Sócrates, o mais sábio dos homens, dizia que a chave, o segredo da plenitude humana, está no autoconhecimento. No portal do Templo de Delfos, dedicado a Apolo, deus da beleza e da perfeição, oráculo da antiguidade grega, havia a inscrição “Conhece-te a ti mesmo”, um provérbio popular, mais tarde atribuído a diversos expoentes, entre os quais o próprio Sócrates, além de Tales de Mileto, Heráclito e Pitágoras.
Na visão de Maquiavel, pensador florentino do Renascimento Italiano, em O Príncipe, “O homem é mau por natureza, a menos que precise ser bom”. De forma um tanto diferente, Thomas Hobbes, notável intelectual inglês do século XVII, em Leviatã, explica que a natureza humana é má e, por decorrência, o homem é essencialmente mau. Lupus est homo homini lupus é uma expressão latina que significa “o homem é lobo do próprio homem”, apresentada por Plauto, dois séculos antes de Cristo, em sua obra Asinaria.
Já no Século XX, Jean Paul Sartre, existencialista francês, disse que “o inferno são os outros”, porque o inferno consiste em relativizar nossa inércia e nossas ações, sempre nos comparando a outrem. Portanto, de acordo com Sartre, estamos continuamente nos sentindo melhores ou piores que alguém. E quando o desprezo, o olho grande, a raiva, a vilania emerge com maior intensidade e rigor, nossas fraquezas afloram e passamos a agir entre defeitos, imperfeições e maldades próprias de cada um: a natureza inferior se revela, por sentimentos negativos e na disposição de praticar o mal. Tudo isso se agrava ainda mais na ausência da autocomplacência, nas frustrações acumuladas, nos desprezos pessoais, adicionados ao egoísmo, à intolerância e à soberba de alguns.
O mesmo grande Sócrates ainda sustentou que nenhum indivíduo era capaz de praticar o mal conscientemente, mas que o mal era um resultado da ignorância e falta de conhecimento próprio.
Mais tarde, Jean-Jacques Rousseau, suíço Iluminista do Século XVII, que tinha na liberdade o valor supremo, disse: “o ser humano nasce bom, a sociedade o corrompe”. Ou seja, o homem possui uma natureza boa que é adulterada pelo processo civilizador. Para o helvético, as ações humanas não passam de reações ao meio em que se vive, por conseguinte, sujeitas às agruras e sinuosidades das regras sociais vigentes em cada época e local.
Para um dos pensadores mais queridos da Espanha da primeira metade do Século XX, José Ortega y Gasset, todas as coisas estão em permanente processo de mudança. Por isso a vida, do início ao fim, é um completo e complexo aprendizado. Disse o ensaísta ibérico, que não é possível chegar ao entendimento de si mesmo, sem perceber as próprias condições de tempo, lugar ou modo de existir. O homem é o homem e suas circunstâncias - asseverava o erudito madrilense.
Diante de tantos, tão amplos e profundos conceitos, pessoalmente prefiro acreditar em formulações bem mais frugais, simples e modestas. Creio piamente nas pessoas de corações imensos e doces sentimentos familiares; naqueles que no decorrer de suas existências sempre mostram e ensinam que o bom caminho para ser trilhado requer redobrada força de vontade, firmeza de caráter e total determinação; creio naqueles que estão sempre prontos a romper com o nocivo, com os lobos e com o que é prejudicial ao coletivo; creio naqueles que invariavelmente acessíveis, estão sempre dispostos a acolher e dar vida à ideias propositivas e inovadoras; creio naqueles que constantemente se dedicam às causas legítimas e fazem com que suas intenções resultem – de fato – em realizações pessoais e grandes obras para engrandecimento comum.
Portanto, creio que é impossível ser bom com outros se não se é bom consigo mesmo. E só seremos bons com nós mesmos quando nos conhecermos profundamente, nos aceitarmos e nos gostarmos como realmente somos e do que fazemos. Aí sim, aceitaremos ao próximo realmente como ele é e na sua função, sem rancores, desgostos ou correções. Somente unidos construiremos um mundo melhor para todos.
Finalizo ao citar Sri Prem Baba, mestre brasileiro, que diz: “porque, embora o amor seja a seiva da vida, ele é como a própria respiração: se tornou tão esquecido, tão escondido que é como se fosse algo desconhecido”. Entendo que essa afirmação é tão triste quanto real. E recomendo refletir profundamente quando nos dermos alguns minutos de paz ou arrumarmos um tempinho de sobra para pensar sobre o verdadeiro sentido da vida. Vida que é dádiva divina, mas por nós, muitas vezes, desprezada.
PS: Esta crônica é dedicada à memória de José Rovílio Meneguzzo, exemplo de bondade, inspiração e realizações à história de Erechim.
Médico e Membro da Academia Erechinense de Letras