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Opinião

Não seja cretino!

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Marcos Vinícius Simon Leite
Por Marcos Vinícius Simon Leite
Foto Rodrigo Finardi

Esses dias eu li uma reportagem sobre o livro A fábrica de cretinos digitais, do neurocientista francês Michel Desmurget, diretor do Instituto Nacional de Saúde da França. A revista Veja (edição de 06/10/2021) também dedicou seu editorial ao assunto. Em resumo, antes de abordar o tema, o cientista concluiu que a humanidade está perdendo inteligência em razão da tecnologia. O que antes nos parecia lógico, agora está sendo cientificamente comprovado.

O que é um cretino?

Foi então que fui atrás da etimologia da palavra cretino. O termo advém de um dialeto franco-provençal dos Alpes Suíços. Nada mal ser um cretino dos alpes. Mas por incrível que pareça, a palavra provém do latim christianu, que significa cristão em nossa língua mãe. Dizem que naquela localidade muitos habitantes eram acometidos de cretinismo, como era chamado o bócio, ou hipotireoidismo. Logo, os acometidos dessa doença eram chamados de coitadinhos ou pobres cristãos, em razão das consequências dessa doença, que pode causar imbecilidade. Tudo isso porque o iodo, elemento fundamental para não desenvolver essa doença, está presente apenas na água do mar e consequentemente nos peixes. Descobri então que eu poderia ter me tornado um cretino, por conta de um câncer na tireoide, operado com sucesso em 2017, coisa do passado. Os “haters” dirão que sou.

Cretinos digitais

O que chamou atenção no estudo francês, é que as gerações que estão surgindo têm apresentado níveis de inteligência menores de que seus pais, indicando um empobrecimento intelectual da humanidade. Segundo o cientista, em razão do que ele chama de orgia digital, em pouco tempo teremos dois grupos de crianças: os alfas e os gamas. Os primeiros, serão aqueles em que os pais conseguirão proteger seus filhos da exposição maléfica da tecnologia, enquanto os gamas serão os demais, os filhos das telas. Essa proteção, resultará também na forma como serão ensinados. Enquanto alfas terão aulas com professores reais, em escolas caras e elitizadas, os gamas terão educação em massa, robotizados, com suporte humano limitado. Vale lembrar que a OMS recomenda no máximo uma hora de exposição às telas por dia, para crianças de três a cinco anos. Me digam, quem consegue isso?

A profecia de 1949: 1984

Michel também traz à tona o livro de George Orwell – 1984, confirmando a profecia de que as crianças gama terão uma linguagem universal, a “novilíngua” citada por Orwell. Serão criaturas que, na visão do sociólogo Neil Postman, irão se divertir até a morte. Mentes nada criativas, vazias de ideias, sem conteúdo, cada vez mais vulneráveis ao controle por meio da tecnologia. Mas o que nos deixa perplexos diante disso, é ver que não se tratam de fenômenos futuristas. Não! São fatos que já percebemos no dia a dia. O sucesso do aplicativo Tic Toc é um deles, pois os jovens, sem capacidade de concentração, devoram essas novidades, cujos vídeos duram cerca de 15 segundos. Passam horas nesse calabouço, alegando estarem se divertindo. Por quanto tempo? Até a morte? Outro fator que podemos evidenciar é o aumento de casos do TDAH – Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, que pode ser hereditário, logo, será também transmitido às próximas gerações.

Controle social e política

O estudo indica também que a polaridade política que vivenciamos hoje também está atrelada a este fenômeno. O desconhecimento da história, a incapacidade de discernimento e análise crítica, permite que as massas sejam manipuladas, por A ou por B e que as chamadas “terceiras vias” acabam não sendo atrativas, porque exigem pensamento. Pensar para quê? Se continuar assim, a humanidade caminha para o caos, em direção a um retrocesso perigoso, em progressão geométrica de razão negativa. Como dizia, suavemente, o saudoso Millôr Fernandes: “O xadrez é um jogo chinês que aumenta a capacidade de jogar xadrez”.

O jornal de hoje embrulha o peixe amanhã

É por essas e outras que eu insisto no bom e velho jornal. Aqui, eu descubro que quase virei cretino. Demoro horas escrevendo, relendo, revisando, pesquisando, enquanto que nas redes sociais as pessoas simplesmente vomitam caracteres, propagam de tudo, dão sequência a tudo o que presta e o que não presta. Por qual razão? Porque o senso crítico é coisa do passado, como o jornal de hoje, que amanhã vai embrulhar o peixe. Repare, que em breve o nosso verdadeiro indicador de felicidade será o peixe e o jornal. O dia em que não comermos mais peixes (de água salgada) teremos hipotireoidismo e, quando deixarmos de ler jornais, seremos verdadeiramente cretinos digitais.

 

 

 

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