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Opinião

A vida sem a mentira

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Marcos Vinicius Simon Leite
Por Marcos Vinicius Simon Leite
Foto Divulgação

Iniciava o ano 2001, ainda na empolgação do Novo Milênio. No auge da minha juventude, eu havia colado grau e iniciava o Mestrado em Economia. Trabalhava como auditor e havia passado no concurso para professor substituto da UFRGS. Repentinamente, mudava de lado e virava professor. Era preciso planejar minhas aulas de auditoria.

Filosofando sobre o assunto, decidi pesquisar sobre a mentira, afinal, a auditoria é uma das especialidades da ciência contábil e tem como fundamento, atestar a veracidade por trás dos números. Sem erro, mentira ou dissimulação, não haveria auditoria. Surgiu-me então a obra da autora alemã Irmtraud Kruger, "Da impossibilidade de se viver sem mentir". Apesar de já ter se passado quase vinte anos, tudo permanece atual, como o comportamento humano. Não vou aqui, dar spoiler (palavra moderna) do livro que, de certa forma, classifica os tipos de mentira. Recomendo a leitura.

A mentira é uma artimanha exclusiva da espécie humana, uma versão aprimorada da dissimulação, esta sim, presente em muitos animais e até em plantas. As ditas carnívoras esbanjam a beleza de suas flores e assim atraem insetos, que são engolidos pelo fechamento das pétalas. A dissimulação tem relação direta com o princípio da perpetuação da espécie, independe da racionalidade, enquanto a mentira é a capacidade humana de ir além da verdade, com ou sem maldade.

Na era nazista, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, por trás de um discurso extremamente adesivo e interessante à época, sob a égide do então Ministro da Propaganda de Joseph Goebbels, promoveu atrocidades enquanto rolava a chamada propaganda nazista. Isso foi tão marcante que o termo "propaganda" é considerado pejorativo na Alemanha atual, o que faz todo o sentido, vez que por trás de um discurso objetivo, fragmentos de verdade eram amalgamados em tramas sociopatas.

E por falar em propaganda, sua origem deriva do termo latino "propagare", usado na agricultura para designar a reprodução de mudas de parreiras. Na biologia, propagação significa multiplicação, fenômeno que a medicina chama de septicemia, quando bactérias do mal se multiplicam em quantidade maior do que os anticorpos. Curioso, não se ouve falar de propagação de bactérias do bem, levando a crer que quando a energia do mal resolve se multiplicar, a do bem corre sérios riscos.

Não parece, mas o bem é silencioso e só se propaga sob provocação, enquanto o mal, este está sempre pronto para se multiplicar. A título de ilustração, em nosso intestino, por exemplo, a propagação de bactérias do mal é também chamada de disbiose e o sujeito que sofre desse mal, não raro fica "enfezado". Até mesmo a depressão pode ter sua origem nesse fenômeno da natureza.

Mas e a mentira, será que existe a "mentira do bem"? Segundo Eva Sopher, incansável curadora do Teatro São Pedro, existe sim a mentira do bem. Nas palavras desta sábia senhora, falecida em 2018, há razões suficientes para se mentir para um doente terminal. Não obstante, para a autora alemã, quando uma pessoa diz a outra que a ama, já está comunicando a possibilidade de término da relação. Que perigo, não?

Enfim, entre a mentira com ou sem maldade, eu ainda prefiro a verdade, a verdade com amor. Esta é a mais difícil de ser dita. Nossa sociedade nos ensina a mentir, mas não nos ensina o amor. Certa vez, me despedi de um doente terminal, como se fosse seu último dia de vida. Depois do que disse, a paciente viveu por mais um bom tempo, enquanto eu ficava naquele pensamento imbecil: e daí, já morreu? Por sorte, tive a oportunidade de conversar francamente com ela sobre isso. Será que o médico havia mentido quando disse que não viveria mais de uma semana? O erro permite essa interpretação, logo exige cuidado.

Afinal, o que há em comum entre os mentirosos? A incrível capacidade de fantasiar coisas, de criar histórias. Reconheçamos, seria impossível viver num mundo sem esses mentirosos.

 

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