O Sapateiro de Bruxelas, em suas intermináveis lives – que não são eternas, posto que durarão somente enquanto houver a pandemia -, de local ermo, longínquo, secreto e não sabido, aborda nesta semana mais um assunto de sua escolha e alta predileção. No caso de hoje, volta às escritas através das fábulas.
Diz o mestre, que entre um sem números de ficcionistas do gênero, há três grandes, no seu modesto entender, que merecem citação, quando não referências e reverências eternas pela magnificência de suas obras.
Inicia a lição com Esopo, o mais conhecido dentre todos os fabulistas. O grego, de origem escrava, foi sem dúvida um grande sábio da antiguidade. Sua vida é envolta em mistérios e lendas. Acredita-se ter nascido por volta do ano 620 a.C. Possivelmente seja originário da cidade de Cotiaeum, Grécia Antiga. Cativo, pertenceu a dois senhores. Tornou-se livre graças a sua viva fluência verbal e natural sabedoria.
Complementa o calçadista: suas pequenas narrativas, sempre ricas em ensinamentos, retratam o drama existencial do homem, substituindo as pessoas por personagens como animais ou forças da natureza. A cultura oral levou suas narrativas a todos os povos do mundo; por suas formatações graciosas, são de fácil memorização e disseminação. Faleceu em Delfos, em 564 a.C.
O segundo grande autor, de acordo com o coureiro, é Jean de La Fontaine. Este nasceu no vilarejo de Château-Thierry, na França, a 8 de julho de 1621. Completou seus estudos de teologia e direito em Paris. No entanto, seu maior interesse sempre foi a literatura.
Teve vários mecenas entre nobres franceses e tornou-se próximo de notáveis escritores como Molière e Racine. Em 1668 publicou "Fábulas Escolhidas", coletânea que seguia o estilo de Esopo. À semelhança do grego, suas prosopopeias, magistralmente descritas, contém fundo moral deveras edificante – comenta o artesão.
Por usar linguagem simples e atraente, o Pai da Fábula Moderna conquistou um número imenso de leitores. Faleceu em 1694, e está sepultado no cemitério Père-Lachaise, em Paris, ao lado do dramaturgo Molière.
Entre os títulos mais famosos escritos ou reescritos pelo gaulês, estão La Cigale et la Fourmi ou A Cigarra e a Formiga, Le Lion et le Rat ou O Leão e o Rato, e o Asno e a Carga de Sal – nos fala o belga, em vernáculo francês impecável.
O terceiro e último autor lembrado pelo bruxelense é Monteiro Lobato. Este paulista de Taubaté, nascido a 18 de abril de 1882, publicou uma antologia infantil, Fábulas, em 1922, com diversas historietas de Esopo e La Fontaine, e faleceu a 4 de julho de 1948, em São Paulo. O artesão lembra que a obra mais famosa de Monteiro Lobato, um grande brasileiro, é O Sítio do Pica Pau Amarelo, que bem mais tarde se transformou em série televisiva de sucesso.
Ao encaminhar o término da preleção, o velho artífice, invariavelmente incontido em suas falas e rompantes, brinda aos seletos parceiros de cafezinho com alentadora mensagem. Solta o verbo:
“Eis que um pequeno cordeiro estava bebendo água num riacho. O terreno inclinado propiciava correnteza forte. Quando levanta a cabeça, avista o lobo, também bebendo água.
- Como é que você tem coragem de sujar a água que eu bebo - disse o lobo, que faminto procurava algum animal apetitoso para saciar a fome.
-Senhor – respondeu o cordeiro- não precisa ficar bravo, não estou sujando nada. Bebo aqui, uns vinte passos abaixo, é impossível acontecer o que o senhor está falando.
- Você agita a água – continuou o lobo – e sei que você andou falando mal de mim no ano passado.
-Isso não é possível - respondeu o cordeirinho com voz embargada - no ano passado, eu sequer havia nascido...O lobo pensou um pouco e disse:
-Se não foi você foi seu irmão, o que dá no mesmo.
- Eu não tenho irmão – disse o pequeno – sou filho único.
- Mas foi alguém que você conhece, seu pai, sua avó, algum outro carneiro, o pastor ou até mesmo os cães que cuidam do rebanho. Então o lobo pulou sobre o filhote e atacando-o, disse:
-Bem, o fato é que eu não vou ficar sem alimento apenas porque você refuta cada motivo justo que eu apresento. E assim agarrou o animalzinho entre os dentes e o levou para almoçá-lo num lugar sossegado".
Nesse ponto, o Sapateiro de Bruxelas propõe uma reflexão ao ensejar a tradicional moral da história. Novamente em sua língua nativa afirma: “la raison du plus fort est toujour la meilleure”. Ou seja: a razão do mais forte é sempre a melhor.
Assim deixa um alerta a seus queridos amigos e amigas: para as pessoas injustas, incapazes e opressoras, sempre haverá um meio de justificar sua falta de bom senso e aplicar sua ideia própria de justiça. Elas sempre encontrarão algum argumento capaz de justificar seus erros e arbitrariedades.
Faz ainda uma última recomendação: nesses tempos de escolha de novos líderes e representantes, não esqueçam a sabedoria das fábulas, pois estas são verdadeiros espelhos do comportamento humano.
Nas pequenas histórias antropomórficas estão estampadas as safadezas e as infinitas estupidezes e imperfeições da raça.
Portanto, aviso em bom tempo e boa hora: evitem cigarras, raposas ou burros que estejam dispostos a “melhorar” a nossa cidade. Também escapem da lábia de gatunos ou assemelhados. Se não formos precavidos e previdentes, o resultado final bem como a moral da história, poderão ser por demais tristes, se não desastrosos para todos.
E ao encerrar a live dá um abanico maroto para a telinha brilhante e nos deixa com um alegre au revoir, mes amis. Até a próxima.
Médico e membro da Academia Erechinense de Letras