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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas e o (Mau) Uso das Mídias Sociais

Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

O Sapateiro de Bruxelas continua recluso em paragens incertas e não sabidas. O afastamento da amistosa vida urbana tem lhe causado grande desalento e imensa saudade. Sente falta dos amigos e amigas da roda de cafezinho, que por ora e motivos óbvios, encontra-se desativada fisicamente.

Porém, o grupo de fiéis seguidores do calçadista não se deu por vencido e intimou ao preletor a manter, ainda que esporadicamente, algum contato edificante. Por decisão unânime, optaram pelas lives, tão em voga na atualidade e praticadas por muitas nulidades - o que certamente não é o caso do artífice em questão. Muito a contragosto e com visível mau humor, o artesão cedeu às súplicas e tascou as seguintes preciosidades em sua última aparição virtual.

Disse o mestre estar triste, contrariado e abatido nesses tempos de pandemia. O fato de a doença rondar parentes e amigos além de causar dor e sofrimento a pessoas e famílias próximas o deixa francamente consternado. 

O temor constante de contaminação pelo maldito vírus chinês acrescido ao frio e chuvas do inverno meridional, tem levado o Sapateiro e outros ermitões a desenvolver ideações nefastas e desencontradas em relação ao real significado da vida e seus desdobramentos mediante tanto mal-estar, abandono psicológico e horror inflado diariamente pela grande mídia.                                                                                                                      

O eremita de ocasião entende que as pessoas normais nas atuais condições de pressão e temperatura tendem a adoecer física, emocional e também culturalmente. E logo explica:

Na versão do bruxelense, a cultura de um povo se faz pelo seu modo de vida, suas atitudes, seus valores, crenças e artes, somados às suas percepções e hábitos de pensamento demostrados em suas ações cotidianas. As características culturais e formas de vida são herdadas dos ancestrais e muitas vezes são demasiado abrangentes para serem detectadas por quem não as vive em seu interior.

Ainda segundo o anacoreta, o descompasso cultural causado pelo isolamento social agride frontalmente a vida real, leva à ansiedade, medos e determina sérias avarias em egos mais frágeis, gerando insuportável sentimento de culpa ante a catástrofe que a todos atinge, indistintamente.

A culpa - segundo o célebre belga - é o sentimento menor que atormenta principalmente os mais fracos de espírito. Esses, por vezes, desenvolvem reações negativas por agirem mal e de forma destrutiva em suas parcas existências, portanto, a merecerem a indignação e o desprezo dos demais.

De igual modo, sentem-se culpados e condenados por seus próprios feitos, e ora acuados e afastados de seu habitat natural em função da crise de saúde e socioeconômica, não suportam a realidade nua e crua e projetam sobre o mundo e os outros o que são na verdade deformações morais próprias e intransferíveis de seus caráteres doentios.

Assim, usando de volteios e ironias peculiares, o mestre chega ao ponto crucial de sua palestra: lembra aos parceiros e discípulos de cafezinho que essas personalidades mais débeis geralmente compostas por falidos, mal-amados, inexpressivos famosos além de outros membros do baixo clero paroquial, frequentam as redes sociais com rara desenvoltura e assiduidade, com destaque para o Facebook e grupos de WhatsApp.  

O alerta do sábio se dá na sequência e no sentido de nós, seus seguidores, usarmos esses meios de comunicação de forma equilibrada, econômica e parcimoniosa. Diz o mestre que para os fracotes e hipersensíveis, tudo que dissermos, mesmo algum chiste inocente ou mero comentário inócuo, pode ser entendido e repercutido como ofensivo e fornecer munição às agressões covardes típicas do ambiente virtual.

Por último recomenda o sábio, que mesmo não cometendo erro algum, sejamos discretos e adotemos uma expressão linguística clara e eficiente de modo a contornar constrangimentos quase inevitáveis.

A seguir assim, no entender do Sapateiro de Bruxelas, não há e não haverá necessidade de mordaça alguma ou mesmo engessamento judiciário das redes sociais. Estas vão implodir por mau uso e incongruência intelectual de alguns participantes da rede.

Diz o artesão que certamente, ao término da pandemia, as pessoas normais resgatarão suas raízes e bons hábitos de convívio civilizado, afável e colaborativo. Talvez no futuro às mídias sociais reste apenas aos insuportáveis e os idiotas de sempre, e se tornem um universo bizarro povoado por levianos, frustrados e incompetentes. E finda sua peroração virtual deixando a seguinte mensagem: para viver em paz consigo mesmo, as pessoas devem sentir-se seguras e saudáveis, desintoxicadas da raiva, do medo, do ódio e do ressentimento.

 

Médico e membro da Academia Erechinense de Letras

 

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