A palavra crônica vem lá do início do Cristianismo, deriva do latim chronica e significa o relato de acontecimentos em sua ordem temporal; uma compilação de ocorrências históricas apresentadas segundo a sucessão dos fatos e feitos no decorrer do tempo; ou simplesmente o registro sequencial de eventos, um depois do outro.
No século XIX, com o desenvolvimento da imprensa, a crônica passou a fazer parte dos jornais, que até ali eram rarefeitos e de circulação restrita às elites predominantes - especialmente o clero, na Idade Média. Ela apareceu pela primeira vez, qual a conhecemos, em 1799, no Journal des Débats, publicado em Paris.
Originalmente limitava-se a relatos verídicos e nobres; a partir do século XIX passou a refletir também a vida social, atividades culturais, ciências, economia, costumes além da vida pública e privada. No conteúdo havia notícias, comentários e principalmente opiniões políticas – muitas vezes – críticas, polêmicas ou até contundentes.
Constitui, portanto, uma peça a ser escrita para jornais ou revistas. O fato de ser publicada nesses meios efêmeros já lhe garante vida breve, pois às impressões e interpretações de hoje seguem-se muitas outras nas próximas edições e nos próximos dias.
Na concepção de Santo Agostinho, teólogo e filosofo cristão do século IV, sempre é cedo para julgar a história, pois ela não terminou ontem, nem hoje, e sequer findará amanhã - e muito menos acabou em 15 de novembro com as eleições municipais. Embora, à cada eleição, eu tenha sensação de estarmos um pouco mais próximos do Fim dos Tempos e, por conseguinte, do juízo final.
No entanto, bem dizia o Bispo de Hipona: devemos ter fé e aceitar os Seus desígnios.
À luz agostiniana e de forma simplista, talvez a seja o relato mais fiel e autêntico do pensamento humano, pois ocorre no rigor do presente. E como o tempo já não existe no passado e o futuro não nos pertence, recomendo a todos que aceitem pacificamente tais manifestações.
Lembro ainda que em geral crônica, é um texto curto e narrado em primeira pessoa ou com o auxílio de algum personagem conhecido – como o Sapateiro de Bruxelas, por exemplo. Ou seja, o próprio autor "dialoga" com os leitores. Isso faz desses escritos uma visão iminentemente pessoal sobre um determinado assunto ou querela.
Ao desenvolver seu estilo, selecionar as palavras ou temas, o cronista transmite ao leitor a sua visão de mundo, suas graças, suas dores, paixões, desprezos, esperanças e decepções.
Está o escrevente, na verdade, expondo a sua forma personalíssima de compreender os acontecimentos que o cercam e envolvem o seu dia a dia.
Assim, as crônicas em geral, são feitas de expressões simples, espontânea, coloquiais, situadas entre a linguagem oral e a literária. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o colunista, que acaba se tornando o porta-voz – quando não um amigo ou inimigo - daquele que lê.
Há ainda alguma semelhança entre a crônica e o texto exclusivamente informativo. Como o repórter, o cronista se inspira nos acontecimentos diários, que constituem a base da crônica e da notícia. Porém, há elementos que distinguem claramente um texto do outro. Após cercar-se dos fatos, o articulista dá-lhes um toque próprio, uma coloração especial, um ardume ou uma doçura íntima. Inclui na redação elementos como fantasias, críticas ou ilações ficcionais. Tais elementos não fazem parte da notícia que é essencialmente informativa - graças a deus e a boa técnica jornalística.
Com base nisso, digo que a crônica é o meio caminho entre o jornalismo e a literatura. E o cronista, por sua vez, pode ser considerado o poeta ou o bobo da corte dos acontecimentos diários.
A crônica literária, surgida a partir do folhetim, na França, tomou características próprias no Brasil. Pessoalmente admiro, entre os mais antigos, Machado de Assis e Lima Barreto. Mas a época de ouro da crônica brasileira aconteceu nas décadas de 1950 a 1970. Rubem Braga, Antônio Maria, Nelson Rodrigues, Otto Lara Resende, Clarice Lispector, Stanislaw Ponte Preta, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, e tantos outros, compuseram um céu estrelado que tinha ao fundo Copacabana seus encantos, suas mulheres, cafajestes e maracutaias nacionais para todos os gostos, credos e cores. Faço reverência especial ao querido Carlos Heitor Cony, com quem tive o prazer de conversar algumas vezes.
Ao encaminhar o final do texto, deixo claro que para escrever esse tipo de composição, basta definir um tema, (ter coragem de) expressar opinião e relatar de forma pessoal fatos colhidos no cotidiano. Normalmente criticar direta ou indiretamente os acontecimentos, seus protagonistas, e os devidos desdobramentos.
Aqui, a exemplo do restante do país – como dito acima - houve eleição no domingo passado. Duplo feriado, dedicado ao Criador, como são todos os domingos e à República, que de santa cada vez tem menos.
Nada de diferente aconteceu, excetuando algumas defecções pontuais e a saudável consagração de alguns jovens postulantes ao cargo de edil. Nada de grave foi revelado ou descoberto, nem para pior, tampouco para melhor. As coisas seguem fluindo umas depois das outras ao sabor de casos e acasos. A história e a carruagem andam despreocupadas pelo (im)previsível caminho rumo ao futuro desenhado por alguns e desdenhado por tantos outros - o que reforça a mais absoluta normalidade reinante. Alguém já disse que o tempo é o senhor da história.
Se entendido e aceito dessa forma, de minha parte não há o que registrar. Também não há nada a criticar e muito menos polemizar. Não há amargor ou doçura. No entanto percebo algo desbotado no ar, um certo tom pastel, neutro talvez. Algo um tanto blasé, eu arriscaria.
Por fim, para não deixar dúvida alguma, evoco novamente Santo Agostinho, para quem “O orgulho é a fonte de todas as fraquezas, porque é a fonte de todos os vícios”. Nossos e dos outros, inclusive.