Falta dinheiro para asfaltar o trecho de 70 quilômetros da BR 153 (Transbrasiliana) - rodovia federal, recursos federais -, que vai de Erechim a Passo Fundo. É o que se escuta a vida toda. E não se trata de ser negativo, mas a lógica destes 40 anos mostra que o asfalto, nesta estrada, dificilmente vai se tornar realidade. Espero muito estar enganado. E, esse é um exemplo de como o governo federal afeta diretamente a vida local, sem falar em educação, saúde e segurança.
Além disso, é importante dizer que a obra, estimada em R$ 248 milhões, poderia ser realizada pelo 1º Batalhão Ferroviário de Lages, que tem em torno de 250 a 300 pessoas na corporação. O detalhe, mais interessante, não precisa de licitação, tudo pode ser feito com um convênio entre Dnit e Exército. Mas para isso a sociedade civil, representantes políticos e empresariais precisam levar esta demanda ao Dnit.
Com o estado do Rio Grande do Sul endividado, faltam recursos estaduais – essa é sempre a justificativa - para fazer os 11 acessos asfálticos e ligações inter-regionais da região Alto Uruguai. E, sem eles, a população tem que se expor ao perigo, diariamente, e amargar prejuízos financeiros com a manutenção dos veículos, que não aguentam trafegar em estradas de chão batido e pedra. Sem falar na falta de critério e no atraso dos repasses de recursos aos municípios para a saúde. Tudo sempre na conta do endividamento. E na esfera federal não é diferente, o primeiro e último argumento é sempre a falta de recursos para investir, fruto de um estado endividado, insolvente.
Essas informações foram e são repetidas exaustivamente, escuto elas desde que nasci há 40 anos. E, no meu entendimento, elas têm a função de desmobilizar a população, fazer com que desista, esqueça, enfim, que não existe dinheiro para o Brasil. Aí, as pessoas simplesmente entenderam que ali não tem como interferir e é “melhor” aceitar a engrenagem como ela funciona. E o vazio se criou entre política e sociedade, ações de governo e realidade.
E, os efeitos são evidentes na prostração (me incluo também), apatia e dormência de toda sociedade brasileira, associado a uma cultura que sempre massacrou, literalmente, quem se opusesse às normas estabelecidas. O Brasil apanha calado ou em meio a risos, e é espoliado, descarnado vivo, pelo sistema instituído e alimentado, pelos próprios brasileiros. O problema não vem de fora, mas, exclusivamente, é gestado e parido nas entranhas do país.
E aqui entra a política que poderia fazer toda a diferença ante a realidade, mas hoje não faz, e, para afirmar isso tenho como base o que está aí, a realidade a olhos vistos de se ver. Falta tudo por fazer. E não importa se é rico ou pobre, todos sofrem, mais ou menos.
E me refiro ao governo federal, que tem a chave do cofre e controla a política econômica, social e cultural, que se mostra cada vez mais distante da realidade, mais contrária a si mesma e na composição de uma nação. A exceção existe e está nas gestões municipais, que descobriram, apesar dos poucos recursos que têm, o poder transformador da política.
E esse título, “Halloween, não, Dia das Bruxas” o que tem a ver com o assunto? Apesar de ser um exemplo simples, do momento, tem muita relação. A cultura de outros povos pode ser admirada e “consumida” à vontade, o problema é quando ela vira uma ferramenta de alienação e submissão, pela desvalorização da própria manifestação cultural.
Como por exemplo, os manuais da escola traziam o nativo, indígena, como uma pessoa dócil que se vendia por um espelho. De outro lado, se é bombardeado por filmes em que o índio norte-americano é sábio e um guerreiro. Essas imagens ficam e “fazem” a cabeça das pessoas.
É certo que havia aqui índios pacíficos, sim, mas também tinham os guerreiros, como os tupinambás, que ocupavam o litoral brasileiro, e eram belicosos e antropofágicos. Por que a “visão” do indígena guerreiro não foi transmitida à sociedade? Por que o guerreiro não é a “imagem” do índio brasileiros?
A educação por muito tempo esterilizou qualquer possibilidade de se problematizar a realidade e, assim, transformá-la. E isso continua até os dias de hoje, na desvalorização da literatura, ciência, indústria, música, comércio, tudo que envolva o ser humano e suas manifestações, entre elas a política, que define o rumo do país, e hoje, é fonte dos maiores males.
Quem não valoriza a própria cultura está sujeito a qualquer coisa. E como se diz: quem não sabe de onde veio, não sabe para onde ir. Halloween, ao invés de Dia das Bruxas, exprime a dependência à cultura estrangeira, à uma visão, racionalidade, desconexa da realidade, por sua vez indiferente, insensível, não-identificada, descontextualizada, desumanizada. Em última análise, que despreza a própria vida que a compõe e não consegue problematizá-la e, por fim, ser a inflexão da mudança. Sem valorizar a própria cultura não tem como avançar na economia, socialmente e politicamente. Não tem como romper com as amaras que cegam, geram ódio, desprezo e produzem só miséria.
Assim, sem valorizar a própria cultura, isto é, a vida local, em outras palavras o jeito de se viver aqui, o bem-estar das pessoas que aqui habitam, sempre o país será visto como uma cultura inferior, medíocre, pela própria população que paga com a vida, e por outros povos, que sempre irão achar um jeito de se beneficiar, enquanto “ajudam”.
Se a vida local não tem valor, não faz sentido achar a solução, investir recursos para acabar com a miséria da população, com o desemprego, criminalidade, a fome, falta de saneamento básico, falta de moradias, infraestrutura, estradas, hospitais, enfim, porque isso não tem significado, não tem importância. E, também, talvez, porque essa seja a lógica desta cultura, “cultivar” um ser enfraquecido, alienado, pobre, adoentado, que vai se contentar com qualquer migalha de pão e será grato pelo resto de sua vida miserável.