Às vezes, olho para o meu filho e fico pensando: “Por favor, não tenha pressa de crescer”. Uma hora ou outra, a vida adulta chega e, quando chega, não tem caminho de volta. Ela tem seus encantos e suas armadilhas e, quando percebemos, caímos feito patos, como se diz por aí. Uma armadilha disfarçada de liberdade, onde achamos que temos o controle de tudo. Doce ilusão.
Crescer parece urgente quando somos pequenos, queremos a todo custo ser donos do próprio nariz e, nesse impulso, vamos deixando para trás o que há de mais importante, a nossa infância. E a vida não é como nas histórias. Não é como João e Maria, que deixavam migalhas para achar o caminho de volta, pois nesse trajeto, sempre tem um maldito pombo que come todas elas. Também não é como João e o pé de feijão, onde o feijão mágico brota até o céu encontrando um gigante e sua galinha dos ovos de ouro. Mas ela pode ser, se procurarmos bem, podemos encontrar alguma migalha que nos guie ao nosso reencontro. A vida poder ser mágica, sim, mas, diferente das fábulas, não brota de repente e, se desfaz rapidinho se a gente não cuidar.
Chega um momento em que começamos a trocar o imaginar pelo palpável, os sonhos pelos compromissos e metas e, sem perceber, deixamos de brincar, de sonhar e de imaginar, fazendo com que algo se apague por dentro. A infância vai se apagando assim, aos poucos e, dessa forma, vamos deixando de viver. Não falo em abandonar responsabilidades, mas em não nos tornarmos reféns da vida adulta, apáticos à magia e ao bem da infância.
Talvez você já tenha lido Gabriel García Márquez dizendo que “não é verdade que as pessoas param de perseguir sonhos porque envelhecem. Elas envelhecem porque param de perseguir os sonhos”. Essa frase, foi adaptada do dramaturgo irlandês, George Bernard Shaw que fala do brincar especificamente, “nós não paramos de brincar porque envelhecemos;
envelhecemos porque paramos de brincar”. Porém, ambas falam do essencial à vida, o brincar e o sonhar e isso me faz pensar muito em como tratamos a infância, tanto das crianças que convivem conosco, quanto da criança que fomos, ou simplesmente, da criança que gostaríamos de ter sido.
Queremos que as crianças cresçam, se comportem, se encaixem como miniadultos para facilitar a nossa rotina e não nos obrigar a olhar para dentro.
E, sem perceber, repetimos o comportamento dos nossos pais e, também sufocamos a criança que um dia fomos e aquela que não tivemos chance de ser.
Brincar e sonhar são vitais, não só na infância. Brincar é coisa séria. Sonhar é coisa séria. Ser criança é coisa séria e, ao mesmo tempo, é leveza, é vida que pulsa. Brincar não é distração, é construção, é afeto, é a vida acontecendo em sua melhor versão. Brincar e sonhar mantêm viva a chama que nos conecta com o que há de mais verdadeiro em nós.
Criança leva isso a sério até mesmo quando está rindo, dançando, pulando na sala ou chorando porque a brincadeira acabou ou porque o joelho ralou. Criança ainda acredita em mágica. Que sorte a delas. E que sorte a nossa, se soubermos (re)aprender com elas. Deixe que conversem com brinquedos, com amigos imaginários, que criem histórias e façam a imaginação voar.
Que vejam bichos nas nuvens, que acreditem que um beijo cura, eu particularmente, me sinto um super-herói quando meu filho vem com um machucado, pede um beijo e sai correndo, “curado”. Mal sabe ele que sou eu quem sai curado. Jamais diga que o mundo não cabe num abraço, num beijo, num colo ou num afago.
Não interrompa. Não explique demais. Esteja junto. Permita-se lembrar daquilo que, um dia, também foi seu, o tempo sem pressa e sem hora marcada, sem depois. Crianças vivem inteiras no presente e, precisamos relembrar disso, pois esquecemos rápido. Tanto esquecemos, que não conseguimos mais entrar no mundo delas, não conseguimos mais brincar sem olhar o tempo, o celular, sem pedir silêncio. Estamos ali sem estar. Às vezes, isso não nos foi permitido lá atrás e, essa falta a gente carrega e repete.
Talvez, a maior lição que elas nos dão seja a coragem de sermos exatamente quem somos. As crianças nos ensinam sem querer, por isso mesmo, ensinam tanto. Se na sua cabeça uma criança só aprende, repense, pois basta olhar com atenção para perceber o quanto elas sabem ser e como “ser”, às vezes, é muito mais do que saber.
Quando foi que deixamos de acreditar na magia? Talvez tudo o que a gente precise, de vez em quando seja só isso, lembrar, brincar, sonhar, acreditar na magia e viver. Viver do jeito mais simples e verdadeiro possível como só uma criança sabe fazer. E, para todos os dias do ano, uma feliz vida a todas as crianças, especialmente àquelas que ainda vivem dentro de nós e àquelas que não deixam a magia acabar, nos lembrando no dia a dia o quanto é bom viver.