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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas: Ibrahim Sued e os Cães Raivosos

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Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

Filho de imigrantes árabes, Ibrahim Sued revolucionou o modo de se fazer Coluna Social no Brasil.

Nasceu de família muito pobre, no Bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. Viveu em diversos lugares da antiga capital federal, e morou por muitos anos em quartos de pensão em Copacabana, Zona Sul da cidade, que seria o palco de sua fama e glória.

Fez de tudo um pouco na vida. Estudou até o terceiro ano do antigo ginasial, foi jornaleiro, entregador de sapataria, office-boy, vendedor ambulante, e trabalhou de garçom.

Começou no jornalismo como fotógrafo free-lancer de matérias policiais, mais tarde ganhou uma coluna social na revista Manchete. Dizia-se um garoto pobre da Praça Onze e, sem dúvidas, foi um homem de sorte.

Em 1946, uma foto o tirou do anonimato. Sentiu pela primeira vez o gosto do sucesso ao registrar um flagrante histórico: Ibrahim, até então um desconhecido fotógrafo, flagrou, na saída da Assembleia Legislativa, o político baiano Otávio Mangabeira cumprimentando o general americano Dwight Eisenhower, ex-comandante das tropas aliadas na Europa na Segunda Guerra Mundial. Na realidade Mangabeira abaixou a cabeça ao apertar a mão de Eisenhower. Porém, o ângulo da objetiva do foca oportunista dava a impressão de que o brasileiro iria beijar a mão do americano. O registro maroto gerou uma onda de protestos nacionalistas exacerbados e consequente crise no Congresso.

Assim, aos 22 anos, passou a ser notado e, com muita lábia e simpatia, além de boa pinta, passou a frequentar as altas rodas sociais e políticas da nação. Mesmo nascendo sem sobrenome ou fortuna, acabou circulando ao lado de celebridades como o presidente Getúlio Vargas, a rainha Elizabeth e o presidente americano John Kennedy.

Cometia erros crassos de português pela parca educação e cultura, porém, por competência e extrema habilidade pessoal, se tornou um dos jornalistas mais importantes da sua geração. Irônico, agudo e, às vezes, até debochado, caiu no gosto do povo e da elite: trazia para o andar de baixo fofocas, arremedos e informações da vida privada da “high society”.

A fama chegou de vez em 1954, quando entrou no “O Globo”. Em sua coluna diária apresentou personagens, criou modismos e inventou expressões impensáveis, divertidas, prontamente assimiladas pelas pessoas “in” ou “out” da época. Lançou o modelão terno claro e muitas correntes de ouro. Criou um estilo único de fazer Coluna Social que marcaria definitivamente o gênero no Brasil. O exemplo maior era a esperadíssima “Lista das Dez Mais”, que abalava as estruturas mais sólidas do país. Entre os neologismos estão termos que perduram ainda hoje: champanhota, niver e su, entre outras expressões anexadas de forma permanente ao vocabulário brasileiro.

No Copacabana Palace promovia almoços na pérgula e bailes de carnaval lendários. Também organizava jantares no Le Bec Fin, boate Sacha, com seus chapas do Clube dos Cafajestes. Foi no suntuoso hotel que, em 1983, celebrou 30 anos de colunismo, com mais de três mil convidados. Entre eles estavam da ex-miss Martha Rocha ao ex-presidente Médici. Ibrahim Sued é o nome dado a uma praça em frente ao majestoso Hotel, na Avenida Atlântica. Endereço, certamente, não escolhido ao acaso.

Foi para a televisão no jornal do fim de noite. Enrolava a língua, tropeçava nas letras e acima de tudo, tinha muito estilo. Costumava fechar suas participações na TV com expressões que tornou célebres, como: “ademã, que eu vou em frente" ou “de leve, que eu chego lá”. “Dei certo porque trabalhei", dizia, em 1988, ao declarar possuir mais de US$ 1,5 milhão em obras de arte. Sabia e relatava todas as muvucas e agitos sociais, na época em que o Rio de Janeiro fervia e acontecia.

Detinha informações privilegiadas por cultivar amizades com políticos, banqueiros e grandes empresários e demais personagens do “jet set” internacional. Tais feitos e relações colaboraram para sua imensa popularidade e riqueza pessoal.

Foi amigo fiel de seus fiéis amigos. Até o final, manteve o glamour para a sua não tão fiel torcida. Escreveu mais de 15 mil colunas ao longo de quase cinco décadas. Em 1993, trocou a coluna diária por uma aparição dominical, sem a mesma força de antes. Tal mudança o entristeceu profundamente e abalou seu prestígio, o que colaborou para sua morte dois anos depois, em 1995, aos setenta e um anos. A Globo, mais uma vez, mudava de rumo ao sabor do tradicional e sórdido oportunismo que caracteriza sua história.

Mas, acima de tudo, no máximo de sua vã filosofia, conseguiu provar que cavalo não desce escada, e deixou algumas dicas que prazerosamente repasso aos queridos leitores e principalmente, queridas leitoras:

“Se você deseja receber, não importa que seja rica ou pobre. Com um bom feijão, arroz, gostosa carne no fogão e uma salada temperada, você pode reunir seus amigos e receber. Não é necessário o caviar.

Lembre-se de que ninguém vai à sua casa para conhecer seus parentes. Portanto, não se preocupe em encher a casa de parentes.

Não insista, como: 'Come mais um pouquinho'... Não seja insistente. Se o cara parou de comer ou só comeu salada é porque já matou a fome ou está de regime. Não encha o saco do seu convidado...

Se você está na fossa, siga estes conselhos: não tente compreender a vida. Aprenda a vivê-la. Não desperdice um minuto sequer pensando nas pessoas que não lhe agradam. Conte as bênçãos recebidas e não as contrariedades. Lembre-se de que podia ser pior. Aprenda a sorrir. Tenha sempre fé no amanhã. Se você tem uma maçã, não queira fazer com ela uma limonada. Tire sempre partido das suas derrotas. Nunca se julgue um infeliz. Ao contrário, pense sempre que você é feliz. A vida é o que os nossos pensamentos fazem.

Por fim, nunca chore pelo leite derramado se você quiser ser feliz.”

O Turco, apelido que o acompanhou a vida toda, nunca foi uma unanimidade. Pelo contrário, colecionava inimigos em ambos os lados do front. Não era um santo, tampouco um demônio.

Muito champagne, muito caviar, muita festa, foram signos que marcaram um período nem tão dourado, em que o colunista reafirmou suas contradições e paradoxos. Para muitos não deixou saudades; por alguns foi considerado um crápula ou escroque. Mas não há como negar que veio ao mundo a trabalho, com opiniões próprias e sentimentos claros. Foi perceptível, não perfeito.

Não serviu de títere por detrás das câmeras, como hoje se prestam, vergonhosamente, alguns de seus colegas de ofício. Certamente causou mágoas e rancores, porém jamais foi motivo de nojo, repugnância ou desprezo.

“Os cães ladram e a caravana passa” era o seu bordão favorito. O sábio ditado árabe significa que se deve ignorar as provocações que tentam impedir o progresso e críticas que não sejam construtivas.

Passado tanto tempo, seus colegas de emissora de TV ladram raivosamente, enquanto as pessoas de bem seguem em frente superando obstáculos reais e imaginários criados por eles e demais matilhas.

Quem fica parado é poste. E “ademã”, que vou em frente. De leve chegamos lá.

 

PS. Esta crônica e dedicada à brilhante colunista Zeni Bearzi, correta, competente e assertiva.

 

Médico, Membro da Academia Erechinense de Letras e Vice-presidente da A.A. da Biblioteca Pública do RS

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