Inspirado no artigo do Dr. Alcides Mandelli Stumpf, sobre os 700 anos da obra Divina Comédia, de Dante Alighieri, parti para a prazerosa leitura dessa obra. Por sorte, encontrei um exemplar de preguiçoso e que me facilitou a vida, na tradução e adaptação de Cecília Casas. Já foi o suficiente para me apaixonar. Mas o que tem a ver a obra de Dante com a política brasileira? Isso é o que veremos.
Naquele tempo
Dante nasceu na Florença, berço da criatividade florentina. Taurino e burguês, órfão de mãe aos seis e de pai aos doze, aos 28 anos filiou-se no partido dos Guelfos que contra o partido dos Gibelinos, travou conflitos que assolaram com a Itália durante décadas. Enquanto os Guelfos defendiam o poder papal na política, os Gibelinos se diziam independentes das Igreja. Eram tempos de dualismo político e não raro os conflitos envolviam lutas armadas. Mais tarde, o Partido dos Guelfos também se cindiu entre os chamados Brancos e Negros, estes últimos, tidos como adeptos da violência. Formava-se assim, outro dualismo. Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência.
O inferno
A obra apresenta a peregrinação de Dante pelo inferno, passando pelo purgatório, até chegar ao paraíso, num caminho que envolve o pecado, a fé e a razão, o que ele chama de “o caminho do amor”. As descrições são minuciosas e fazem a obra parecer atual. No inferno, Dante encontra o amigo Ciacco, que lá se encontrava pelo pecado da gula. Sem descuidar da política, Dante conversa com o amigo sobre a eterna disputa entre brancos e negros e o questiona: - Vive nela (Florença) alguém que seja justo? Qual a razão de haver tanta discórdia? O amigo Ciacco responde, dizendo que sim, que são poucos os justos, mas que correrá muito sangue e que os negros serão vitoriosos, enquanto os brancos conhecerão o exílio. Ciacco conclui com sabedoria, dizendo que as três centelhas que acenderam o fogo da discórdia no coração dos homens são: a inveja, o orgulho e a avareza.
O paraíso
Depois de passar pelo purgatório, parada obrigatória para ingressar no paraíso, Dante encontra um antepassado seu, Cacciaguida. Este, conta que cresceu numa Florença encerrada em seus muros, onde ressoavam os sinos das velhas igrejas. A cidade vivia em paz, sem luxo, sem ostentação, sóbria e pudica. Então profetiza, dizendo que a corte papal, que faz comércio com Cristo, deseja o exílio de Dante, que saberá como é amarga a vida no desterro, como é duro descer os degraus dos poderosos, comer pão amassado com sal estrangeiro. Diz que Dante se sentirá aflito na companhia de outros exilados. São pessoas ingratas, más, e unidas conta ele, mas que receberão o castigo merecido, enquanto Dante alcançará a Glória. Ainda no paraíso, Dante faz um exame sobre a fé, citando São Paulo: “a fé é a substância das coisas esperadas, o argumento das coisas não visíveis. Porque a verdade das coisas sobrenaturais que o olho humano não vê, mas nas quais acredita, não se deduz senão através da fé”.
Porque não progredimos
Traçando então um paralelo entre a realidade atual com a de Dante, há 700 anos, percebemos que em termos de política, no comparativo da obra, estamos muito mais perto do inferno do que do paraíso. Hoje, há partidos que buscam o poder a qualquer preço. Não raro há os que questionam a soberania das urnas, os que se valem da justiça para reverter resultados democráticos, como se o voto não fosse universal e secreto. Líderes de aparência serena e de violência oculta que, em nome de seus interesses, ameaçam e nutrem separações. Atuam como facções e não como partidos. Em vez de criar alianças pelo bem, fazem pactos escusos e criam muros. Defendem-se com a maldade e se esquecem da razão. Políticos que vivem no pecado da inveja, do orgulho e da avareza. Isso explica a nossa estagnação, a razão pela qual não progredimos: por que não há amor, só há pecado. Enquanto não houver amor na política, não haverá progresso! Com calma, talvez se chegue ao purgatório. Até lá, aprendamos a viver no inferno de Dante.