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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas: Pandemia e o Caminho Para o Fim

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Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

Segundo o Sapateiro de Bruxelas, passado mais de ano do início da pandemia, permanece a cisão provocada pelo absurdo dilema entre saúde e/ou economia. Esse bate-boca desqualificado alimenta uma fogueira que queima e derrete as posições antagônicas dia a dia. Parece não haver avanço ou melhoras. Infelizmente!

Diante de tal constatação, o sábio bruxelense entende que vale pensar um pouco sobre o que subjaz a essa estúpida contenda que impede o mais que necessário consenso. Porém, coloca de início, como inapelável argumento, que qualquer evolução benéfica para a sociedade, passa pelas lideranças políticas. Para o belga, são elas e seus valores pessoais, geradores de suas ações – por vezes muito mal-intencionadas e visivelmente premeditadas – que têm o condão e a responsabilidade de escolher entre jogar água ou gasolina na fogueira da doença coletiva e das vaidades singulares.

O artesão pondera que pegos de surpresa por uma situação inédita, os líderes políticos se viram forçados a agir sem conhecimento de causa. Não havia protocolos pré-concebidos. Estavam diante de um “cisne negro”. Alguns, com mais sorte que juízo, ganharam pontos perante a sociedade. Outros desceram ladeira abaixo, flagrados na inconsistência de seus falsos e tresloucados argumentos.

Ao lembrar a frase do megainvestidor Warren Buffet: “Você só percebe quem está nadando nu quando a maré baixa”, o artífice diz que a metáfora se aplica muito bem aos efeitos da pandemia sobre a reputação de alguns tiranetes de ocasião que hoje alimentam a crise. Poucos marcaram pontos; a maioria naufragou – embora ainda não saibam.

Afirma o experiente coureiro, que diante de uma inusitada situação ou ameaça, eles recorreram aos seus inatos repertórios, aquilo que os distingue, como seres racionais, na hora de tomar decisões: suas crenças e seus valores.

Especialmente em horas difíceis, nós humanos somos em grande medida o que acreditamos ser, agimos como sujeitos ativos em relação aos outros e ao momento, seguindo a orientação de nossa consciência, fruto de princípios morais e éticos – sentencia o calejado calçadista. Na sequência evoca o filósofo espanhol José Ortega y Gasset e sua máxima que diz: “o homem é o homem e a sua circunstância”.

Parece elementar que um momento histórico tão dramático exige cooperação, não divisão, diálogo e não sectarismo. O inimigo comum, o ente microscópico, insidioso e letal que veio do oriente, não escolhe vítimas, trabalha dia e noite, alheio às injunções políticas, e é muito grato à estupidez que o permite avançar. Esse mal somente será barrado mediante estratégias inteligentes e cooperativas que visem obstruir seu nefasto ataque. Lamentavelmente, diante de algo tão óbvio, não houve ainda o consenso – conclui o velho belga.

Recorda ainda o que disse Balzac: “Nas crises, ou o coração se parte ou endurece”. Assim, parece que nossos corações estão se petrificando, a julgar pela escalada de injúrias e agressões que somos obrigados a engolir ao assistir as grandes redes de comunicação de TV, noite após noite.

Pois nessa hora e por essa razão – reforça o Sapateiro -, surge uma excelente oportunidade para distinguir quem age de quem não age orientado por valores efetivamente éticos, como respeito à vida (agora e depois da pandemia), solidariedade e senso de justiça.

No caso do embate coronavírus, basta observar as duas correntes em luta e os comportamentos predominantes. De um lado, filiam-se os adeptos às duras medidas de confinamento, aparentemente cegos às consequências posteriores; do outro, os que contestam e ironizam o poder de fogo do maldito vírus, à beira da inconsequência.

Poucos parecem realmente atentos e concentrados ao conjunto da sociedade tanto no presente quanto no futuro. Mais raros ainda são os que usam a mídia e as redes sociais para educar a população sobre hábitos salutares e também para convocar a colaboração e a solidariedade de todos. Para isso, a educação tomada como o veículo, em essência, capaz de proporcionar a conscientização de sua circunstância, relacionando-se com ela, de modo a superá-la segundo a “senão a salvo não me salvo eu também” – disse igualmente Ortega y Gasset.

Por fim, assevera o Sapateiro de Bruxelas: essa sinistra dicotomia precisa ser superada. Necessitamos a união e o compromisso dos cidadãos de bem e políticos, transparentes, íntegros e respeitosos em relação a coletividade. Precisamos, sobretudo, líderes com valores morais verdadeiros. Porque, nos tempos atuais, só mesmo os princípios verdadeiramente éticos serão capazes de gerar valor econômico e prosperidade. Sem esse entendimento basilar, a atual polarização continuará a sugar a energia vital que poderá levar o país ao fim. E no Atestado de Óbito da nação, constará como causa da morte: asfixia da democracia por falência múltipla do patriotismo.

Não podemos e não devemos desprezar ou mesmo ridicularizar o que Gasset chamava de razão vital, sob pena de cairmos na armadilha implacável das polarizações e suas irmãs gêmeas siamesas, as contradições e o totalitarismo – encerra o experiente Sapateiro de Bruxelas.

Médico e membro da Academia Erechinense de Letras

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