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Opinião

Finados e luz!

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Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

“Mais luz!” Estas foram as últimas palavras de Johann Wolfgang von Goethe, o maior escritor alemão, em seu leito de morte.

Há alguns anos, li uma crônica de Carlos Heitor Cony sobre a data destinada aos finados – e não mais esqueci. Contava, o acadêmico, com sua agradável prosa, uma historinha que reflete bem o que muitos sentem nesse dia e, no mais das vezes, não sabem como externar. Cheguei a guardar o recorte, mas acabei perdendo-o com o tempo, como se perdem muitas coisas boas da vida nas gavetas, arquivos, computadores e na própria memória.

Dizia o mestre mais ou menos assim:

Eis que estavam num castelo, no interior da Inglaterra, um lorde e seu mordomo, a contemplar a pradaria ao cair da tarde. A paisagem era límpida, verdejante, e só se ouvia e sentia o leve sussurrar da brisa que soprava do poente. O lorde, acomodado em sua poltrona, fumava um bom cachimbo e contemplava absorto o horizonte, onde se acumulavam nuvens cinzas sob o sol preguiçoso. O mordomo, que se chamava James (não sei por que todos os mordomos ingleses se chamam James), aproximou-se com um whisky e ofereceu-o gentilmente ao senhor. Pelo momento e delicadeza, aproveitou o clima para puxar conversa. Ao mirar as densas nuvens que se aproximavam da casa, James falou ao lorde: “Sir, creio que teremos chuva ao final da tarde...” Indagação prontamente respondida pelo patrão com fleuma dos lordes: “Engano seu, meu caro James. De forma alguma teremos chuva ao final da tarde. Na verdade, você terá a sua chuva e eu terei a minha”, dando a conversa definitivamente por encerrada.

Tal relato mostra com propriedade como as coisas são e acontecem diferentemente para cada um e cada qual. A chuva do lorde não era a chuva do James; tampouco, a chuva do mordomo pertencia ao lorde. Embora fosse a mesma chuva, cada um a via e a sentia de forma peculiar, a seu modo e jeito.

O mesmo acontece com os nossos mortos, que por convenção ganharam um dia comum, 2 de novembro, mas que de forma alguma são lembrados ou pranteados da mesma forma. Cada um tem os seus ausentes, suas dores guardadas no fundo do coração, suas saudades infinitas e irremediáveis. Ninguém, por mais que queira, consegue ouvir o choro aflito e silencioso que o outro guarda no peito ante a partida dos que mais ama.

Fique o amigo leitor com suas dores, suas saudades, suas ausências e entenda que a vida é assim mesmo; fique quieto, não reparta com ninguém o que é impossível dividir. Fique com os seus mortos que eu fico com os meus; fique também com a sua chuva que não é a mesma que a minha, embora molhe a nós todos.

Para desanuviar um pouco o ambiente e esta crônica, lembro Machado de Assis que, com sua eterna sabedoria, um dia escreveu: “Está morto. Podemos elogiá-lo à vontade”.

Mas, por hoje chega, não vou mais falar em morte. Talvez até fale de aniversário, que é aquela data curiosa que comemoramos por estar um ano mais próximo da morte. E, para finalizar, um último e útil lembrete: se o amigo leitor tem mais de 50 anos, e acordar certo dia sem nenhuma dor - cuidado! Você pode estar morto e não sabe. Na dúvida, faça como Goethe, peça luz e veja o que acontece.

 

Do Livro Amigos & Medos – Crônicas do Cotidiano

 

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