Duas pesquisas realizadas no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – campus Erechim, se tornaram um importante documento histórico: o diagnóstico da educação no Alto Uruguai entre o período de 1930 a 2018.
Os estudos, que foram realizados pelas professoras e, agora mestres, Miriam Poletto e Susiane Bampi, com orientação da professora e doutora Adriana Salete Loss da UFFS, serão apresentados no 27ª Colóquio da Afirse em Portugal, que neste ano tem como tema “Educação e bem-estar”.
As dissertações produzidas apresentam uma contextualização social, histórica, política, econômica e educacional de 16 municípios da região de abrangência da Associação de Municípios do Alto Uruguai (Amau), com objetivo de indicar as transições da formação docente, bem como, apresentar propostas de formações continuadas, que deverão se tornar um livro em 2020.
1930 a 1980
O primeiro estudo é de Miriam, que possui um recorte temporal de 1930 a 1980. “A escolha dos municípios obedeceu ao critério do ano de emancipação dos municípios, assim, analisei escolas de Erechim, Marcelino Ramos, Viadutos, Severiano de Almeida, Campinas do Sul, Jacutinga, Erval Grande e Barão de Cotegipe”, contou à reportagem do Jornal Bom Dia.
Com o título “Docência na região do Alto Uruguai/RS de 1930 a 1980: histórias de vida profissional, experiências e práticas pedagógicas”, Miriam revela que o maior objetivo com esse trabalho foi mostrar qual era a concepção da profissão nesse período. “Assim, constatamos que a noção de professor foi constituída com base na inter-relação de vários aspectos, entre eles, o contexto social, econômico e político, que foram os responsáveis pela forma como se organizavam os espaços de atuação”.
Sobretudo, Miriam argumenta que nessas primeiras décadas, a educação na região sofreu interferências da imigração e da igreja católica. “O ensino foi estimulado pelo interesse dos imigrantes em proporcionar o acesso à educação para seus filhos, ou seja, era restrita e elitista. Nesse cenário, o catolicismo foi essencial, considerando que as professoras que atuaram nesse período tinham uma formação religiosa”.
“Nesse contexto, chegamos ao resultado de que era uma formação doméstica, mesmo que o currículo havia o estudo de algumas disciplinas de conhecimento científico, uma parte era preenchida com tarefas que ficaram conhecidas como ‘prendas domésticas’ e, o exercício profissional, era encarado como uma extensão de sua atividade como mãe e esposa. Assim, concluímos que além de elitista, como tinha um vínculo com a igreja, o atuar na educação não era visto como uma profissão, mas sim, como um dom, vocação e com apelo maternal”, destacou a pesquisadora.
Essa visão perdurou até o fim da década de 1960. “A partir de 1970, observamos que a educação se volta a uma formação mais tecnicista, então seu objetivo era encaminhar as pessoas para o trabalho em fábricas. Portanto, os professores que acompanharam essa transição tiveram que se adaptar às novas exigências com as formações continuadas, que antes eram voltadas apenas às equipes diretivas. Nesse momento elas passam a ter um currículo mais fragmentado, especialista e separado por disciplinas”, complementou.
1980 a 2018
Já a segunda pesquisa, de Susiane, foca no período do processo de redemocratização do Brasil, com o título “Experiências formativas dos professores em exercício
na região da Amau entre 1980 a 2018”. O critério de escolha das escolas também seguiu o ano de emancipação político-administrativa dos municípios, que deveriam ser a partir da década de 80. Desta maneira, foram pesquisados os municípios: Paulo Bento, Cruzaltense, Estação, Erebango, Áurea, Centenário, Barra do Rio Azul e Três Arroios.
“As instituições de ensino foram selecionadas com base em seus anos de fundação, assim, escolhemos as mais antigas e, portanto, as estaduais. A partir de entrevistas e análises documentais, buscamos investigar quais as características presentes no processo formativo dos professores”, pontuou Susiane.
A professora reforça que a partir da década de 1990 com a implementação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), os processos de ensino e aprendizagem do ensino básico ao superior foram reorganizados.
“Nesse período histórico, teremos diversas legislações, que orientam a educação brasileira, propondo novas medidas ao ensino, mas também voltada para o processo de formação dos professores, inclusive, com novas modalidades. Dentro desse recorte temporário, tanto em âmbito nacional, quanto estadual, tivemos
muitas trocas de governo e a cada alteração, a esfera educacional e o exercício docente foram afetados”, acrescentou.
Susiane ressalta que sua pesquisa utilizou de entrevista com professores que estão em exercício efetivo em sala de aula e que muitos dos entrevistados acompanharam essas mudanças, “alguns deles possuem mais de 25 anos de profissão”.
Nesse cenário, a formação de professores ganhou destaque. “Ela se tornou fundamental porque saímos de uma visão doméstica de atuação para enxergá-la como uma profissão e, por isso, a necessidade por uma boa formação inicial e a constante atualização se tornou essencial para o exercício docente”, comenta Susiane.
Contudo, ao passo que a atuação se tornou uma profissão, ela perdeu seu status frente à sociedade. “Ser professor começou a ser desvalorizado e não apenas pelas condições de trabalho e remuneração baixa, mas também por um lado subjetivo, alguns docentes que entrevistei relataram que se sentem sozinhos”, acrescenta.
Proposta de formação docente
Como o mestrado em Educação da UFFS é oriundo de uma modalidade profissional, ele exige o desenvolvimento de um produto que possa ser utilizado pela sociedade. Assim, as duas pesquisas, em que ambas foram orientadas por Adriana, uniram-se para propor uma formação docente centrada no protagonismo do professor.
“Nesse material que será revertido em um livro, nós indicamos possibilidades para uma formação que leva ao desenvolvimento e crescimento pessoal, profissional, político, cultural e etc, dos docentes, ou seja, não de uma maneira escolarizada, mas pautando o ‘formar-se’, de modo que leve em consideração três dimensões: científica, pedagógica e humana”, argumentaram Miriam e Susiane.
Toda a pesquisa, os trabalhos de campo que as professoras realizaram, bem como, a viagem para participar do Colóquio em Portugal, foram viabilizadas com recursos pessoais. O evento inicia na próxima semana entre os dias 30 de janeiro a 01 de fevereiro, em Lisboa, e contará com a presença de Miriam, Susiane e Adriana.
Amanda