Produtores de vinho do Alto Uruguai estimam boa safra de uva mas visualizam cenário difícil em razão da alta taxa de impostos
Há quem diga que o inverno combina perfeitamente com a taça de um bom vinho. E eles se apresentam de diferentes tipos e marcas, cada um com uma essência específica, a qual segue padrões de qualidade que vão além do paladar aguçado de muitos apreciadores.
Sendo assim, vale destacar o potencial da região do Alto Uruguai que se caracteriza principalmente pela produção de uvas para transformação em vinho ou sucos, em torno de 95%. Segundo o atual gerente regional da Emater, Nilton Cipriano Dutra de Souza, a uva se adaptou bem ao clima e é produzida em toda a região. Não tem uma característica de muita exigência, mas se destaca em municípios como Erechim, Barão de Cotegipe, São Valentim, Itatiba do Sul.
A região conta atualmente com cerca de 600 hectares de parreirais com uva destinada para a produção de vinho, gerando em torno de 13 mil toneladas de uva.
Em paralelo ao cenário positivo da produção de uva, os produtores convivem com os desafios para produção e comercialização do vinho que se referem principalmente às altos impostos e taxas de juros consideradas abusivas.
Prova disso é Olinto Antônio Batistela, que acompanha a produção de vinhos da família desde a infância e hoje, aos 73 anos de idade, afirma que as dificuldades quanto aos impostos, desmotivam a continuidade dos trabalhos. "Torna a atividade quase inviável. Compramos a uva de outras localidades, tais como Benjamin Constant do Sul e sentimos que há bastante procura, porém, pode até faltar vinho", comenta, citando ainda, os prejuízos registrados na última safra em razão das variações climáticas.
Do mesmo modo, Ademar Luís Guarnieri reforça que ele e os sócios também consideram essa fase desafiadora, pois o registro de vinhos é nacional. "É complicado, pois nós, pequenos produtores, pagamos as mesmas taxas que os grandes empresários do setor. Isso dificulta o processo e seguimos trabalhando porque gostamos do que fizemos", enfatizou.
Qualidade e investimento
O gerente da Emater reforça que para produzir um vinho de qualidade, seguindo os padrões exigidos, é necessário cumprir alguns requisitos e a Emater tem repassado em encontros, reuniões e cursos.
Quando o assunto é o mercado, Nilton enfatiza que além da competição interna, os produtores também enfrentam a competição externa. "Há vinhos do Chile, Argentina que chegam ao mercado e muitas vezes pela marca, muitas pessoas acabam optando por eles. Contudo, há um mercado promissor na região", pondera.
O fator econômico é outro aspecto importante a ser considerado. "Hoje em dia poucas pessoas têm condições de comprar um vinho mais caro", acrescenta.
A vitivinicultura possibilita atuar com vários sistemas, desde o método tradicional até o modo coberto. Segundo Nilton, o custo de um parreiral todo coberto se torna mais caro, em torno de R$ 50 mil para produzir um hectare. Se for pelo método mais simples, o investimento cai pela metade do valor.
O diferencial do relevo de Itatiba do Sul
O enólogo e responsável técnico, Ronaldo Zorzi, salienta que os vinhedos da Vinícola Soliman encontram-se a uma altitude superior a 800 metros e contam com boa inclinação e incidência solar adequada. O local também possui um terroir (clima + solo) com características peculiares pela altitude e pela proximidade com o Rio Uruguai, o que proporciona uma variação de temperatura muito boa entre dia e noite; dias quentes e noites frias. Essa variação de temperatura proporciona uvas com muita cor de tons violáceos, um diferencial.
Processo de produção dos vinhos
O sócio proprietário Rogério Soliman e a diretora administrativa Grasiela Faccio explicam que todo o manejo tem acompanhamento técnico (enológico e agronômico) e mão de obra permanente. Desde a poda, raleio de folhas e cachos, até a colheita a manutenção dos vinhedos é feita de maneira criteriosa.
Entre os principais desafios enfrentados, eles citam a logística, tributação e concorrência com os vinhos importados. Já sobre o que pode melhorar, estão os tributos. "Esperamos uma tributação mais coerente, o aumento do consumo de vinhos finos e um incentivo maior pelos governantes", acrescentam.
O consumo nacional per capita é de apenas dois litros por ano, enquanto na França passa de 45 litros. "Está havendo um aumento de consumo de vinho/espumante/suco no Brasil, porém ainda esbaramos na quantidade de vinhos importados que chegam ao país, muitos, ilegalmente", destacam.
Uma tradição de família
O empresário Marino Slongo atua no ramo da vitivinicultura há muitos anos. Já à frente dos negócios ele está desde 2001. Ele segue a tradição da família que há mais de 100 anos investe na produção de vinho. Tudo começou com o avô Tomazo que foi uma das primeiras pessoas a produzir vinho no Alto Uruguai.
A cantina Slongo, localizada nas proximidades da BR 480, em Erechim, dispõe de um ambiente organizado e a estrutura mantém as características das obras construídas pelos antepassados.
Ao todo são 10 hectares de parreirais, cujas uvas são destinadas à produção de vinhos e sucos. "Em nossa região são produzidos em torno de 18 mil quilos por hectare. Nossa vantagem não é a quantidade de uvas, mas a qualidade", destaca.
Desafios
Contudo, Marino comenta que muitos são os desafios para seguir na atividade, pois os impostos são muito altos. "Essa questão está ameaçando o fechamento de várias cantinas em todo o Estado", disse.
Ao mesmo tempo, ele reforça que os vinhos produzidos na região são muito bem aceitos. "Há demanda e o produto pode ser ainda melhor quando o processo foi acompanhado desde o cultivo das uvas até a fase final, pois há mais garantia de procedência", recomenda.
Em torno de 10 pessoas participam do trabalho na propriedade, sendo que esse número pode chegar a 20 no período da colheita que inicia em janeiro e segue até o mês de março.
Para diversificar a linha de produtos, o empresário aposta, desde 2005, na produção de sucos. Eles são destinados à merenda escolar e também são comercializados em alguns mercados de Erechim e em outros Estados.
Vinho como aliado da saúde
A nutricionista da Unimed Erechim, Josieli Carla Terres, explica que o vinho pode prevenir doenças cardiovasculares, por causa dos polifenóis contidos na casca da uva em associação com o álcool. São mais de 200 tipos de polifenóis identificados nos vinhos, concentrados nas cascas e sementes das uvas. Por essa razão, o vinho tinto seco deve ser o eleito quando se fala em promoção da saúde, uma vez que é fermentado na presença de cascas e sementes, enquanto que o vinho branco é processado na ausência delas. A proporção de polifenóis no vinho tinto é cerca de 10 vezes superior em relação ao branco.
Desde que consumido de maneira adequada, quais os benefícios ao organismo?
A bebida também possui ação antiplaquetária, pois contribui para a redução dos níveis de lipídios e colesterol, agentes responsáveis pela formação de placas que podem obstruir as artérias. Além disso, é um vasodilatador, o que favorece a redução da pressão sanguínea. Essas duas características fazem do vinho um importante aliado contra o infarto.
Há alguma orientação sobre a melhor forma ou horário de ser consumido?
Desde que não tenha contra indicação à ingestão de bebidas alcoólicas e não for dirigir após o consumo, é perfeitamente possível cultivar o prazer de beber um bom vinho e ainda agregar muitos benefícios para a sua saúde. A dose diária para homens é uma taça de 100 ml e para mulheres 75 ml junto às refeições.
"Mitos e verdades"
Mitos:
O vinho branco tem a mesma função do vinho tinto? O vinho branco também possui qualidades terapêuticas, porém a proporção de polifenóis no vinho tinto é cerca de 10 vezes superior em relação ao branco.
Quanto mais velho melhor? Tudo tem a ver com a combinação de oxigênio, corpo, tanino e acidez de um vinho. É preciso ser um vinho muito estruturado para aguentar mais do que cinco anos evoluindo e, na verdade, nem 30% dos vinhos que vemos no mercado melhoram com o tempo.
Cozinhar com vinho não deixa álcool na comida? A quantidade depende do tipo de preparo e tempo de cocção. Algo flambado mantém 70% do álcool, e um cozido pode conter até 80%. Mesmo as receitas mais longas, que fica entre duas e quatro horas no forno, não têm menos do que 5% de álcool.
Verdades:
O vinho tinto seco é a melhor opção? O vinho tinto seco é feito com baixo teor de açúcar e deve ser o eleito quando se fala em promoção da sáude, uma vez que é fermentado na presença de cascas e sementes, enquanto que o vinho branco é processado na ausência delas.
Vinho engorda? O vinho tem valor calórico, portanto, suas calorias devem ser contabilizadas nas necessidades diárias. Cada grama de álcool possui 7 calorias, bem mais que o carboidrato e a proteína que fornecem 4 calorias por grama.
Vinho mancha? A "tinta" de um tinto é realmente forte, utilizada até para pinturas na antiguidade. É por isso que ela penetra com força nas linhas de uma roupa ou tapete.