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Opinião

Caos e cortina de fumaça

Sim, existe um país mal resolvido, extremamente desigual, da fome e miséria, com milhões de desempregados, injusto e até cruel. Contudo, não é multiplicando desinformação, fomentando ódio, uma visão medíocre de sociedade, que só enfatiza a incapacidade de mudar a realidade, que se resolverá todos esses problemas. O pior é que enquanto se vende o caos, como cortina de fumaça, para 99% da população o restante 1% carrega de caminhão para casa os trilhões de reais que deveriam servir ao país. E, é claro, com o consentimento da Lei, tudo legal

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Vense-se o caos como cortina de fumaça
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Divulgação

Eu queria ter uma leitura melhor do mundo, mas não tenho. E ao longo desses anos de vida vejo que a minha maneira de ver a realidade estava muito mais alicerçada naquilo que acreditava, nos meus “ideais”, do que de fato estava ocorrendo. A questão é que sempre haverá a possibilidade de entender a realidade de muitas formas, pelo viés individual ou de grupo, motivado pela vontade, programa, poder, ou conforme a maneira que ela é repassada e “feita” para ser entendida.

E, aí, entra a questão que falta: entender a realidade a partir da própria realidade, com ferramentas e alicerces que tragam compreensão e a possibilidade de superar os problemas e avançar. Mas nada é tão simples assim, ainda mais quando se trata do Brasil e de nós brasileiros.  

No campo da percepção tudo é sempre relativizado quando se quer, e agora ficou muito pior com o “mundo das redes sociais”, em que tudo pode ser verdade e mentira, ao mesmo tempo, conforme a motivação e necessidade certas. Uma informação pode ser desacreditada com a simples colocação, afirmação, de que ele é uma notícia falsa, fruto da invenção tecnológica.

De outro lado, uma invenção tecnológica em imagem ou em forma de informação, com alguma correspondência muito superficial e desconexa com a realidade, pode virar verdade, simplesmente, por estar circulando nas redes sociais. Há uma distorção, em curso, com impacto na maneira de ver e viver a vida, em que o virtual está se sobrepondo ao real, é lamentável. Isto é, qualquer informação ou imagem podem ser legitimadas.    

E um dos piores efeitos disso tudo, no meu entendimento, é que a realidade não tem mais vida, realismo, não tem mais valor e deixou de ser real, para ser um tanto quanto redundante.

A percepção ficou moldada demais pela tecnologia, e, agora, olhar para um ser humano vivendo dentro do esgoto, passando fome ou morrendo e não causa tanto espanto quanto um vídeo ou um texto nas redes sociais. Claro, essa é só a minha visão das coisas.       

Muito são os estudiosos dos problemas do Brasil, que dissecaram e esmiuçaram cada canto desse país propondo mostrar as suas mazelas ou apresentar um caminho para resolvê-las. O ponto é que há muito tempo todo esse conhecimento não ecoa na estrutura política e econômica, não é sequer considerado. E isso resulta numa fábrica de desperdício de recursos, vidas e desenvolvimento.

O pior é que se construiu e foi bem introjetado culturalmente na sociedade, uma roupagem ideológica difundida por mecanismos visuais, tecnológicos, políticos, mercadológicos, familiares, educacionais, midiáticos, enfim, que fica latente nas pessoas, pulsando, por exemplo, que “o governo não tem dinheiro”- para inviabilizar a realidade, apesar dos trilhões que arrecada; “tudo que é público é corrupto ou ineficiente” – para legitimar interesses particulares em detrimento do coletivo, quando poderia se corrigir os erros; “que o brasileiro não presta” – aí merece sofrer até o fim da vida; “que o Brasil é o país do futuro” – subentende-se uma realidade frustrada e algo inalcançável, mas que serve para quando convém; ah, não posso esquecer, “o SUS é uma merda” – mesmo quando salva a vida dos meus familiares. Enfim, “que tudo é ruim”, quando na maior parte do tempo não é, mesmo vivenciando o contrário.

Sim, existe um país mal resolvido, extremamente desigual, da fome e miséria, com milhões de desempregados, injusto e até cruel. Contudo, não é multiplicando desinformação, fomentando ódio, uma visão medíocre de sociedade, que só enfatiza a incapacidade de mudar a realidade, que se resolverá todos esses problemas. O pior é que enquanto se vende o caos, como cortina de fumaça, para 99% da população o restante 1% carrega de caminhão para casa os trilhões de reais que deveriam servir ao país. E, é claro, com o consentimento da Lei, tudo legal.

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