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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas e Atual Sociedade Líquida

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Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

O Sapateiro de Bruxelas, em sua live semanal, em tempos de final da pandemia, traz à baila e à telinha ideias e conceitos muito peculiares e um tanto enviesados que envolvem Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo, falecido em 2017, ante momento histórico que vivemos.

Explica à turma do cafezinho que foi o ilustre polonês quem fundamentou a ideia de modernidade ou sociedade “líquida”. Conceito que serviu de base ao chamado movimento pós-moderno. Segundo o velho artesão, para o sábio eslavo, uma das principais características dos novos tempos está justamente na crise do Estado – entidade governamental que atualmente, em muitas partes do globo, encontra-se submissa a outras entidades ainda maiores, supranacionais, além de grandes conglomerados econômicos planetários. O calejado palestrante cita exemplos facilmente perceptíveis como a Nova Ordem Mundial (NOM) e o mais que suspeito namoro entre China e Rússia.

Com o enfraquecimento do Estado Nacional e consequente enfraquecimento dos sentimentos nacionalistas (aqui o artesão desculpa-se pela redundância), esvanecem as possibilidades de se resolver de forma local e equânime os conflitos e anseios inerentes a cada povo e sua identidade própria.

Ou de forma objetiva e em outras palavras – de acordo com o entendimento do mestre - as aspirações coletivas geradas pelo consumismo desregrado predominante, passou a ser nova face do antigo pensamento comunista que visa a formação de uma massa social homogeneizada, sem opinião, que escorrerá pelos ralos da vida, com rala consistência e péssimo odor, além de mortalmente poluente.

Simples decorrências do mecanismo de causa e efeito, ou apenas seguindo o caminho dos vasos comunicantes, surgem enxurradas ideológicas abobalhadas e crises políticas/sociais que inundam e emporcalham as nações dominadas e transformadas em meros satélites, depósitos de armas, misérias e bugigangas.

Segundo o bruxelense, os valores culturais e individuais, que até então interpretavam e interagiam com as aspirações e necessidades populares típicas de cada comunidade, grupo étnico, vilarejo ou bairro, a seguir assim, deixarão de existir.

Ato contínuo, ocorrerá a dissolução da convivência fraterna local e emergirá o individualismo boçal no lugar da solidariedade e da amizade. O outro, aquele ousar pensar e consumir de forma diferente da massa pastosa e pré-pronta, passará a ser um alienígena contra quem se deverá lutar e, se possível, abater e eliminar. Homo homini lúpus – divaga o belga.

Esta situação, eminentemente prática e real, por ora, abala as origens das relações humanas e familiares e se infiltra nos lares e na consciência coletiva por meio do execrável “politicamente correto”. E, na falta de referências sólidas - como religiosidade, respeito aos idosos e demais conceitos de civilidade e amor ao próximo - provoca a dissolução da sociedade, como muito bem flagrou o filósofo em pauta.

Lembra o artífice que Bauman igualmente usou a palavra “zeitgeist” - um termo alemão cuja tradução significa espírito da época ou espírito do tempo - para definir o conjunto que forma o clima intelectual e cultural de um determinado período.

Diz ainda o bruxelense que a partir desses conceitos não podemos ignorar a densa e tensa nuvem que envolve a vida nacional e afeta o nosso modo de pensar e agir.

Daí, que hoje, não por acaso, sem parâmetros éticos e morais estáveis, alguns tentam abalar a certeza do que é certo ou errado, torto ou direito.

No entanto, determinados preceitos ou tipos muito particulares de justiça - orquestrados pela grande mídia comprometida até o pescoço em súcias escusas -, passam a ser percebidos pelo público como afrontas aos bons costumes e a ordem natural das coisas. Por isso – tão somente por isso – recentemente houve vigoroso rechaço público a estas distorções pela imensa maioria das pessoas de boa índole.

Certamente, a mesma maioria que não aceita se tornar refém de uma nefasta ordem que conspira contra os valores espirituais e cívicos da nossa boa gente.

Empolgado o mestre brada à câmara;

- Basta aos tempos que os maus, traidores e falsários se faziam ouvir mansamente e conduziam as ovelhas para o precipício; basta àqueles que onipotentes soltam criminosos e acusam juízes; chega de ver a polícia criminalizada enquanto bandidos graúdos são endeusados; deu para época em que os empreendedores e realmente inovadores eram preteridos por incompetentes comparsas movidos pela ganância animal!

Passados alguns segundos, depois de um copo de água, mais calmo e devidamente recomposto, ao encaminhar o final de sua palestra eletrônica, o Sapateiro de Bruxelas reforça sua crença no futuro pátrio, que deverá ser próspero, limpo e grandioso - segundo suas premonições.

Pois, para o artesão, o espírito da época ou espírito do tempo muda e evolui positivamente, embora a essência humana em sua estupidez e estultice se preserve impávida e colossal, ora potencializada à enésima potência, pelos idiotas compulsivos da internet e suas redes sociais – aliás, como muito bem alertou outro grande filósofo contemporâneo, o italiano Umberto Eco, falecido em 2016.

Médico,

Membro da Academia Erechinense de Letras,

Vice-presidente da A. A. da Biblioteca Pública do RS.

 

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