25°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Opinião

Onde encontrar a sabedoria?

teste
Gerson Segas Severo
Por Gerson Segas Severo
Foto Divulgação

Onde encontrar a sabedoria? Se tu vives uma vidinha pequeno-burguesa, como a maior parte das pessoas pertencentes às classes, digamos, confortáveis (em seu desconforto), e leva esse tipo de vida a sério, tu não tens muita chance de encontrá-la. E nem muita chance, aliás, de valorizá-la, ou mesmo de chegar pelas próprias pernas àquela pergunta, pensando bem. Ou seja, a tua situação é super grave – e este texto poderia terminar aqui.

Mesmo quem vive uma vida que envolve um trabalho ligado à educação, como o autor destas linhas, vê a sabedoria passar longe. Escolas e universidades lidam essencialmente– e o fazem de um certo modo – com o conhecimento, existente ou a ser construído, e isso não tem nada a ver com sabedoria, apesar de as pessoas costumarem misturar as coisas. E mesmo que tenhamos à nossa frente crianças e gente muito jovem que precisa, muitas vezes desesperadamente – e que estejam gritando isto -, de adultos em quem se espelharem e em quem encontrarem uma fonte de inspiração e segurança, nós insistimos que o mais importante é que aprendam a resolver equações de primeiro grau, ou as capitanias hereditárias, ou a fotossíntese. Sei lá, vai ver tem de ser isso mesmo, assim mesmo...

Tal tema, tais temas, me assombram meio que ciclicamente, e, por estas semanas, em razão de uma cadeira que o Paulo Bittencourt e eu criamos na universidade, “Filosofias e leituras descoloniais: África, Ameríndia e Extremo Oriente”, tenho me debruçado sobre elementos provenientes de matrizes culturais não-ocidentais – os quais, não raro, destacam sobretudo e sobremaneira aspectos ligados ao que entendemos como sendo “sabedoria”. Eu, que costumo ler e estudar em um esquema “luz e sombra”, como eu chamo (dar uma pegada em Jung se estou muito em Freud, por exemplo, ou vice-versa), me voltei também para o próprio Ocidente cuja hegemonia (muito mais que “hegemonia”) queremos justamente problematizar, quebrar.

 Nisso, voltei ao Harold Bloom e a seu “Onde encontrar a sabedoria?” No sumário, só Ocidente, ou o que mais tarde veio a ser chamado “Ocidente”: Jó, Eclesiastes e Tomé; Platão e Homero; Santo Agostinho; Cervantes e Shakespeare; Montaigne e (Francis) Bacon; Samuel Johnson e Goethe; Emerson e Nietzsche; Freud e Proust. Tudo uma maravilha, é claro, mas, no contexto a que aludi, a gente faz a cara daquele emoji que fica revirando os olhos. É um tipo de cegueira, né? De qualquer modo, mexendo em prateleiras, meu olho e dedo indicador direito pararam em um volume de uma coleção de literatura judaica que eu tenho, dirigida por J. Guinsburg, chamado “Quatro mil anos de poesia”. Dando uma folheada, me deparei com isto – e não consigo tirar isto da cabeça há dias, quero partilhar com vocês. Parece coisa do Neil Gaiman, mas é do Livro de Jó.

“Mas onde se achará a sabedoria?/ E onde está o lugar do entendimento?/ O homem não conhece o preço dela,/ Nem se acha ela na terra dos viventes./ O abismo diz: Ela não está comigo./ Ela não se poderá obter por ouro fino,/ Nem se passará prata em câmbio dela./ O seu valor não poderá ser determinado pelo ouro de Ofir./ Nem pelo precioso ônix, nem pela safira./ Não se lhe poderá igualar o ouro ou o vidro,/ Nem se darão em troca dela vasos de ouro fino./ Não se fará menção de coral nem de cristal:/ Na verdade a sabedoria vale mais que as pérolas./ Nem se lhe igualará o topázio da Etiópia,/ Nem será o seu valor determinado pelo ouro puro./ Donde, pois, vem a sabedoria?/ Onde está o lugar do entendimento,/ Visto que está escondida aos olhos de todos os viventes/ E oculta às aves do céu?/ A Perdição e a Morte dizem:/ Com os nossos ouvidos ouvimos o rumor dela.”

Publicidade

Blog dos Colunistas