O mês de Outubro é bastante significativo para as mulheres, mas também para as crianças. Atividades especiais na escola e presentes pela casa, mas a realidade é que o cuidado com a infância não pode ser apenas nesse mês, mas principalmente, não deve se resumir a presentes. Criança precisa mais do que brinquedos, precisa de presença e não aquela presença de corpo mergulhado em uma tela do celular, alheio a tudo o que ocorre à sua volta, mas de um adulto inteiro, atento e disponível.
Outro dia vi uma foto de um pai e um filho diante de um pôr-do-sol muito bonito, a criança sorrindo com os olhos e a boca, contemplando aquele momento, enquanto o pai, ao lado, de cara fechada e olhando o celular. O que me chamou atenção e me deixou indignado nesse contexto é que era um post de instagram desse pai, com uma legenda emotiva falando sobre como ser pai era tudo pra ele. Imagina se não fosse, o típico exemplo do “influenciador de coisa alguma”, triste, mas cada vez mais real.
Essas cenas estão cada vez mais comuns e é por isso que precisamos falar sobre, até porque o impacto das nossas ações na vida dos nossos filhos é profundo e vai perdurar ao longo de suas vidas. E é um fato, se queremos criar crianças saudáveis, precisamos ser adultos saudáveis.
Procuro ler e pesquisar muito sobre paternidade, filhos, educação e em meio a minhas pesquisas, apareceu o médico húngaro-canadense Gabor Maté, referência mundial quando o assunto é desenvolvimento infantil e trauma, dizendo que “O maior presente que um pai pode dar ao filho é a sua própria felicidade. Então cuide de sua saúde mental, porque seu filho é sensível o suficiente para estar baixando o seu estado emocional e fazendo dele o seu estado próprio. Então se você está estressado, infeliz, depressivo, ansioso, viciado, acredite em mim, seu filho vai absorver tudo isso e fazer disso algo sobre eles mesmos, que há algo errado com eles. Então cuide de si mesmo!”.
Entendo que nós, como pais, somos o espelho mais próximo que nossos filhos têm e a referência de sociedade, então não adianta ensinarmos algo que não aplicamos de fato. Eles não vão nos ouvir, vão nos imitar. Não adianta falar de “tempo de qualidade” se esse tempo é recheado de distrações, principalmente desse maldito aparelhinho chamado celular. E sim, me incluo nesse pacote. Também preciso me policiar, deixar mais meu celular de lado, principalmente quando estou com meu filho, estar mais presente, ser mais inteiro. Porque ele, mesmo pequeno, me ensina todos os dias a ser um ser humano melhor. Não pela obrigação, mas porque estar com ele me devolve ao que realmente importa e me leva exatamente onde quero e preciso estar.
Neste último domingo, por exemplo, eu gostaria de ter dormido mais. Além de não ser um ser matinal, acordar cedo para mim é um grande esforço físico e mental, eu estava mais cansado por conta de uma gripe mais forte e ter ficado estudando até mais tarde. Mas tinha alguém na beira da cama me chamando, avisando que já tinha sol e que, depois de dias de chuva, poderíamos ir ao parque juntos. Em um primeiro momento fiquei mal-humorado, mas esse equívoco se desfez logo ao primeiro sorriso e no fim, o que eu mais precisava ele sabia, não era dormir, era passar o dia com ele. E assim fizemos, ficamos o domingo grudados. Nada de extraordinário, nenhuma programação especial, apenas momentos juntos, cheios de afeto. Mesmo com pouquíssimos registros fotográficos, criamos memórias que, eu sei, vão morar num cantinho especial daquele pequeno HD e vão reverberar por anos a fio.
Não é e nem vai ser fácil. Vou errar, perder a paciência, recorrer ao celular e tantas outras coisas, mas me proponho a cada dia a continuar tentando ser melhor, pois entendo que ser pai ou mãe não é moldar um ser humano à nossa imagem, e sim oferecer um ambiente seguro para que ele cresça um ser independente.
Que o mês de outubro nos lembre da nossa responsabilidade com nossos filhos durante o ano inteiro, que o nosso tempo seja realmente com eles, pois muitas vezes, tudo o que realmente precisamos é enxergar o mundo através das lentes de uma criança. Que não sejamos adultos ausentes em corpos presentes e que possamos escolher cuidar de nós, para cuidar melhor dos pequenos. Que eles sejam vistos, respeitados e amados por serem quem são, não por quem esperam que sejam e que tenham suas necessidades reconhecidas e possam viver a infância em plenitude, com memórias que poderão visitar sempre que precisarem.