo as fotos, sinto imensa saudade e sou agradecida por ter vivido momentos tão singulares e maravilhosos nunca antes imaginados. Do outro lado do mundo, uma festa tão divertida!

Voltando à Transiberiana

Durante a noite, o trem tomou novamente o rumo da Transiberiana. Assim, nos despedimos do encantado Lago Baikal. A viagem seguia rumo à última cidade da linda Sibéria, esta, que eu não imaginava que assim existisse. Ela foi, durante parte da minha vida, o grande sonho em conhecê-la. Hoje, a Sibéria está concreta em minhas lindas lembranças! Agradeço a minha avó materna pelas histórias que contava, para uma criança que faziam-me viajar em pensamento. A Vida não é medida pelo número de vezes que respiramos, mas pelos lugares e momentos capazes de tirar nosso fôlego”.

Os primeiros quilômetros percorridos foram os restantes dos 126 quilômetros da antiga ferrovia. Já estava amanhecendo, quando o trem fez uma parada na Estação Myssovaya, sempre contornando o Lago Baikal. É o lugar mais bonito da Transiberiana atual. Assim, fomos nos despedindo do Lago rumo a Ulan Ude, última cidade a ser visitada na Sibéria. Na Estação Myssovaya, aproveitamos para descer e conhecer um pouco o local. É imperdível o contato com as pessoas e passageiros, que ficam na volta do trem. Mas se deve ter cuidado, pois os minutos são poucos e há o risco de perder a viagem.

República da Buryatia ou Buriácia

Ulan Ude é a capital da República autônoma da Buryatia, ainda em solo russo. A República da Buryatia é o centro do budismo siberiano. Com o desmantelamento das Repúblicas da União Soviética, após a Segunda Grande Guerra Mundial, quase todas tornaram-se países independentes. Entre estas está a atual Ucrânia. Vejam os fatos atuais: a Rússia não aceitou, de bom grado, essa libertação e começou a ameaçar alguns desses países e a querer reconquistá-los. É o que está acontecendo com a Ucrânia, país que está, há algum tempo, sob bombardeio buscando reintegrá-lo. Mas, esta tentativa está deixando a Rússia às margens dos grandes países mundiais. Mas a independência não aconteceu com a República da Buriácia. Esta continua sendo de solo russo.

Conclusão

A Rússia czarista e comunista guarda muitas culturas regionais. A região de Irkutsk, ao sul da Sibéria, onde está localizado o Lago Baikal, é um dos pontos da gigantesca porção asiática do país. Corresponde quase à totalidade do norte da Ásia. Surpreendente, nesta parte da viagem, é observar o capricho existente em seus jardins, todas as praças e os locais públicos estarem repletos de flores e muito bem cuidados. Era o final do outono. Surpreendente, também, são as ricas pinturas, mescladas às inúmeras velas acesas, aos cantos e às orações dos fiéis nas Igrejas Ortodoxas. Tudo isso cria um clima todo especial para a reflexão. Conhecer o grande Lago Baikal, sua maravilhosa natureza e as suas histórias, foram experiências e encantos além do esperado. Imagens marcantes e inolvidáveis na memória de quem conseguiu lá chegar.

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