Não sou fumante, mas reconheço o papel do cigarro na sociedade. Fumar pode ser um vício desgraçado, especialmente para os que não fumam e sofrem as conseqüências. Mesmo assim, o fumo está presente há séculos na cultura ocidental e por isso precisa ser observado com respeito. Quase que na mesma baila, temos a cerveja, a companheira inseparável de muitos momentos de nossas vidas.
Faz bem ou faz mal?
Há quem diga que só bebe quando fuma, assim como há quem diga que só fuma quando bebe. O cigarro faz mal. E a cerveja, também? Eu diria que não. Nem um nem outro fazem mal. O que faz mal são as atitudes e a forma como você consome tais produtos. Tudo na vida depende do seu comportamento. Ninguém é obrigado a fumar e beber e nas embalagens sempre diz que causa câncer ou que deve ser consumido com mo-de-ra-ção.
Viva as artesanais!
Antes do advento das cervejas artesanais, a bebida predileta dos tchecos, alemães e americanos, no Brasil, era de muito má qualidade. E isso faz lembrar aqueles estudos que mostravam as centenas de produtos tóxicos presentes no cigarro. Será que estavam presentes na cerveja também? O brasileiro bebia uma coisa pensando que era outra e só a dor de cabeça do outro dia denunciava a intoxicação. Mas isso mudou. Graças aos cervejeiros artesanais.
O poder da propaganda
Hoje se faz propaganda do básico. Cerveja puro malte! E as outras? Eram puro o quê? Água, malte, lúpulo e levedura. Só isso basta para se fazer uma boa cerveja, que não dá dor de barriga e que não dá dor de cabeça. E um bom cigarro? Afinal, existe um bom cigarro? Será que tem cigarro artesanal? Cuidado com os conceitos. O bom nem sempre faz bem.
Propriedades medicinais
Diferente do cigarro, a cerveja pode ter propriedades medicinais, assim como o vinho. Mas isso é outra falácia. De certo é que os elementos químicos presentes na bebida, como o zinco que alimenta as leveduras antes da fermentação, fazem bem às reações químicas do ser humano. Mas uma cápsula de zinco, tomada com um copo d’água faz o mesmo efeito, tecnicamente, é claro. Ninguém diz: depois do trabalho vou tomar meu copo d’água com cápsula de zinco. Uma boa cerveja tem o seu valor.
Legislação e liberdade
Hoje no Brasil, temos a mais moderna legislação sobre o fumo e isso reflete no comportamento das pessoas. Os europeus, por exemplo, fumam hoje como fumavam os brasileiros 30 anos atrás. Isso é um atraso, mas eles são livres. Por sorte, os brasileiros hoje, bebem cervejas de qualidade européia. Deixamos esse atraso. Mas enquanto tivermos propaganda de bebidas, continuaremos vivenciando novos consumidores, em busca dos predicados que o cigarro vendia no milênio passado. O que se percebe, diante da propaganda, é que os padrões de consumo migram. Quem antes fumava propaganda, hoje bebe propaganda.
Minha história
Minha mãe era fumante. Eu tinha oito anos. Na manhã de 20 de janeiro de 1983, logo cedo, ela veio até os pés da cama e me disse: Meu filho, bom dia! O Garrincha morreu! Perguntei a ela: mas morreu de quê? Ela me disse, do vício. Depois de um silêncio pensativo, eu perguntei: e porque você fuma? E depois de um longo silêncio, minha mãe nunca mais fumou. Se eu tivesse perguntado da bebida, não teria me tornado cervejeiro.
Comportamento
Tudo é comportamento. Limitar a propaganda é benéfico, quando se tem um povo sem educação de qualidade. Mas a falta de liberdade também tem seu preço. Há de chegar um dia em que seremos mais bem educados e formados. Um dia em que os comportamentos individuais terão predominância aos comportamentos coletivos. Nesse dia, certamente saberemos viver bem o que é ter liberdade. Mas se você ainda está em dúvida se cigarro e cerveja fazem bem ou mal, ofereça a uma criança. Elas também assistem propagandas e têm nos adultos, o exemplo como educação.